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Certo dia, distraída ia eu buscando a vida. Acreditava encontrar
pelo caminho uma alma como a minha. Andando fui, percorrendo cidades,
transpondo barreiras, driblando tanques de guerra como valente guerreira
que sou. Cruzei vales e montanhas, cascatas, cachoeiras, rios traiçoeiros
e desertos infindáveis, repletos de esqueletos retorcidos pela maldade
humana. Mesmo assim não me abati, fui seguindo o caminho perseguindo
o destino. Este, ora implácavel e cruel, ora maternal e acolhedor,
foi pouco a pouco apagando as pegadas do passado vivido entre sorrisos
e sombras, descortinando o horizonte logo mais a frente cheio de
luz e calor. Ávida e sedenta, depois de tão longa caminhada, ao
cruzar o oceano julguei finalmente ter encontrado a paz. Ledo engano!
Uma grande guerra, a maior já defrontada por guerreiros que como
eu saem um dia do ninho a procura de glória, lá estava. Uma legião
de inimigos sorrateiros como as serpentes, astutos como os lobos
em busca da presa, sorridentes como as hienas me esperavam. Já abatida
e cansada por tantas lutas passadas, reuni forças e pouco a pouco
fui combatendo de peito aberto os mercadores de sonhos, os traficantes
de esperanças, os vendedores de almas. Acredito ter conseguido abater
pelo caminho uma dezena deles, o que me dá a sensação de haver vencido
de alguma forma esta luta inglória de imigrante sem fronteiras.
Por que então este gosto amargo que me vem agora à boca? Vencedores
ou vencidos, seguiremos sempre forasteiros em terra estranha. Recordo-me
estão dos campos de extermínio e me vejo incrustrada no maior de
todos.Entre corpos já mortos procuro em vão um sobrevivente, alguém
que tenha preservado a integridade moral, a esperança, a crença
no amanhã. Uma grande tristeza se apodera de minha alma. Abatida
e derrotada volto meus olhos para este campo de batalha repleto
de predadores de almas. Abutres que em silêncio consomem o que restou
destes corpos sem vida. Passa por mim alguém levando na mão a bandeira
da vitória, uma bandeira pequena, verde, a passagem para o sonho
americano. Tento me aproximar deste alguém, porém, estarrecida descubro
que já não vive, é apenas uma sombra, não tem alma. Paro então derrotada
pela dor de compreender que desta conquista, restou apenas um pequeno
passaporte para o nada, um papel cujo valor se tornou maior que
a alma. Uma corrente fria atravessa meu corpo neste exato momento.
Reconheço esta brisa, é mais uma alma que esquecida ficará no limbo
até que seu corpo caia triste e só em algum canto da vida, tendo
como companheira uma velha e surrada bandeira verde que alguns chamam
de Green Card.
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