Tereza Santo - U.S.A
.... Predadores de Almas


      Certo dia, distraída ia eu buscando a vida. Acreditava encontrar pelo caminho uma alma como a minha. Andando fui, percorrendo cidades, transpondo barreiras, driblando tanques de guerra como valente guerreira que sou. Cruzei vales e montanhas, cascatas, cachoeiras, rios traiçoeiros e desertos infindáveis, repletos de esqueletos retorcidos pela maldade humana. Mesmo assim não me abati, fui seguindo o caminho perseguindo o destino. Este, ora implácavel e cruel, ora maternal e acolhedor, foi pouco a pouco apagando as pegadas do passado vivido entre sorrisos e sombras, descortinando o horizonte logo mais a frente cheio de luz e calor. Ávida e sedenta, depois de tão longa caminhada, ao cruzar o oceano julguei finalmente ter encontrado a paz. Ledo engano! Uma grande guerra, a maior já defrontada por guerreiros que como eu saem um dia do ninho a procura de glória, lá estava. Uma legião de inimigos sorrateiros como as serpentes, astutos como os lobos em busca da presa, sorridentes como as hienas me esperavam. Já abatida e cansada por tantas lutas passadas, reuni forças e pouco a pouco fui combatendo de peito aberto os mercadores de sonhos, os traficantes de esperanças, os vendedores de almas. Acredito ter conseguido abater pelo caminho uma dezena deles, o que me dá a sensação de haver vencido de alguma forma esta luta inglória de imigrante sem fronteiras. Por que então este gosto amargo que me vem agora à boca? Vencedores ou vencidos, seguiremos sempre forasteiros em terra estranha. Recordo-me estão dos campos de extermínio e me vejo incrustrada no maior de todos.Entre corpos já mortos procuro em vão um sobrevivente, alguém que tenha preservado a integridade moral, a esperança, a crença no amanhã. Uma grande tristeza se apodera de minha alma. Abatida e derrotada volto meus olhos para este campo de batalha repleto de predadores de almas. Abutres que em silêncio consomem o que restou destes corpos sem vida. Passa por mim alguém levando na mão a bandeira da vitória, uma bandeira pequena, verde, a passagem para o sonho americano. Tento me aproximar deste alguém, porém, estarrecida descubro que já não vive, é apenas uma sombra, não tem alma. Paro então derrotada pela dor de compreender que desta conquista, restou apenas um pequeno passaporte para o nada, um papel cujo valor se tornou maior que a alma. Uma corrente fria atravessa meu corpo neste exato momento. Reconheço esta brisa, é mais uma alma que esquecida ficará no limbo até que seu corpo caia triste e só em algum canto da vida, tendo como companheira uma velha e surrada bandeira verde que alguns chamam de Green Card.