12/12/2000
EXUMAÇÃO
        Numa maratona que começa dentro da prefeitura, tentando-se localizar onde fica a pessoa que autoriza as exumações, e passa por todos os guiches do andar térreo dela, para um pagamento pela exumação de quase R$ 142,00 mais o pagamento de quase R$ 47,00 para poder retirar os ossos do cemitério, caso queira levar eles para outro local, consegue-se assim um comprovante para poder enfim proceder a exumação.
      Quem passa pela provação de enterrar um ente querido, junto com todos os procedimentos legais para o enterro dele, sofre essa burocracia maluca três anos depois caso não tenha utilizado um jazigo próprio, pois cumpre proceder uma rotina, que diz respeito à liberar para outro, a cova ou gaveta alugada para guardar os restos do falecido.
É aí nessa parte que entra o profissional para fazer o serviço: o coveiro, o homem que trabalha de segunda a segunda, sem feriados.
      Num Sol de quase 40 graus, começa a escavação para recolher os ossos do finado. A terra endurecida pelos três anos, briga forte contra a pá. A exumação é interrompida pela necessidade do coveiro ir fechar uma cova de um enterro que acontecia nesse mesmo horário.
     Uma caixa de fibra apropriada para guardar os ossos é comprada na funerária, por um valor entre 40 ou 45 Reais.
       Com a volta do coveiro, a exumação recomeça, e enfim, depois de aproximadamente uma hora de muita briga contra o chão duro, e à +/- 1 metro de profundidade, o caixão é alcançado.
Retira-se os pedaços agora podres dos paus que compõem o caixão, os restos secos de flores e adornos, e o coveiro, se utilizando agora de uma luva de borracha, procede à um teste com o corpo, verificando os intestinos, para saber se já pode ser retirado da terra.
     Antes dessa exumação, outras três já haviam sido feitas nessa manhã, mas em duas delas, depois dessa trabalheira braba ao Sol forte para alcançar o corpo, dois não se encontravam em condições de ser retirados, e suas covas foram novamente fechadas.
Após a constatação de que já se encontrava em condições de ser retirado, os restos do corpo vão sendo acomodados na caixinha de fibra, e logo estão prontos para serem levados para outro local.
Para aqueles que após os três anos do enterro, não dispõem de alguém que possa pagar os 181,00 Reais, referentes à exumação e a compra de uma caixinha, os ossos são retirados, enfiados dentro de um saco azul comum de lixo, etiquetado, e levados num carrinho de mão para um ossário ao fundo do cemitério.

Ao fim dessa jornada, perguntamos ao coveiro, como ele aguentava fazer tudo aquilo, ainda mais debaixo de um Sol quente como estava nesse dia, por um salário de R$ 250,00 (valor ouvido na prefeitura, quando recebemos a conta de 188,00 referentes à exumação mais liberação, e que motivou a curiosidade sobre qual seria então o salário do coveiro).

Resposta do coveiro : "Quem dera ganhar 250. O salário é 151, e sem direitos, pois sou só contratado, e sem ganhar nada pelo tempo que a gente acaba ficando aqui depois das 17:00hs quando acaba o expediente, quebrando o galho pra alguma família, esperando algum corpo chegar"