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Estou aqui parado há mais de uma
hora olhando o reflexo do meu corpo esquálido num espelho grande
de moldura antiga. Minhas roupas estão sujas e rasgadas. Em minha
faca, carrego marcas de quem vivenciou quase todas as experiências
da vida.
Quando sai daqui, ainda não existia
a estrada de ferro Niterói x Marica. Olho para todos os lados e
vejo a cidade em que nasci com cara de desenvolvimento. Isso me
causa grande dor, pois os anos que daqui fiquei afastado me foram
impostos. Amo essa cidade e queria ter, pelo menos, presenciado
esse marco fundamental em sua história. Sai daqui humilhado e estou
voltando com um único intento: vingança.
Hoje à noite irei matar a pessoa
que destruiu minha vida.
Vou contar minha história:
Nasci aqui em 1858, fruto da união
de um pescador com uma escrava. Minha mãe morreu afogada as margens
da Lagoa de Jacaroá, 1enquanto lavava roupa. Estava bêbada. Meu
pai foi assassinado numa briga de faca. Estava bêbado. Desde pequeno
alimentei grande ojeriza pela bebida alcoólica por ela ter sido
a culpada pela morte de meus pais.
Mesmo com todas as dificuldades
da vida humilde de pescador, aprendi a ler e dedicava boa parte
do tempo a leitura. Aonde ia, levava um livro em meu bisaco. Por
causa deste costume, ganhei a alcunha de professor.
- Eita! lá vem o professor com livro
embaixo do braço. Tu vai pescar ou vai lê, “fessô”?
-
Era assim. Uma vida tranqüila e calma. Sentia-me envolvido
pela magia do mar e dos livros. Enquanto meus amigos bebiam cachaça
na tendinha do Chico Branco, eu recitava minhas poesias. Todos gostavam.
Riam, aplaudiam e faziam todo tipo de comentários. Sentia-me importante
e seguro. Amava aquela vida, gostava de meus amigos e era feliz.
Teve uma grande festa na igreja
Nossa Senhora do Amparo e, embora eu não gostasse de sair à noite
para não ter que aturar as bebedeiras de Simão e Zé Crispim cedi
diante a constante insistência dos dois de que não beberiam.
- Vambora, “fessô”.
Um morenão desse, novo e bonito vai ficar ai fazendo o quê? Lendo
esse livro velho? Ta chei di mulé bunita lá ta bom. Vambora! Vambora!
- Ta bom, ta bom. Mas
eu só vou se vocês selarem meu cavalo.
Saíram correndo feito duas crianças.
Já estavam bêbados. Fui tomado de uma súbita raiva devido a inconseqüência
deles. “Maldita bebida”. Eu nem desconfiava que em pouquíssimo
tempo eu cometeria uma que arruinaria minha vida.
Naquela noite eu iria conhecer
a paixão e o ódio.
Tomei um banho e botei minha melhor
roupa. Estava calçando minhas botas quando chegaram Simão e Zé Crispim
fazendo o maior estardalhaço.
- Vambora professor, já ta todo
mundo pronto, só falta você.
Tamanha era minha raiva que não
respondi. Dirigi-me a mesa e peguei o meu bisaco.
- Tem jeito não! Aonde vai o professor
vai o livro junto.
A noite estava espetacular. A Lua
cheia, refletida na lagoa iluminava nosso caminho. O Céu estava
mais claro que de costume e as estrelas eram incontáveis.
Quando cheguei na praça, fiquei
impressionado com a quantidade de pessoas ali presentes. Simão e
Zé Crispim eram os mais eufóricos. Seus olhos brilhavam diante o
folguedo. Em poucos minutos haviam sumido na multidão. Todos estavam
contagiados com a animação, menos eu. Fiquei destacado mesmo com
tanta gente a me cercar, sentia-me solitário e triste. Fiquei alguns
minutos assistindo a apresentação de alguns nordestinos que cantavam
coco e logo em seguida tomei a decisão de ir embora. Lembrei-me
que meu bisaco estava com Zé Crispim (tinha me tomado numa dessas
brincadeiras sem-graça) e fui procura-lo. Havia uns palanques montados
ao lado da igreja com alguns políticos e aristocratas discursando
para um aglomerado de pessoas. Avistei os dois, aproximei-me, para
avisar que já estava de saída. Eles estavam abraçados, rindo e cantando
uma modinha, cada um com uma garrafa de cachaça na mão.
- Me dá o bisaco que eu vou embora,
seus cachaceiros.
Simão estava tão bêbado que mal
conseguia ficar de pé e suas palavras eram tão trôpegas quanto o
seu andar.
- Que naaada, “fessô”.
Alá no palanque... Nunca vi tanta muié buniiita e bem vestida. Óia!
Óia!
-
Enquanto falava, segurava-me pelo pescoço e direcionava minha
cabeça para o palanque. Foi então que eu vi, num relance, a criatura
mais bela desse mundo. Fiquei estático e pasmo diante daquela visão
que nem em meus mais belos sonhos conseguiria imaginar. A pele era
tão alva que parecia estar diante de uma escultura viva de Miguel
Ângelo. Os olhos possuíam brilho próprio tal qual uma estrela que
acabara de nascer. Estava vestida como um anjo. Oh! Que visão maravilhosa!
Minhas pernas vacilaram, meu coração disparou. Senti-me um touro
no abatedouro.Por ela, eu morreria. Por ela eu mataria.
Ouvi umas palavras como se sussurradas
no meu ouvido. Era Simão, mas ele não sussurrava estava gritando.
Fui despertado do meu transe pelo maldito ébrio.
- Acorda hômi, acorda! Nóis que
bebe e tu que fica bebo? Quié iiisso?
Agarrei-o pelo colarinho com força.
- Diga-me Simão! Diga-me quem é
aquela deusa de branco que eu não conheço nem nunca li sobre ela
nos livros de mitologia. Diga-me quem é aquele anjo. Acho que o
cupido me flechou. Estou sonhando? Responda-me Simão!
Gritava essas palavras enquanto
sacudia Simão violentamente para frente e para trás. Zé Crispim
intercedeu me puxando pelo braço.
- Professo, que qui ta acontecendo
cuntigo, qué mata Simão? Nunca ti vi assim, ta ficando doido?
- Então, diga-me quem é aquela
moça?
- Tu num pode chegar nem perto, professo. É Evelina, filha
do Barão de Inoã. O hômi é brabo que nem siri na lata. Ali tu só
vai arrumar desgraça. Desisti que num é pro teu bico!
Virei-me para o palanque. Só tinha
olhos para o meu amor. Há! Que desgraça! Não conseguia me imaginar
sem ela ao meu lado. Morreria sem a sua presença. Sei que morreria,
mas com falar-lhe de tudo isso? Como me aproximar de minha deusa?
Há! Que dor terrível em meu coração.
Mesmo conseguindo chegar perto
de minha amada, não conseguiria expressar tais sentimentos. Meu
maior mal era a timidez que me cortava as palavras do mesmo modo
que o aço corta o ventre do suicida com sua frialdade inorgânica.
Em um dado momento, não pude acreditar no que via. Parecia uma miragem
mais era real. Ela me olhava. Sim, ela me olhava! Que intensa alegria!
Dos lábios brotou um sorriso que exprimia todos os meus sentimentos.
Oh, Deus! Não pude acreditar, ela retribuiu! Que visão esplendorosa.
Seria capaz de singrar os sete mares para encontrar tal sorriso.
Poderia ficar dias só contemplando sua imagem, mas do que adianta
só pensar e não fazer? Tinha que fazer algo. Não poderia perder
tal oportunidade. Ela continuava me olhando fixamente. Como resistir?
Seus olhos pareciam me chamar e seus lábios pareciam pronunciar
meu nome. Ah, santa tentação! O que fazer, meu Deus, o que fazer?
De súbito, Zé Crispim parou na
minha frente atrapalhando minha visão. Ficou cara a cara comigo,
falando impregnando meu olfato com seu hálito forte de bebida barata.
- Que cara é essa “fessô”?
Nunca te vi desse jeito. Tu vai arrumar merda. Agora eu que quero
ir embora.
- Sai da frente! Não vou embora
enquanto não tiver com Evelina.
- Tu tá é doido, vambora!
O cheiro de cachaça era tão forte que me parecia sentir um
pouco do seu efeito. Tive uma idéia louca:
Zé Crispim era tão tímido quanto
eu e, no entanto, quando bebia, falava pelos cotovelos. Era isso,
tudo estava resolvido. Fiquei decidido a abrir a caixa de pandora
e prova do mesmo veneno que matou meus pais. Tudo pela Evelina.
Tomei a garrafa da mão de Zé Crispim e emborquei-a com sofreguidão.
Senti como se a lava de mil vulcões invadisse minhas entranhas e,
num instante, toda a ojeriza que alimentei toda minha vida sumiu
dando lugar um mórbido prazer.
Em instantes, surgiram mil palavras e idéias em minha mente.
Eu poderia fazer qualquer coisa! Não escutava mais nada do que meus
companheiros falavam. Só tinha olhos e olvidos para meu amor. Nunca
em minha vida fluíram tão bem.
Tirei o livro do meu bisaco, arranquei
uma página em branco e com meu punhal, fiz um furo no meu dedo indicador.
Com meu sangue, lhe escrevi o seguinte poema:
“Evelina, esse seu
magnetismo
me atraiu como um imã potente
gerando no meu corpo um fogo ardente.
Em minha mente emana o otimismo
Faça-me viver esse sonho
inocente!
Deixe-me cair em teu abismo!
Morfarei palavras soltas em lirismo
Para compor nossa paixão ascendente.
Então, meu amor, venha me
abraçar
Pra nos fundirmos numa só pessoa
E, em fim, nosso universo se alinhar.
Do que faremos, nada será à toa.
Tudo servirá para aumentar
O grito da paixão que em mim ecoa”
Do outro lado da folha escrevi:
“Quero falar-te pessoalmente.
Encontre-me embaixo da amendoeira grande, na rua da feira”.
Mil beijos.
Jurandir Mendonça
Caminhei para o palanque, chamei
uma escrava e lhe disse ao pé do ouvido:
- Entregue este bilhete a Evelina. Não deixe ninguém perceber,
senão depois você vai se ver comigo. Vá, vá!
Fiquei observando a escrava lhe
entregar o bilhete. Ela dobrou, guardou em sua algibeira, falou
alguma coisa no olvido do pai e se dirigiu para um canto do palanque.
Começou a ler, olhou para mim e sorriu um sorriso de confirmação.
Meu coração disparou. O grande momento havia chegado.
Sai em disparada na direção da
amendoeira. O tempo que esperei me pareceram séculos. No momento
em que a vi se aproximando, acompanhada de uma escrava, senti um
frio na espinha e fiquei paralisado quando escutei sua voz:
- Quem és tu que nunca vi e que,
no entanto me escrevestes palavras tão bonitas como se já me conhecesse
a tempos? São verdadeiras suas palavras ou tudo não passou de uma
grande pilhéria.
- Meu amor, palavras em minha boca
vagam a esmo mas, no poema, escrevo o que sinto. Expresso-me do
meu jeito e nunca minto senão, enganaria a mim mesmo. Sou Jurandir
Mendonça aquele que te amará para sempre.
Disse isso, me aproximei e lhe
dei um beijo suave, de ternura e paixão. Sentir-me completo. Fui
envolvido pelo seu cheiro, sua boca e sua pele. Escutei fogos. Meu
coração estava preste a explodir. Não conseguia parar de beija-la.
Ela era toda minha, pelo menos naquele momento.
De repente, senti uma mão rude
me puxar pelos cabelos e me separar do meu amor era o Barão com
meia dúzia de lacaios.
- Desgraçado! Quem você pensa que
é? Vai se arrepender pelo ultraje que cometeu, maldito!
Em seguida me deu uma forte chicotada
no rosto. Não consegui ver mais nada. Senti apenas a descarga de
socos, ponta pés e chicotadas. Cai no chão e continuei sendo surrado
por um bom tempo escutei o estalar de meus ossos sendo quebrados
e os gritos de Evelina. Desmaiei.
Recobrei a consciência duas semanas
depois. Estava deitado numa esteira em um quarto pequeno de um casebre
antigo no centro do Rio de Janeiro. Veio acudir-me uma tal Dona
Rita de Albuquerque, tia de Simão. As notícias não foram nada agradáveis.
Estava proibido de voltar a Maricá, tinha várias fraturas pelo corpo,
meu rosto estava desfigurado e só poderia ficar no casebre mais
duas semanas. Depois, rua.
- Você deu muita sorte, Jurandir.
Se não fosse Simão, a esta hora você estaria debaixo da terra.
Por sorte (ou azar) Dona Rita conseguiu-me
emprego nas docas do cais do porto como estivador. Em pouco tempo
envolvi-me com jogos, drogas, bebidas e prostitutas. Fazia de tudo
para esquecer Evelina, mas não conseguia nem por um dia, apagar
de minha mente a sua imagem.
Já não sorria. Vivia amargurado e triste. A dor da saudade
me torturava cada vez mais.
Em uma de minhas noites de esbórnia,
levei a prostituta Iracema para o cortiço em que eu morava. Estava
completamente bêbado e lhe falei do amor proibido que sentia por
Evelina. Ela começou a rir e a me jogar pilhérias. Pedi-lhe para
parar. Ela não me deu ouvidos e continuou a pilheriar e sorrir sarcasticamente.
Não suportei tais brincadeiras tive um surto de cólera e rasguei-lhe
o ventre de lado a lado com a minha peixeira.
“Me tire o monstro mal da inconseqüência.
Essa demência só me faz ruir
Feita traça macabra a puir
Os tecidos de minha existência”.
Estas foram as palavras que Tião
Capeta tatuou em meu tórax quando dividíamos a mesma cela da penitenciária
estadual. Amarguei vários anos naquele antro de doenças e desgraças.
Foi lá que fiquei sabendo do casamento de Evelina com Joaquim Nabuco.
Tinha acabado de perder o meu amor e o que alimentava minha vontade
de viver era a vingança assim que saísse da cadeia voltaria a maricá
e mataria o Barão de Inoã.
Maricá, 11 de outubro de 1906.
Escuto o sino da igreja badalar.
São seis da noite. Dentro de algumas horas concretizarei o meu intento
e descarregarei minha garrucha na cabeça de José Antônio Soares
Bezerra, o Barão de Inoã. Caminho pela praça em direção a duas beatas
que saem da igreja.
- Boas noites, senhoras.
- Boa noite! Responderam-me em uníssono.
- As senhoras sabem me informar se
o Barão de Inoã ainda reside na fazenda do Pilar?
- O senhor não ficou sabendo? O
Barão faleceu hoje as cinco da manhã devido a uma gangrena que ele
carregava na perna direita.
Levei um choque tão grande que meu
coração parecia querer sair pela boca. Senti engulhos, vomitei.
Tudo tinha perdido o sentido. Perdi Evelina, perdi a chance de vingança
fui tomado pelo desgosto e frustração.
Que desgraça! Deus foi injusto comigo me tirando esse derradeiro
prazer.
- Moço, o senhor quer ajuda?
Não respondi. Caminhei vagarosamente
com os passos descompassados de um moribundo para a rua da feira.
Tirei a corda que me servia como cinto, amarrei no galho mais forte,
pedi perdão a Deus e enforquei-me.
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