29/05/2002
MARICÁ, CONTOS E CASOS
Conto Finalista do Concurso da Academia de Ciências e Letras de Maricá, em parceria com a Revista Maricá Já

Transubstanciação
Rildo Aragão de França
 
     “Me tire o monstro mal da inconseqüência
Essa demência só me faz ruir
            Feita traça macabra a puir
Os tecidos de minha existência”.
(palavras tatuadas no tórax do narrador-personagem)
 
Marica, 11 de outubro de 1906.
 
 
 Estou aqui parado há mais de uma hora olhando o reflexo do meu corpo esquálido num espelho grande de moldura antiga. Minhas roupas estão sujas e rasgadas. Em minha faca, carrego marcas de quem vivenciou quase todas as experiências da vida.
 
 Quando sai daqui, ainda não existia a estrada de ferro Niterói x Marica. Olho para todos os lados e vejo a cidade em que nasci com cara de desenvolvimento. Isso me causa grande dor, pois os anos que daqui fiquei afastado me foram impostos. Amo essa cidade e queria ter, pelo menos, presenciado esse marco fundamental em sua história. Sai daqui humilhado e estou voltando com um único intento: vingança.
 
 Hoje à noite irei matar a pessoa que destruiu minha vida.
 
 Vou contar minha história:
 
 Nasci aqui em 1858, fruto da união de um pescador com uma escrava. Minha mãe morreu afogada as margens da Lagoa de Jacaroá, 1enquanto lavava roupa. Estava bêbada. Meu pai foi assassinado numa briga de faca. Estava bêbado. Desde pequeno alimentei grande ojeriza pela bebida alcoólica por ela ter sido a culpada pela morte de meus pais.
 
 Mesmo com todas as dificuldades da vida humilde de pescador, aprendi a ler e dedicava boa parte do tempo a leitura. Aonde ia, levava um livro em meu bisaco. Por causa deste costume, ganhei a alcunha de professor.
 
- Eita! lá vem o professor com livro embaixo do braço. Tu vai pescar ou vai lê, “fessô”?

 Era assim. Uma vida tranqüila e calma. Sentia-me envolvido pela magia do mar e dos livros. Enquanto meus amigos bebiam cachaça na tendinha do Chico Branco, eu recitava minhas poesias. Todos gostavam. Riam, aplaudiam e faziam todo tipo de comentários. Sentia-me importante e seguro. Amava aquela vida, gostava de meus amigos e era feliz.
 
 Teve uma grande festa na igreja Nossa Senhora do Amparo e, embora eu não gostasse de sair à noite para não ter que aturar as bebedeiras de Simão e Zé Crispim cedi diante a constante insistência dos dois de que não beberiam.
 
- Vambora, “fessô”. Um morenão desse, novo e bonito vai ficar ai fazendo o quê? Lendo esse livro velho? Ta chei di mulé bunita lá ta bom. Vambora! Vambora!
 
-    Ta bom, ta bom. Mas eu só vou se vocês selarem meu cavalo.
 
 
 
Saíram correndo feito duas crianças. Já estavam bêbados. Fui tomado de uma súbita raiva devido a inconseqüência deles. “Maldita bebida”. Eu nem desconfiava que em pouquíssimo tempo eu cometeria uma que arruinaria minha vida.
 
 Naquela noite eu iria conhecer a paixão e o ódio.
 
 Tomei um banho e botei minha melhor roupa. Estava calçando minhas botas quando chegaram Simão e Zé Crispim fazendo o maior estardalhaço.
 
- Vambora professor, já ta todo mundo pronto, só falta você.
 
 Tamanha era minha raiva que não respondi. Dirigi-me a mesa e peguei o meu bisaco.
 
- Tem jeito não! Aonde vai o professor vai o livro junto.
 
 A noite estava espetacular. A Lua cheia, refletida na lagoa iluminava nosso caminho. O Céu estava mais claro que de costume e as estrelas eram incontáveis.
 
 Quando cheguei na praça, fiquei impressionado com a quantidade de pessoas ali presentes. Simão e Zé Crispim eram os mais eufóricos. Seus olhos brilhavam diante o folguedo. Em poucos minutos haviam sumido na multidão. Todos estavam contagiados com a animação, menos eu. Fiquei destacado mesmo com tanta gente a me cercar, sentia-me solitário e triste. Fiquei alguns minutos assistindo a apresentação de alguns nordestinos que cantavam coco e logo em seguida tomei a decisão de ir embora. Lembrei-me que meu bisaco estava com Zé Crispim (tinha me tomado numa dessas brincadeiras sem-graça) e fui procura-lo. Havia uns palanques montados ao lado da igreja com alguns políticos e aristocratas discursando para um aglomerado de pessoas. Avistei os dois, aproximei-me, para avisar que já estava de saída. Eles estavam abraçados, rindo e cantando uma modinha, cada um com uma garrafa de cachaça na mão.
 
- Me dá o bisaco que eu vou embora, seus cachaceiros.
 
 Simão estava tão bêbado que mal conseguia ficar de pé e suas palavras eram tão trôpegas quanto o seu andar.
 
- Que naaada, “fessô”. Alá no palanque... Nunca vi tanta muié buniiita e bem vestida. Óia! Óia!

 Enquanto falava, segurava-me pelo pescoço e direcionava minha cabeça para o palanque. Foi então que eu vi, num relance, a criatura mais bela desse mundo. Fiquei estático e pasmo diante daquela visão que nem em meus mais belos sonhos conseguiria imaginar. A pele era tão alva que parecia estar diante de uma escultura viva de Miguel Ângelo. Os olhos possuíam brilho próprio tal qual uma estrela que acabara de nascer. Estava vestida como um anjo. Oh! Que visão maravilhosa! Minhas pernas vacilaram, meu coração disparou. Senti-me um touro no abatedouro.Por ela, eu morreria. Por ela eu mataria.
 
 Ouvi umas palavras como se sussurradas no meu ouvido. Era Simão, mas ele não sussurrava estava gritando. Fui despertado do meu transe pelo maldito ébrio.
 
 - Acorda hômi, acorda! Nóis que bebe e tu que fica bebo? Quié iiisso?
 Agarrei-o pelo colarinho com força.
 
- Diga-me Simão! Diga-me quem é aquela deusa de branco que eu não conheço nem nunca li sobre ela nos livros de mitologia. Diga-me quem é aquele anjo. Acho que o cupido me flechou. Estou sonhando? Responda-me Simão!
 
 Gritava essas palavras enquanto sacudia Simão violentamente para frente e para trás. Zé Crispim intercedeu me puxando pelo braço.
 
- Professo, que qui ta acontecendo cuntigo, qué mata Simão? Nunca ti vi assim, ta ficando doido?
 
 - Então, diga-me quem é aquela moça?
- Tu num pode chegar nem perto, professo. É Evelina, filha do Barão de Inoã. O hômi é brabo que nem siri na lata. Ali tu só vai arrumar desgraça. Desisti que num é pro teu bico!
 
 Virei-me para o palanque. Só tinha olhos para o meu amor. Há! Que desgraça! Não conseguia me imaginar sem ela ao meu lado. Morreria sem a sua presença. Sei que morreria, mas com falar-lhe de tudo isso? Como me aproximar de minha deusa? Há! Que dor terrível em meu coração.
 
 Mesmo conseguindo chegar perto de minha amada, não conseguiria expressar tais sentimentos. Meu maior mal era a timidez que me cortava as palavras do mesmo modo que o aço corta o ventre do suicida com sua frialdade inorgânica. Em um dado momento, não pude acreditar no que via. Parecia uma miragem mais era real. Ela me olhava. Sim, ela me olhava! Que intensa alegria! Dos lábios brotou um sorriso que exprimia todos os meus sentimentos. Oh, Deus! Não pude acreditar, ela retribuiu! Que visão esplendorosa. Seria capaz de singrar os sete mares para encontrar tal sorriso. Poderia ficar dias só contemplando sua imagem, mas do que adianta só pensar e não fazer? Tinha que fazer algo. Não poderia perder tal oportunidade. Ela continuava me olhando fixamente. Como resistir? Seus olhos pareciam me chamar e seus lábios pareciam pronunciar meu nome. Ah, santa tentação! O que fazer, meu Deus, o que fazer?
 
 De súbito, Zé Crispim parou na minha frente atrapalhando minha visão. Ficou cara a cara comigo, falando impregnando meu olfato com seu hálito forte de bebida barata.
 
- Que cara é essa “fessô”? Nunca te vi desse jeito. Tu vai arrumar merda. Agora eu que quero ir embora.
 
- Sai da frente! Não vou embora enquanto não tiver com Evelina.
 

- Tu tá é doido, vambora!
 
 O cheiro de cachaça era tão forte que me parecia sentir um pouco do seu efeito. Tive uma idéia louca:
 
 Zé Crispim era tão tímido quanto eu e, no entanto, quando bebia, falava pelos cotovelos. Era isso, tudo estava resolvido. Fiquei decidido a abrir a caixa de pandora e prova do mesmo veneno que matou meus pais. Tudo pela Evelina. Tomei a garrafa da mão de Zé Crispim e emborquei-a com sofreguidão. Senti como se a lava de mil vulcões invadisse minhas entranhas e, num instante, toda a ojeriza que alimentei toda minha vida sumiu dando lugar um mórbido prazer.
 Em instantes, surgiram mil palavras e idéias em minha mente. Eu poderia fazer qualquer coisa! Não escutava mais nada do que meus companheiros falavam. Só tinha olhos e olvidos para meu amor. Nunca em minha vida fluíram tão bem.
 
 Tirei o livro do meu bisaco, arranquei uma página em branco e com meu punhal, fiz um furo no meu dedo indicador. Com meu sangue, lhe escrevi o seguinte poema:
 
  “Evelina, esse seu magnetismo
  me atraiu como um imã potente
  gerando no meu corpo um fogo ardente.
  Em minha mente emana o otimismo
 
  Faça-me viver esse sonho inocente!
  Deixe-me cair em teu abismo!
  Morfarei palavras soltas em lirismo
  Para compor nossa paixão ascendente.
 
  Então, meu amor, venha me abraçar
Pra nos fundirmos numa só pessoa
E, em fim, nosso universo se alinhar.
 
Do que faremos, nada será à toa.
Tudo servirá para  aumentar
O grito da paixão que em mim ecoa”
 
 Do outro lado da folha escrevi:
 
  “Quero falar-te pessoalmente. Encontre-me embaixo da amendoeira grande, na rua da feira”.
  Mil beijos.
       Jurandir Mendonça
 
 Caminhei para o palanque, chamei uma escrava e lhe disse ao pé do ouvido:
- Entregue este bilhete a Evelina. Não deixe ninguém perceber, senão depois você vai se ver comigo. Vá, vá!
 
 Fiquei observando a escrava lhe entregar o bilhete. Ela dobrou, guardou em sua algibeira, falou alguma coisa no olvido do pai e se dirigiu para um canto do palanque. Começou a ler, olhou para mim e sorriu um sorriso de confirmação. Meu coração disparou. O grande momento havia chegado.
 
 Sai em disparada na direção da amendoeira. O tempo que esperei me pareceram séculos. No momento em que a vi se aproximando, acompanhada de uma escrava, senti um frio na espinha e fiquei paralisado quando escutei sua voz:
 
- Quem és tu que nunca vi e que, no entanto me escrevestes palavras tão bonitas como se já me conhecesse a tempos? São verdadeiras suas palavras ou tudo não passou de uma grande pilhéria.
 
- Meu amor, palavras em minha boca vagam a esmo mas, no poema, escrevo o que sinto. Expresso-me do meu jeito e nunca minto senão, enganaria a mim mesmo. Sou Jurandir Mendonça aquele que te amará para sempre.
 
 Disse isso, me aproximei e lhe dei um beijo suave, de ternura e paixão. Sentir-me completo. Fui envolvido pelo seu cheiro, sua boca e sua pele. Escutei fogos. Meu coração estava preste a explodir. Não conseguia parar de beija-la. Ela era toda minha, pelo menos naquele momento.
 
 De repente, senti uma mão rude me puxar pelos cabelos e me separar do meu amor era o Barão com meia dúzia de lacaios.
 
- Desgraçado! Quem você pensa que é? Vai se arrepender pelo ultraje que cometeu, maldito!
 
 Em seguida me deu uma forte chicotada no rosto. Não consegui ver mais nada. Senti apenas a descarga de socos, ponta pés e chicotadas. Cai no chão e continuei sendo surrado por um bom tempo escutei o estalar de meus ossos sendo quebrados e os gritos de Evelina. Desmaiei.
 
  Recobrei a consciência duas semanas depois. Estava deitado numa esteira em um quarto pequeno de um casebre antigo no centro do Rio de Janeiro. Veio acudir-me uma tal Dona Rita de Albuquerque, tia de Simão. As notícias não foram nada agradáveis. Estava proibido de voltar a Maricá, tinha várias fraturas pelo corpo, meu rosto estava desfigurado e só poderia ficar no casebre mais duas semanas. Depois, rua.
 
- Você deu muita sorte, Jurandir. Se não fosse Simão, a esta hora você estaria debaixo da terra.
 
 Por sorte (ou azar) Dona Rita conseguiu-me emprego nas docas do cais do porto como estivador. Em pouco tempo envolvi-me com jogos, drogas, bebidas e prostitutas. Fazia de tudo para esquecer Evelina, mas não conseguia nem por um dia, apagar de minha mente a sua imagem.
 Já não sorria. Vivia amargurado e triste. A dor da saudade me torturava cada vez mais.
 
 Em uma de minhas noites de esbórnia, levei a prostituta Iracema para o cortiço em que eu morava. Estava completamente bêbado e lhe falei do amor proibido que sentia por Evelina. Ela começou a rir e a me jogar pilhérias. Pedi-lhe para parar. Ela não me deu ouvidos e continuou a pilheriar e sorrir sarcasticamente. Não suportei tais brincadeiras tive um surto de cólera e rasguei-lhe o ventre de lado a lado com a minha peixeira.
  
  “Me tire o monstro mal da inconseqüência.
  Essa demência só me faz ruir
  Feita traça macabra a puir
  Os tecidos de minha existência”.
 
 Estas foram as palavras que Tião Capeta tatuou em meu tórax quando dividíamos a mesma cela da penitenciária estadual. Amarguei vários anos naquele antro de doenças e desgraças. Foi lá que fiquei sabendo do casamento de Evelina com Joaquim Nabuco. Tinha acabado de perder o meu amor e o que alimentava minha vontade de viver era a vingança assim que saísse da cadeia voltaria a maricá e mataria o Barão de Inoã.
 
 
Maricá, 11 de outubro de 1906.
 
 Escuto o sino da igreja badalar. São seis da noite. Dentro de algumas horas concretizarei o meu intento e descarregarei minha garrucha na cabeça de José Antônio Soares Bezerra, o Barão de Inoã. Caminho pela praça em direção a duas beatas que saem da igreja.
 
- Boas noites, senhoras.
 
- Boa noite! Responderam-me em uníssono.
 

- As senhoras sabem me informar se o Barão de Inoã ainda reside na fazenda do Pilar?
 
- O senhor não ficou sabendo? O Barão faleceu hoje as cinco da manhã devido a uma gangrena que ele carregava na perna direita.
 

 Levei um choque tão grande que meu coração parecia querer sair pela boca. Senti engulhos, vomitei. Tudo tinha perdido o sentido. Perdi Evelina, perdi a chance de vingança fui tomado pelo desgosto e frustração.
 
Que desgraça! Deus foi injusto comigo me tirando esse derradeiro prazer.
 
- Moço, o senhor quer ajuda?
 
 Não respondi. Caminhei vagarosamente com os passos descompassados de um moribundo para a rua da feira. Tirei a corda que me servia como cinto, amarrei no galho mais forte, pedi perdão a Deus e enforquei-me.