Lia recebeu visitas no sábado. Adorou
ter a casa cheia de amigos e ficou triste quando eles foram embora.
Ela estava cansada de sua miniatura de família, composta
de quatro seres, três deles irracionais. Gostava quando outras
pessoas chegavam para encher o ambiente de sons. Pena que, no
instante em que tudo voltava ao normal, o silêncio ficava ainda
pior.
- Outono é uma bonita estação - pensou
enquanto lavava a louça que transbordava na pia. Ela adorava o
outono dos europeus. Adorava ver os frutos e as folhas se exibindo
de uma maneira desesperada, dando aos homens a última chance de
contemplar a sua beleza antes de um longo inverno. Era quando
a natureza se recolhia num sono profundo para só voltar a ressurgir
na primavera. Lembrou-se do tempo em que fazia mestrado no exterior
e precisava fazer compotas para aproveitar as frutas colhidas
no outono. No Brasil, que permanecia verde e florido o ano inteiro,
outono era apenas uma estação psicológica. Mesmo assim, ainda
era outono. No dia seguinte, depois do café, tentaria fazer um
doce que aprendera com uma velha amiga européia. Um doce com sabor
de saudade.
Naqueles domingos, fora da temporada
de férias, a mulher se transformava num ser solitário. Todas
as pessoas que a cercavam desapareciam, num passe de mágica -
como se uma bruxa malvada convertesse o mundo em silêncio. Morando
em Maricá e trabalhando no Rio de Janeiro, todos os seus conhecidos
estavam do outro lado da ponte. Até mesmo seus cachorros se recusavam
a latir. Eles se deixavam levar pela calmaria e dormiam alienados
embaixo do sofá.
Lia se aproximou da janela e olhou para a rua deserta. De onde
estava, apenas ouvia o barulho do mar - um som que, de tão familiar,
já fazia parte de sua vida como uma segunda pulsação cardíaca.
Os vizinhos barulhentos, onde estariam? A empregada Clarice,
que perguntava sobre tudo o tempo inteiro, o que estaria fazendo
em seu dia de descanso? E o dono do bar em frente? E os bêbados
cambaleantes que jogavam sinuca? E os colegas de trabalho?
Lia reinventara a expressão "comida
de domingo". No verão, quando os sobrinhos vinham para a praia,
sempre havia uma apetitosa galinha de forno, uma macarronada com
o melhor molho do mundo, um leitão com maçã na boca...No outono,
porém, era algo feito para ser comido depressa, porque não havia
local onde ela se sentisse mais solitária que em uma mesa
de refeições vazia. Não estava pronta para a solidão. Jamais seria
uma navegadora solitária, uma ciclista a percorrer o mundo, uma
andarilha pagadora de promessa. Seus dois irmãos lhe proporcionaram
uma infância maravilhosa e nunca a deixaram sozinha. Nunca a excluíram
porque era uma menina. Mas a infância não durara para sempre.
Os irmãos agora eram casados e os pais, falecidos. A adolescência
passara como um foguete veloz. Estivera às voltas com o vestibular
e o curso de graduação. Na juventude, os esforços para se aperfeiçoar
na carreira foram recompensados com um bom emprego e a independência
econômica. Não sobrara muito tempo para conquistas amorosas e,
agora, o preço que pagava era a solidão.
O silêncio acordou os fantasmas que
carregava em sua alma. E ela ficou desejando que o domingo acabasse
logo para que seus alunos voltassem. Depois, como sempre acontecia
no domingo, ficou desejando que a vida passasse logo. Estava assim,
sentada no sofá, tentando ler um livro e lutando contra pensamentos
perversos, quando o telefone tocou.
- É estranho - pensou. - Quem
se lembraria de mim num dia como hoje? Os parentes não telefonavam
com freqüência, a não ser quando queriam ficar hospedados em sua
casa. Mas haviam partido no dia anterior. Quem mais poderia ser?
Talvez fosse outra ligação de engano.
Quando suas mãos agarraram o aparelho,
a voz familiar do outro lado fez seu coração bater mais forte:
-Lia, eu sou você falando
do futuro. Não tenho muito tempo para falar, portanto, apenas
me escute. Aqui, meio século depois do tempo que ainda está vivendo,
você repousa em completa tranqüilidade. Já nem se lembra mais
do que provocou tanta turbulência em seu interior. Estou numa
cadeira confortável, sentada no jardim que você ainda está começando
a plantar. Já não tenho seus problemas e só me preocupo em manter
os ossos firmes para caminhar ao sol. Todas as coisas que agora
lhe parecem terrivelmente estressantes já não existem mais. Você
atingiu o equilíbrio, a maturidade e está serena. Seu olhar já
não procura o horizonte. Não há mais objetivos a perseguir. Você
conquistou seus alvos e descobriu que não valeu a pena ficar tão
ansiosa. A vida não é um túnel, Lia. Você não tem que caminhar
no escuro perseguindo uma luz distante. A vida é uma trilha alegre,
cheia de coisas bonitas para olhar. É como aquele caminho que
você fazia para chegar na sua primeira escola. Você sabia para
onde estava indo e o quanto precisava chegar, mas sempre conseguia
parar para trocar figurinhas, jogar bolinhas de gude e comprar
um picolé. A vida passa muito depressa, Lia. Ontem eu era você
cheia de sonhos e agora, quando chego ao meu ocaso, vejo tudo
o que deixei passar, preocupada com coisas que não tinham a menor
importância. Mas você ainda tem muito tempo para viver e pode
fazer tudo diferente. Do outro lado dos muros de sua pequena fortaleza,
há pessoas que você precisa conhecer, tocar e amar. Não se condene
a uma vida de solidão. Aproveite os melhores anos de sua existência.
A ligação foi interrompida, mas a voz
familiar continuou martelando sua cabeça: “Aproveite os
melhores anos de sua existência”.
Lia se sentiu aterrorizada, agradecida, aliviada, confusa...Faltava
ar. Abriu as janelas. Faltava luz. Abriu as cortinas. Faltava
liberdade. Abriu as portas. Saiu com os pés descalços, correndo
em direção à praia. A Barra tinha um novo azul. Ela correu
pela areia, rodopiou, molhou os pés e saiu saltitante. Parou num
quiosque, pediu um refrigerante e nem se lembrou de que não trouxera
dinheiro. Ao longe, dois meninos tentavam pescar com uma pequena
rede. Seu olhar foi envolvendo toda a praia e contemplando cada
uma das pessoas que ela desejava conhecer.
FIM