29/05/2002
MARICÁ, CONTOS E CASOS
Conto Finalista do Concurso da Academia de Ciências e Letras de Maricá, em parceria com a Revista Maricá Já

O  TELEFONEMA
Iolanda Rodrigues Ferreira

 
Lia recebeu visitas no sábado. Adorou ter a casa cheia de amigos e ficou triste quando eles foram embora. Ela estava cansada  de sua miniatura de família, composta de quatro seres, três deles irracionais. Gostava quando outras pessoas chegavam para encher o ambiente de sons. Pena que, no instante em que tudo voltava ao normal, o silêncio ficava ainda pior. 
 
- Outono é uma bonita estação - pensou enquanto lavava a louça que transbordava na pia. Ela adorava o outono dos europeus. Adorava ver os frutos e as folhas se exibindo de uma maneira desesperada, dando aos homens a última chance de contemplar a sua beleza antes de um longo inverno. Era quando a natureza se recolhia num sono profundo para só voltar a ressurgir na primavera. Lembrou-se do tempo em que fazia mestrado no exterior e precisava fazer compotas para aproveitar as frutas colhidas no outono. No Brasil, que permanecia verde e florido o ano inteiro, outono era apenas uma estação psicológica. Mesmo assim, ainda era outono. No dia seguinte, depois do café, tentaria fazer um doce que aprendera com uma velha amiga européia. Um doce com sabor de saudade. 
 
Naqueles domingos, fora da temporada de férias,  a mulher se transformava num ser solitário. Todas as pessoas que a cercavam desapareciam, num passe de mágica - como se uma bruxa malvada convertesse o mundo em silêncio. Morando em Maricá e trabalhando no Rio de Janeiro, todos os seus conhecidos estavam do outro lado da ponte. Até mesmo seus cachorros se recusavam a latir. Eles se deixavam levar pela calmaria e dormiam alienados embaixo do sofá.
Lia se aproximou da janela e olhou para a rua deserta. De onde estava, apenas ouvia o barulho do mar - um som que, de tão familiar, já fazia parte de sua vida como uma segunda pulsação cardíaca. Os vizinhos barulhentos, onde estariam?  A empregada Clarice, que perguntava sobre tudo o tempo inteiro, o que estaria fazendo em seu dia de descanso? E o dono do bar em frente? E os bêbados cambaleantes que jogavam sinuca? E os colegas de trabalho?
 
Lia reinventara a expressão "comida de domingo". No verão, quando os sobrinhos vinham para a praia, sempre havia uma apetitosa galinha de forno, uma macarronada com o melhor molho do mundo, um leitão com maçã na boca...No outono, porém, era algo feito para ser comido depressa, porque não havia local onde ela  se sentisse mais solitária que em uma mesa de refeições vazia. Não estava pronta para a solidão. Jamais seria uma navegadora solitária, uma ciclista a percorrer o mundo, uma andarilha pagadora de promessa. Seus dois irmãos lhe proporcionaram uma infância maravilhosa e nunca a deixaram sozinha. Nunca a excluíram porque era uma menina. Mas a infância não durara para sempre. Os irmãos agora eram casados e os pais, falecidos. A adolescência passara como um foguete veloz. Estivera às voltas com o vestibular e o curso de graduação. Na juventude, os esforços para se aperfeiçoar na carreira foram recompensados com um bom emprego e a independência econômica. Não sobrara muito tempo para conquistas amorosas e, agora, o preço que pagava era a solidão.
 
O silêncio acordou os fantasmas que carregava em sua alma. E ela ficou desejando que o domingo acabasse logo para que seus alunos voltassem. Depois, como sempre acontecia no domingo, ficou desejando que a vida passasse logo. Estava assim, sentada no sofá, tentando ler um livro e lutando contra pensamentos perversos, quando o telefone tocou.
 
- É estranho - pensou. - Quem se lembraria de mim num dia como hoje? Os parentes não telefonavam com freqüência, a não ser quando queriam ficar hospedados em sua casa. Mas haviam partido no dia anterior. Quem mais poderia ser? Talvez fosse outra ligação de engano.
 
Quando suas mãos agarraram o aparelho, a voz familiar do outro lado fez seu coração bater mais forte:
 

   -Lia, eu sou você falando do futuro. Não tenho muito tempo para falar, portanto, apenas me escute. Aqui, meio século depois do tempo que ainda está vivendo, você repousa em completa tranqüilidade. Já nem se lembra mais do que provocou tanta turbulência em seu interior. Estou numa cadeira confortável, sentada no jardim que você ainda está começando a plantar. Já não tenho seus problemas e só me preocupo em manter os ossos firmes para caminhar ao sol. Todas as coisas que agora lhe parecem terrivelmente estressantes já não existem mais. Você atingiu o equilíbrio, a maturidade e está serena. Seu olhar já não procura o horizonte. Não há mais objetivos a perseguir. Você conquistou seus alvos e descobriu que não valeu a pena ficar tão ansiosa. A vida não é um túnel, Lia. Você não tem que caminhar no escuro perseguindo uma luz distante. A vida é uma trilha alegre, cheia de coisas bonitas para olhar. É como aquele caminho que você fazia para chegar na sua primeira escola. Você sabia para onde estava indo e o quanto precisava chegar, mas sempre conseguia parar para trocar figurinhas, jogar bolinhas de gude e comprar um picolé. A vida passa muito depressa, Lia. Ontem eu era você cheia de sonhos e agora, quando chego ao meu ocaso, vejo tudo o que deixei passar, preocupada com coisas que não tinham a menor importância. Mas você ainda tem muito tempo para viver e pode fazer tudo diferente. Do outro lado dos muros de sua pequena fortaleza, há pessoas que você precisa conhecer, tocar e amar. Não se condene a uma vida de solidão. Aproveite os melhores anos de sua existência.
 
A ligação foi interrompida, mas a voz familiar continuou martelando sua cabeça: “Aproveite os melhores anos de sua existência”.
Lia se sentiu aterrorizada, agradecida, aliviada, confusa...Faltava ar. Abriu as janelas. Faltava luz. Abriu as cortinas. Faltava liberdade. Abriu as portas. Saiu com os pés descalços, correndo em direção à praia. A Barra  tinha um novo azul. Ela correu pela areia, rodopiou, molhou os pés e saiu saltitante. Parou num quiosque, pediu um refrigerante e nem se lembrou de que não trouxera dinheiro. Ao longe, dois meninos tentavam pescar com uma pequena rede. Seu olhar foi envolvendo toda a praia e contemplando cada uma das pessoas que ela desejava conhecer.
 
 
 
FIM