29/05/2002
MARICÁ, CONTOS E CASOS
Conto Finalista do Concurso da Academia de Ciências e Letras de Maricá, em parceria com a Revista Maricá Já

O SUMIÇO DA SANTA
 Felippe Bittencourt Salles
 

 
 Conta-se que nos primórdios de nossa querida cidade, talvez ainda na época em que tinha o nome de Vila de Santa Maria, um fato inusitado ocorreu tirando o sono de alguns e aguçando a desconfiança de outros.
 
 Como acontece todo o dia, religiosamente, o pároco da Matriz abre as portas da Casa de Deus para que os fiéis possam entrar e rezar em agradecimento pelas graças alcançadas, confessar-se e livrar-se de seus pecados (pelo menos por algum tempo), marcar missas, batizados, casamentos, alguns temerosos por já ter alcançado uma idade avançada e preocupados com o Juízo Final, procuram maior intimidade com Ele, tornando-se freqüentadores mais assíduos de Sua casa.
 
  O pároco, se preparando para rezar a primeira missa, tomou seu lugar de costume em frente ao altar (naquela época, a missa era celebrada ainda em latim e o padre ficava de frente para o altar mor e de costas para os fiéis). Logo que, levantou os braços para o alto para exaltar o Senhor, sentiu, por intuição, que alguma coisa estava faltando e pasmem os leitores, a Santa Padroeira, ou seja, a sua imagem não estava lá no lugar de sempre:
 
- Foi roubada ! A santa foi roubada! Gritou o padre, despertando a atenção dos fiéis, que a esta altura já estavam entoando os cânticos de louvor.
 
 Foi uma confusão. O padre passou mal, tinha desmaios um atrás do outro. As carolas nervosas não sabiam se socorriam o padre ou corriam em busca da autoridade local para comunicar o sumiço da imagem. A missa mal começada foi cancelada, o sacerdote não tinha a menor condição de levar adiante o culto.
 
 Chegada a autoridade, o delegado, iniciou-se a inquisição de todos os presentes, arrolados como testemunhas do fato mais importante ocorrido na pacata Vila.
 
 Uns achavam que a santa havia sido roubada, outros já achavam que deveria ser brincadeira de mau gosto de alguém e que a imagem logo seria devolvida sem que ninguém notasse, assim como se deu o sumiço da mesma.
 
 O delegado queria informações sobre o valor material do objeto, uma vez que conhecia sua incontestável preciosidade na parte espiritual. A imagem era venerada há muito pelos fiéis e romeiros que vinham renovar seus pedidos e agradecimentos por ocasião da procissão do dia 15 de agosto.
 
 Era estarrecedora a notícia que correu pelo povoado como rastilho de pólvora e não se falava n’outra coisa nas rodas de conversas por toda a Vila. Procuravam um culpado, que bem poderia estar participando da conversa, com a cara mais lavada deste mundo, enquanto guardava só para si os dotes milagreiros da santa.
 
- Onde já se viu, roubar uma santa? É motivo para ser condenado a arder no fogo do inferno por toda a eternidade !  Diziam as carolas e comadres no ti-ti-ti durante a feira, nas compras do armazém, até mesmo na beira do rio das Mulatas, onde as lavadeiras deixaram de cantar, como era de hábito durante o trabalho, para comentar o fato inusitado.
 
 Os pescadores, na colônia de pesca ali na Zacarias, também conversavam sobre o assunto, combinando uma empreitada de percorrer os arredores da Vila, prestando muita atenção nas conversas para ver se conseguiam descobrir uma pista de onde estaria a imagem da santa. De repente alguém poderia  cair em contradição , quem sabe ?
 
 A presença da santa era fundamental, pois a seus pés os pescadores pediam por seus sustentos, por pescarias fartas coisa que não estava acontecendo mais ultimamente. Os peixes estavam rareando, os barcos demoravam mais a voltar do mar e as famílias ficavam apreensivas aguardando seus chefes retornarem são e salvo sempre com as bênçãos da Santa que os amparavam nas horas de dificuldades.
 
 Naquele mesmo dia, os barcos entrariam mar afora para mais uma pescaria e, com o acontecido, as perspectivas eram as piores possíveis. Os homens abatidos e descrentes do sucesso, as famílias sofrendo pela incerteza e falta de confiança na volta de seus homens. O astral era o pior possível!
 
 Os barcos se afastaram da costa em busca de minguados peixes pelo menos para dar de comer a seus filhos e esposas. Após algumas horas de navegação, jogando rede e recolhendo rede, avistaram um corpo ao mar. Imediatamente dirigiram alguns barcos para o local e retiraram o corpo de dentro d’ água. Era uma mulher, muito bonita e com suas roupas ensopadas e frias. Como não havia roupas de mulher a bordo, envolveram-na com um cobertor para aquecê-la  e ouviram-na dizer que estava ali boiando há algum tempo e com receio de ser molestada pelos peixes, pois os vira em cardumes imensos.
 
 Ali mesmo, sem mais perguntar, lançaram suas redes ao mar, que ao serem recolhidas, vieram abarrotadas de peixes de todos os espécimes. A melhor pescaria de que já se teve notícia naquela época.
 
 Rufino, ao procurar com os olhos a mulher que acolhera em seu barco para agradecer pela sorte que dera à pescaria, ficou estupefato ao vê-la por um momento enrolada em seu cobertor e, em seguida, envolvida por um manto azul com uma coroa na cabeça, envolta em um brilho de luz, sorrindo de contentamento por ter amparado os seus mais humildes devotos.
 
 Qual não foi o susto do pároco quando abriu a Matriz no dia seguinte e deparou com a Santa em seu local de sempre e, sobre os degraus do altar mor, aquele cobertor úmido, desbotado, cheirando à maresia.
 
O padre se ajoelhou persignando-se e imediatamente o cântico de louvor começou a ser entoados pelas beatas. O pároco, fazendo cara de nojo, chamou a carola mais próxima e,  com o cobertor nas mãos, seguro apenas pelas pontas dos dedos e ignorando estar de posse de uma relíquia, deu a seguinte ordem:
 
- Joga fora esta porcaria !
       
No que foi prontamente atendido.
 
 
 

FIM