Conta-se que nos primórdios de
nossa querida cidade, talvez ainda na época em que tinha o nome
de Vila de Santa Maria, um fato inusitado ocorreu tirando o sono
de alguns e aguçando a desconfiança de outros.
Como acontece todo o dia, religiosamente,
o pároco da Matriz abre as portas da Casa de Deus para que os
fiéis possam entrar e rezar em agradecimento pelas graças alcançadas,
confessar-se e livrar-se de seus pecados (pelo menos por algum
tempo), marcar missas, batizados, casamentos, alguns temerosos
por já ter alcançado uma idade avançada e preocupados com o Juízo
Final, procuram maior intimidade com Ele, tornando-se freqüentadores
mais assíduos de Sua casa.
O pároco, se preparando para
rezar a primeira missa, tomou seu lugar de costume em frente ao
altar (naquela época, a missa era celebrada ainda em latim e o
padre ficava de frente para o altar mor e de costas para os fiéis).
Logo que, levantou os braços para o alto para exaltar o Senhor,
sentiu, por intuição, que alguma coisa estava faltando e pasmem
os leitores, a Santa Padroeira, ou seja, a sua imagem não estava
lá no lugar de sempre:
- Foi roubada ! A santa foi roubada!
Gritou o padre, despertando a atenção dos fiéis, que a esta altura
já estavam entoando os cânticos de louvor.
Foi uma confusão. O padre passou
mal, tinha desmaios um atrás do outro. As carolas nervosas não
sabiam se socorriam o padre ou corriam em busca da autoridade
local para comunicar o sumiço da imagem. A missa mal começada
foi cancelada, o sacerdote não tinha a menor condição de levar
adiante o culto.
Chegada a autoridade, o delegado,
iniciou-se a inquisição de todos os presentes, arrolados como
testemunhas do fato mais importante ocorrido na pacata Vila.
Uns achavam que a santa havia
sido roubada, outros já achavam que deveria ser brincadeira de
mau gosto de alguém e que a imagem logo seria devolvida sem que
ninguém notasse, assim como se deu o sumiço da mesma.
O delegado queria informações
sobre o valor material do objeto, uma vez que conhecia sua incontestável
preciosidade na parte espiritual. A imagem era venerada há muito
pelos fiéis e romeiros que vinham renovar seus pedidos e agradecimentos
por ocasião da procissão do dia 15 de agosto.
Era estarrecedora a notícia que
correu pelo povoado como rastilho de pólvora e não se falava n’outra
coisa nas rodas de conversas por toda a Vila. Procuravam um culpado,
que bem poderia estar participando da conversa, com a cara mais
lavada deste mundo, enquanto guardava só para si os dotes milagreiros
da santa.
- Onde já se viu, roubar uma santa?
É motivo para ser condenado a arder no fogo do inferno por toda
a eternidade ! Diziam as carolas e comadres no ti-ti-ti
durante a feira, nas compras do armazém, até mesmo na beira do
rio das Mulatas, onde as lavadeiras deixaram de cantar, como era
de hábito durante o trabalho, para comentar o fato inusitado.
Os pescadores, na colônia de
pesca ali na Zacarias, também conversavam sobre o assunto, combinando
uma empreitada de percorrer os arredores da Vila, prestando muita
atenção nas conversas para ver se conseguiam descobrir uma pista
de onde estaria a imagem da santa. De repente alguém poderia
cair em contradição , quem sabe ?
A presença da santa era fundamental,
pois a seus pés os pescadores pediam por seus sustentos, por pescarias
fartas coisa que não estava acontecendo mais ultimamente. Os peixes
estavam rareando, os barcos demoravam mais a voltar do mar e as
famílias ficavam apreensivas aguardando seus chefes retornarem
são e salvo sempre com as bênçãos da Santa que os amparavam nas
horas de dificuldades.
Naquele mesmo dia, os barcos
entrariam mar afora para mais uma pescaria e, com o acontecido,
as perspectivas eram as piores possíveis. Os homens abatidos e
descrentes do sucesso, as famílias sofrendo pela incerteza e falta
de confiança na volta de seus homens. O astral era o pior possível!
Os barcos se afastaram da costa
em busca de minguados peixes pelo menos para dar de comer a seus
filhos e esposas. Após algumas horas de navegação, jogando rede
e recolhendo rede, avistaram um corpo ao mar. Imediatamente dirigiram
alguns barcos para o local e retiraram o corpo de dentro d’
água. Era uma mulher, muito bonita e com suas roupas ensopadas
e frias. Como não havia roupas de mulher a bordo, envolveram-na
com um cobertor para aquecê-la e ouviram-na dizer que estava
ali boiando há algum tempo e com receio de ser molestada pelos
peixes, pois os vira em cardumes imensos.
Ali mesmo, sem mais perguntar,
lançaram suas redes ao mar, que ao serem recolhidas, vieram abarrotadas
de peixes de todos os espécimes. A melhor pescaria de que já se
teve notícia naquela época.
Rufino, ao procurar com os olhos
a mulher que acolhera em seu barco para agradecer pela sorte que
dera à pescaria, ficou estupefato ao vê-la por um momento enrolada
em seu cobertor e, em seguida, envolvida por um manto azul com
uma coroa na cabeça, envolta em um brilho de luz, sorrindo de
contentamento por ter amparado os seus mais humildes devotos.
Qual não foi o susto do pároco
quando abriu a Matriz no dia seguinte e deparou com a Santa em
seu local de sempre e, sobre os degraus do altar mor, aquele cobertor
úmido, desbotado, cheirando à maresia.
O padre se ajoelhou persignando-se
e imediatamente o cântico de louvor começou a ser entoados pelas
beatas. O pároco, fazendo cara de nojo, chamou a carola mais próxima
e, com o cobertor nas mãos, seguro apenas pelas pontas dos
dedos e ignorando estar de posse de uma relíquia, deu a seguinte
ordem:
- Joga fora esta porcaria !
No que foi prontamente atendido.
FIM