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O litoral fluminense
possui belíssimas praias. Porém, há uma que é a minha praia: Ponta
Negra.
Embora não seja natural da região, conheci Ponta Negra em 1974,
pouco depois de lá chegar a luz elétrica. Extensão da Barra de Maricá,
a praia de Ponta Negra termina no canal que permite a água do mar
entrar na lagoa de Guarapina, uma das lagoas do complexo lagunar
do município de Maricá, escavado no morro do farol banhado pelo
mar.
Sim. Ponta Negra possui um farol. Pintado
de branco, o farol de Ponta Negra, mantido pela Marinha, é o primeiro
farol que auxilia a navegação após o da ilha Rasa, no litoral norte
do estado do Rio de Janeiro. Visto do mar à luz do dia, o farol
está encravado numa elevação rochosa de cor preta, que se destaca
da paisagem verdejante da Mata Atlântica que ainda existe na região,
esclarecendo a origem do nome da minha praia.
Com alguns quilômetros de areia fina e alva, Ponta Negra era uma
pequena colônia de pescadores artesanais que viviam exclusivamente
do que pescavam na lagoa e no mar, nas proximidades da foz do canal.
Viveiro natural de robalos, tainhas, savelhas, siris e camarões,
a lagoa de Guarapina sofre hoje a degradação das suas margens com
aterros irregulares, cercaduras de terrenos que invadem a lagoa
e assoreamento, num processo até o momento irreversível devido ao
descaso do poder público. Naquele tempo, há vinte e oito anos atrás,
a lagoa era mais funda, maior e mais piscosa.
A minha praia tinha uma vegetação bastante característica, onde
se encontravam pitangueiras, cambuizeiros e bromélias, que somente
existiam na região, dentre outros. Na areia, os tatuís, sarnambis
e as “marias-farinha” emprestavam espaço para as toalhas
de praia e esteiras serem estendidas, que ao fim do dia lhes era
devolvido. Os poucos turistas que conheciam a praia, e que vinham
da cidade grande para passar um fim-de-semana acampados nela,
usufruíam da beleza selvagem sem destruir o que lá estava, para
poder encontrar inalterado o meio-ambiente no fim-de-semana seguinte.
Tudo mudou depois da guerra civil em Angola.
Angola? Sim, Angola. Em 1975, começaram a chegar a Maricá os colonos
portugueses fugidos da guerra civil de Angola. Chegaram com os pertences
que puderam trazer e muitos dólares. Compraram muitas terras, ainda
baratas, e saíram construindo “monstrengos” de quatro
a cinco andares, edificios de apartamentos sem água encanada e sem
esgoto, destruindo a vegetação sem remorsos. Em pouco tempo, a colônia
de pescadores se transformou num amontoado de pedreiros. Moradores
da orla, sem documentos que comprovassem a propriedade das casinhas
de pau-a-
pique
que erigiam no lugar que melhor lhes aprouvesse, os pescadores e
suas famílias foram sendo retirados para o interior, liberando a
área para os
novos proprietários
e mudando de profissão, pois a oportunidade de mudança não poderia
ser desperdiçada.
Ponta Negra, então, cresceu. Os edifícios foram surgindo, as casas
humildes foram sendo derrubadas e substituídas por mansões com piscina,
os terrenos foram limpos e as obras civis não paravam de empregar
os ex-pescadores. O morro do farol foi todo loteado, onde somente
havia a casa do faroleiro.
Hoje, na minha praia não se pode mais acampar à luz de lampiões.
Foram construídos quiosques para a venda de salgadinhos e bebidas
na beira da praia, e um início de calçadão, lembrando uma incipiente
urbanização. É... é o progresso.
Porém, a minha praia ainda possui algo que o homem não consegue
mudar nem destruir: a brisa, o barulho das ondas e o pôr-do-sol.
Ela, no entanto, não é somente minha. Quem a apresentou-me foi minha
mulher. A praia, antes de mim, já era dela. Com o passar dos anos,
esse sentimento de posse foi contagiando-me, e ela permitiu que
eu também chamasse a praia dela de minha praia.
Ela, desde 1968, já vinha acampar, com a família e os amigos de
então. Convivia com as famílias dos pescadores, que moravam à beira-mar,
todo fim-de-semana. Os pescadores geralmente tinham uma prole numerosa.
Quando os filhos estavam todos juntos, faziam a famosa escadinha,
do mais velho ao caçula que já andava, pois o último mesmo já estava
sendo esperado na barriga. A pobreza era muito grande. Tudo o que
não era consumido no acampamento era presenteado àquelas criaturas
simples e ingênuas, que recebiam aquela gente diferente da cidade
grande, há sessenta quilômetros de distância.
Ufa! Como era longe! Ainda não estava construída a ponte Rio-Niterói.
Quando não havia alguém de carro, que atravessava a baía da Guanabara
nos “ferry-boats” e ia direto para Ponta Negra, o percurso
era feito em quatro a cinco horas de viagem. Pois: pegava-se um
ônibus de casa, no Rio, até a praça XV; aí atravessava-se a baía
de barca até Niterói; pegava-se o 21, ônibus que faz a linha Fonseca-Centro,
até a rodoviária intermunicipal, onde embarcava-se no terceiro ônibus,
o da Auto Viação N. Srª do Amparo, que na época tinha uma pintura
amarela e laranja, até Maricá. Por fim aguardava-se em média meia,
uma ou duas horas pelo último ônibus da jornada, aquele que ia para
o paraíso - visto que as inúmeras baldeações eram uma mistura
de inferno com purgatório -, o tão esperado “Ponta Negra”.
Bem, aí é que começava realmente o perigo. Será que o ônibus chega
ao destino? Pois, enguiçar era rotina.
Mesmo com tudo isso, a freqüência era tão assídua, que ela resolveu
comprar um terreno para chamar de seu e acampar com mais conforto:
com água de poço e eletricidade. Passar dessa condição para uma
casa de praia foi um pulo.
No início do nosso relacionamento, no já distante ano de 1974, ela
passou a dividir a sua praia comigo, com seus pores-do-sol, muitos
deles por nós ainda testemunhados.
A praia passou a ser tão minha e dela, que resolvemos nos casar
e morar na vila de pescadores de então. Construímos uma casa, ao
nosso gosto, com vista para a lagoa e bem perto da praia, e nela
pretendemos findar os nossos dias.
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