29/05/2002
MARICÁ, CONTOS E CASOS
Conto Finalista do Concurso da Academia de Ciências e Letras de Maricá, em parceria com a Revista Maricá Já

"Maricá, Contos e Casos II"
Cinthia Moreira Gil
 

Seis horas da manhã, o galo canta, seu São José abre os lhos levanta – se da cama, coloca suas vestimentas, sem se esquecer é claro, do deu chapéu, da sua bota e do seu cachimbo.
Um dos seus empregados, o Jaconé exclama ao vê-lo se espreguiçando na janela:
 
-     Eta vida danada de boa, heim meu patrão!
 
Seu São José olha para o trabalhador e sorri. Logo atrás vinha o Seu São Bento irmão de São José, e convida – o para uma pescaria as margens da lagoa e depois, a um passeio pela Vila de Marica. Seu São José , nem ousou pestanear, foi – se para cair também na prosa do irmão.
        Quem pensa, que estes dois são somente tontos, se engana ao saber sobre seus casos. E para que não canses, serei breve e lhe contarei o principal conto na vida destes dois irmãos, o qual se resume, no início desse mesmo conto.
        Seu São José é dona da fazenda Rio Fundo e o irmão São Bento, da fazenda São Bento.
        Esses dois caipiras, quando eram bem moços, por volta dos vinte e cinco anos de idade, vieram de um município chamado de Niterói. Eles percorreram cerca de trinta quilômetros de distância, cada um em sua carroça, sua trouxas de roupa, chinelos de reservas, chapéu de palha e cigarros e com o direito também de um burro puxando cada carroça.
         Ah, essa carroça e os dois burros, quer dizer, não os dois irmãos e sim os dois animais, sabe quais são não é? Aqueles, que tem umas orelhas compridas e que dão coice. Bem, a carroça e os dois burros também são heranças do avô deles,que faleceu a pouco tempo, os dois, sempre foram uma mistura de agricultores e quebra – galhos. Mas por quererem uma vida melhor, decidiram buscar novos horizontes, pretendendo ter suas próprias terras para viverem mais tranqüilos. Daí então, que de Niterói foram parar em uma primitiva povoação, que pouco produzia alimentos, pois segundo os seus donos e produtores, eram terras inférteis. Com muito custo, eles conseguiram no início através de uma doação de Seis Marias, uns terrenos plantio, começaram então, a plantar em suas terras, os principais produtos agrícolas de consumo, como a cana-de-açúcar, o arroz, a mandioca, o milho, o feijão e algumas frutas.
         O tempo foi passando, o povoado crescendo, suas plantações dando frutos e o povoado se preocupando por várias vezes se perguntavam:
 
- Porque será que a fazenda do Seu Bento e a do irmão dele,o seu José de Imbassaí consegue produzir mais produto que as nossas terras?
 
Enquanto isso, Seu Bento se dirigia a fazenda do irmão Zé, chegando lá Seu Bento comentou:
- Meu irmão há um tempão eu to com desejo encuscado na minha cabeça!
- Diga o que é Bentinho? Perguntou o Seu José.
- Eu sinto tanta falta da missa que nóis rezava lá em Niterói!
Reclamou e respondeu o seu Bentinho.
 
  Eles pensaram, pensaram e pensaram, até que o próprio Bentinho teve uma idéia.
 
- Zé! Já sei o que nóis pode fazer, vamos construir uma capela! Disse Bento
Zé então retrucou:
- Uma capela, é isso meu irmão!Epa, tem um probleminha.
 
Bento por sua vez reclamou do irmão:
 
- Ai, diacho. Lá vem você colocando buraco na bota!
 
Zé se defendendo, solucionou para o irmão:
 
- Oh, Bentinho. Não é assim, nóis podemos fazer até a capela, mais vai demorar porque somos só nóis dois.É mis eu já sei como resolver isso!
 
Sem entender o que o irmão queria dizer, Bento interrogou:
 
- Mas como?
- Vem comigo que você já vai saber! Exclamou contente José.
 
Depois de sair da sua  fazenda com Bento e explicar tudo para ele, seu José se encaminhou para o povoado com seu irmão, chegando lá, reuniu o maior número possível de pessoas e fez a seguinte proposta:
 
- Pessoal, como ocês sabem, eu me chamo José de Imbassaí e esse aqui é o meu irmão Bento.eu sei que nóis não temo muito tempo vivendo aqui, mais é que o povoado donde nóis veio, rezava missa toda semana, e nóis tamo sentindo muito falta. Então nóis pensemos im faze uma capelinha...
 
Nesse momento um agricultor interrompe o seu José e grosseiramente pergunta:
 
- E o que nóis temo com isso?
 
Bento decide responder ao agricultor:
 
- Com licença seu moço, é que como meu irmão falo, nóis pudemos até ajudar com os custo, mais iremo demorar se só nóis dois fomos faze. Aí, nóis pensou, se ocês toos gostariam de nos ajuda?
 
Uma lavadeira esbravejava:
 
- Oia quem fala, produzam, produzam. Tem do bom e do mio. E nóis como uma terra podre, que não dá quase nada!
 

Bento soluciona:
- Oche senhora, nóis não sabíamos disso, os senhores têm que tratar da terra direito se não ela também não te dá o que é de direito!
- Oia só, ma que menino abusado!
 
A lavadeira esbravejou novamente e então para acabar com a confusão que estava para acontecer, José falou:
 
- Ma que coisa, nóis não precisa brigar. Vamo fazer o seguinte, nóis ensina pra ocês todos, o que fazer com a terra e em troca nóis todos construímos a capela.
 
É , dito e feito, José e Bento entraram em acordo com a população, e após o decorrer de aproximadamente três anos, Bento e José tinham grande valor para aquele pequeno e grande povoado, tanto que, a capelinha virou Igreja de São José. E São José de Imbassaí e São Bento viraram dois bairros, que hoje fazem parte da antiga Vila de Santa Maria de Marica, que nos dias atuais pelo seu crescimento, foi elevada a categoria de cidade em 1889.
 
- Perai, agora sou eu quem digo, pois você deve estar se perguntando à respeito dos seu São José e de seu São Bento. Não é mesmo?
 

Bem, depois de tanto pescar “peixe nenhum” e de tanto prosear pela Vila de Marica, já estava anoitecendo quando os dois decidiram voltar para suas casas, Bento por sua vez com uma mistura de cansaço, preguiça e vontade de conversar mais com o irmão, resolveu dormir na casa do mesmo.
Seis horas da noite, a coruja com seus olhos arregalados, seu São José e seu São Bento já cansados, deitam em suas redes, retirando suas botas e fumando seus cachimbos apenas.
Seu Jaconé, os vê se balançando nas redes com seus cachimbos em mãos e exclama:
 
- Êta vida danada de boa, heim meu patrão e seu São Bento!
 
Seu São José de Imbassaí e seu São Bento olham um para o outro, se viram para o trabalhador, sorriem e dizem:
 
-    Boas Noite, seu Jaconé!