Herdamos de nossos antepassados
um certo respeito e apreensão quando tomamos conhecimento de casos
sobrenaturais. Antigamente, na falta do modernismo de hoje em
dia, o passatempo dos antigos era se reunir em ocasiões especiais
e, durante as conversas, muitos casos eram contados e em sua maioria
com pitadas do sobrenatural.
Contam que os personagens das lendas, como a mula sem cabeça,
o boitatá, o curupira, as sereias os monstros marinhos, as bruxas
e outros tantos passaram a ser conhecidos durante as longas viagens
de embarcação, quando a tripulação se reunia no convés do navio,
principalmente à noite, ocasião em que os contadores de histórias
se esforçavam para contar os casos mais escabrosos na tentativa
de causar medo nos ouvintes.
Os portugueses em contato com
os indígenas, absorveram também as histórias dos personagens brasileiros,como
negrinho do pastoreio, saci Pererê e outros mais, enriquecendo
o folclore brasileiro.
É claro que nas cidades do interior,
a prática dos contos ainda permanece e qualquer acontecimento
estranho ou fora do comum acaba sendo atribuído ao sobrenatural.
Maricá não é diferente. Cidade
próxima da Metrópole, a primeira da Região dos Lagos, ainda tem
em seus distritos, principalmente naqueles mais distantes do Centro,
onde residem seus cidadãos mais humildes e que contam os “causos”
que foram registrados por seus antepassados ou com experiência
própria.
Sabemos que o ditado diz que
quem conta um conto aumenta um ponto, chegamos à conclusão que
tais “causos” repetidos e contados de boca em boca,
certamente carregam um percentual bem grande de fantasia.
Como o “causo” contado
por um senhor humilde e de vida sofrida, sem muitas oportunidades
na vida, trabalhador braçal nas roças do bairro de Bananal, bem
perto de Ponta Negra que uma certa vez morreu um vizinho lá em
sua localidade, homem bom, respeitador que tinha como lazer o
hábito de beber cachaça na Venda do Seu Alclandes Machado.
Um belo dia, o beberrão se despediu
desta vida e os companheiros, após fazer um rateio para custear
as despesas do funeral, colocaram o falecido no caixão (aquele
de terceira ou quarta categoria com fundo de eucatex e forrado
com aquele pano roxo e galão amarelo).
Devido o caminho a ser percorrido pelo
féretro ser bastante acidentado, adaptaram duas varas de bambus
nas laterais da urna mortuária para ser carregado por duas pessoas,
uma em cada extremidade.
À medida que iam se aproximando da Venda, os carregadores notavam
que o peso do caixão ia aumentando cada vez mais.
Atribuindo o peso ao cansaço dos carregadores,
os acompanhantes se revezavam nas varas de bambu e sentiam que
o finado ficava cada vez mais pesado. Chegando ao ponto,
de exatamente na porta da Venda de Seu Alclandes, precisar arriar
ao chão, pois ninguém agüentava mais com o peso. Queriam continuar
com o féretro do falecido, mas não havia quem conseguisse
levanta-lo do chão. Vários homens, juntos, tentaram e nada conseguiram.
Aproveitando a parada, entraram na
venda para beber alguma coisa e descansar um pouco, achando que
uma boa pinga reanimasse os ânimos. Ocasião em que um dos acompanhantes,
já quase embriagado, com a garrafa de cachaça na mão, a ofereceu
ao morto despejando todo o seu conteúdo sobre a urna.
Para espanto de todos, ao tentar levantar
a urna novamente do chão, verificaram que a mesma voltou a ser
leve novamente e seguiram o cortejo até a cova rasa do cemitério.
O falecido não queria ser enterrado
sem antes brindar a despedida com seus amigos!
Fim.