29/05/2002
MARICÁ, CONTOS E CASOS
Conto Finalista do Concurso da Academia de Ciências e Letras de Maricá, em parceria com a Revista Maricá Já

O  FUNERAL
Felippe Bittencourt Salles 

  
  Herdamos de nossos antepassados um certo respeito e apreensão quando tomamos conhecimento de casos sobrenaturais. Antigamente, na falta do modernismo de hoje em dia, o passatempo dos antigos era se reunir em ocasiões especiais e, durante as conversas, muitos casos eram contados e em sua maioria com pitadas do sobrenatural.
 
 Contam que os personagens das lendas, como a mula sem cabeça, o boitatá, o curupira, as sereias os monstros marinhos, as bruxas e outros tantos passaram a ser conhecidos durante as longas viagens de embarcação, quando a tripulação se reunia no convés do navio, principalmente à noite, ocasião em que os contadores de histórias se esforçavam para contar os casos mais escabrosos na tentativa de causar medo nos ouvintes.
 
 Os portugueses em contato com os indígenas, absorveram também as histórias dos personagens brasileiros,como negrinho do pastoreio, saci Pererê e outros mais, enriquecendo o folclore brasileiro.
 
 É claro que nas cidades do interior, a prática dos contos ainda permanece e qualquer acontecimento estranho ou fora do comum acaba sendo atribuído ao sobrenatural.
 
 Maricá não é diferente. Cidade próxima da Metrópole, a primeira da Região dos Lagos, ainda tem em seus distritos, principalmente naqueles mais distantes do Centro, onde residem seus cidadãos mais humildes e que contam os “causos” que foram registrados por seus antepassados ou com experiência própria.
 
 Sabemos que o ditado diz que quem conta um conto aumenta um ponto, chegamos à conclusão que tais “causos” repetidos e contados de boca em boca, certamente carregam um percentual bem grande de fantasia.
 
 Como o “causo” contado por um senhor humilde e de vida sofrida, sem muitas oportunidades na vida, trabalhador braçal nas roças do bairro de Bananal, bem perto de Ponta Negra que uma certa vez morreu um vizinho lá em sua localidade, homem bom, respeitador que tinha como lazer o hábito de beber cachaça na Venda do Seu Alclandes Machado.
 
Um belo dia, o beberrão se despediu desta vida e os companheiros, após fazer um rateio para custear as despesas do funeral, colocaram o falecido no caixão (aquele de terceira ou quarta categoria com fundo de eucatex e forrado com aquele pano roxo e  galão amarelo).
 
Devido o caminho a ser percorrido pelo féretro ser bastante acidentado, adaptaram duas varas de bambus nas laterais da urna mortuária para ser carregado por duas pessoas, uma em cada extremidade.
À medida que iam se aproximando da Venda, os carregadores notavam que o peso do caixão ia aumentando cada vez mais.
 
Atribuindo o peso ao cansaço dos carregadores, os acompanhantes se revezavam nas varas de bambu e sentiam que o finado ficava  cada vez mais pesado. Chegando ao ponto, de exatamente na porta da Venda de Seu Alclandes, precisar arriar ao chão, pois ninguém agüentava mais com o peso. Queriam continuar com o féretro do falecido, mas não havia quem conseguisse  levanta-lo do chão. Vários homens, juntos, tentaram e nada conseguiram.
 
Aproveitando a parada, entraram na venda para beber alguma coisa e descansar um pouco, achando que uma boa pinga reanimasse os ânimos. Ocasião em que um dos acompanhantes, já quase embriagado, com a garrafa de cachaça na mão, a ofereceu ao morto despejando todo o seu conteúdo sobre a urna.
 
Para espanto de todos, ao tentar levantar a urna novamente do chão, verificaram que a mesma voltou a ser leve novamente e seguiram o cortejo até a cova rasa do cemitério.
 
O falecido não queria ser enterrado sem antes brindar a despedida com seus amigos!
 
                                       Fim.