29/05/2002
MARICÁ, CONTOS E CASOS
Conto Finalista do Concurso da Academia de Ciências e Letras de Maricá, em parceria com a Revista Maricá Já

Conversa de passarinho
José Barbosa Soares Netto
 
 
 

- Arthur, Arthur, por onde você andou, menino? Já lhe disse que você não pode ir brincar na rua, ouviu?
 
- Não fui na rua não, mãe. Estava só ali....
 

- Ali, onde, Arthur? Você sabe, não adianta mentir, mãe sabe tudo, tudo. Quando eu passo pelo portão, os passarinhos que moram no pé de jabuticaba, me contam tudo.
 
- Sabe aquele passarinho preto e branco que faz ninho lá? Ele falou: Arthur passou cedo por aqui, ainda não voltou. O outro falou: Foi para o campinho, soltar pipa!
 
- Não acredito, mãe, passarinho não fala!
 
-  Fala sim, Arthur, e mãe sabe falar língua de passarinho, entende tudo. Não pode brincar na rua. Os pardais me disseram: foi pr´a lá, foi pr´a lá ! E voam na direção do campinho.
 

      Arthur sai cabisbaixo, resmungando,” passarinhos safados”! Espera a mãe esquecer, olha o céu, sua propriedade, não é êle , Arthur, o Rei da pipa, Senhor inconteste do espaço aéreo de Itapeba, talvez Maricá inteira? Não pode um rei se submeter à gracinhas de um passarinho qualquer... Olha novamente o céu, duas pipas cruzam os ares em uma batalha feroz. Um desafio que não pode ser ignorado! Observa  a mãe, ocupada na cozinha. Uma fugidinha só não pode fazer mal. Seu reino está em perigo. Sai escondido, empunha a pipa, o rolo de linha. Chega ao portão, joga a linha e a pipa por sobre o muro. Volta-se e observa. No alto da árvore, duas viuvinhas constroem seu ninho. Nosso herói fala em voz baixa, porém, ameaçadora:
 
-  Olha aí, seus passarinhos “cagüetes”, se falarem alguma coisa, acertarei uma pedra em vocês! Eu  sou Arthur, rei da pipa, dono deste espaço e vocês não são nada, nada! Calem sua bocas senão vocês vão ver o que é bom, seus dedos duros!
    Dito e feito, empunha um punhado de pedras e lança sobre as aves que voam assustadas.
 
    Dado o recado, sai, altaneiro nos seus sete anos de reinado, recolhe do chão a pipa e a linha e parte rápido, rumo ao campinho, para mais uma batalha, onde certamente será vitorioso. Este é Arthur, meu neto, meu herói, Rei dos ares, filho do vento...
 

Fim