29/05/2002
MARICÁ, CONTOS E CASOS
Conto Finalista do Concurso da Academia de Ciências e Letras de Maricá, em parceria com a Revista Maricá Já

"CONTO DE AMOR NAS TERRAS DE MARICÁ"
Tancredo Ribeiro

 

   N
ascia ali um sentimento que  não se descreve nas cartas, nas poesias, nas letras das mais belas canções.  A noite fria era repleta de estrelas e coroava o encontro;  não sabiam bem como ocorrera aquele encontro.  Mais tarde o Poeta entenderia que aquela noite fora marcada pelos deuses, antes mesmo que o universo se formasse, antes que aqueles dois seres viessem a este mesmo universo, o encontro daquela noite já estava marcado pelo Deus do amor.  
 
    Um vento calmo espalhava o canto suave que celebra a chegada do mais nobre do sentimento humano.  Era frio o vento que vinha das bandas do mar de Ponta Negra e os aproximava ainda mais;  os pêlos de seus corpos arrepiavam-se de frio e de desejos, sem sequer se tocarem.
 
    Bebiam uma cerveja qualquer que fazia mais do que simplesmente embriaga-los; assemelhava-se aos mais finos dos champagnes, ao mais caro dos vinhos, prestava-se ao mesmo fim:  brindar a felicidade que naquele momento lhes invadia.   Tomado pelo álcool só ele falava.  Fingia estar mais embriagado do que realmente estava e despia-se de sua timidez em frases de galanteio brega decoradas de um livreto encontrado na Biblioteca Municipal.  Ela apenas sorria seu sorriso angelical e olhava com aqueles olhos que pareciam ver sua alma.
 
    Amparo!  Assim se apresentara ao Jovem Poeta.  E era este realmente seu nome, fruto de uma promessa feita por seus pais à Padroeira da Cidade, por isso ganhara aquele nome que parecia ter sido feito por encomenda a alguém como ela. Trazia paz aquele nome!
 
    A noite tomava corpo e se fazia madruga, pois é na madrugada que a noite se faz mulher.  Mas naquela noite a madruga parecia ter vergonha de apresentar-se ao Jovem Poeta, tinha ciúmes de Amparo.  O Poeta e a madrugada, há muito, tinham um caso de amor.  Ele a aguardava todo final de tarde e ela se apresentava sempre sorridente e inspiradora.  A madrugada fora, até aquele dia, sua maior fonte de inspiração, seus melhores poemas foram escritos na companhia dessa mulher bela e fiel, que andava por todo o mundo, mas sempre voltava ao céu de Maricá, seu leito de amor aonde descansava nos braços e nos poemas daquele jovem.
 
    Mas naquela noite a madrugada sabia que não poderia disputar a atenção de seu jovem amante.  Não enquanto ele  estivesse próximo de Amparo.   A madrugada, que é mulher e que sabe como as mulheres,  tinha certeza de que jamais seria tão bela e tão amada quanto o novo encanto que tomara seu jovem amante.   E foi por isso, que a madrugada se apresentou chorando seu choro, em forma de garoa.   Recolheu do firmamento as estrelas que sempre saúdam sua chegada, e chorou sobre o Jovem Poeta, seu fiel companheiro;  sabia que acabara de perdê-lo e que jamais teria tão destro amante.  Chorou também sobre os cabelos de Amparo, sobre as pastagens de nossa terra fértil, chorou sobre a  Igreja Matriz da cidade e uniu suas águas ao mar da Barra de Maricá.
 
    O Jovem Poeta entendeu o choro de sua companheira madrugada.  Conhecia muito bem aquela velha amante.  Aprendera muito com a experiência daquela que conseguia tirar d’ele as confissões passadas ao papel em forma de poesias.   O Jovem bem sabia que na madrugada os amores se transformam em gemidos de prazer, é nela que os olhares trocados durante a noite fecham-se a meia luz tornando-se um único olhar que consegue vislumbrar somente os desejos mais ocultos, é na madrugada que os amores tomam forma. Pensou, por um momento em chorar com a madrugada.
 
    Àquela altura o Poeta já não falava tanto, oscilava entre momentos de sobriedade e embriagues, mas tanto em um quanto em outro somente conseguia ter em seu pensamento o rosto sublime de seu novo amor.  Imaginava calado como seriam seus gemidos, pensava na cor de seus próprios olhos, quase negros, misturados ao olhar daquele ser celestial.  Estavam ainda juntos, e ele parecia já sentir saudades.
 
    Por um momento pensou em despedir-se e simplesmente fugir, ir embora;  parecia adivinhar quanto visgo detinham aqueles olhos, aquele sorriso.  Sua alma alertava-o do quanto estava sendo tomada por Amparo, suas frases curtas, seu jeito arisco possuíram de súbito todo o coração daquele menino.   Mesmo assim, a proposta de irem embora partiu dela. Não sabia, ainda, mas havia vendido sua liberdade àquela jovem por preço barato;  um ou dois de seus sorrisos e ele entregaria sua própria vida.
 
    Subiram até a calçada da Igreja Matriz.  Do local onde estavam viam a sofreguidão dos passantes.  Casais de mãos dadas lembravam não serem eles os únicos na façanha do amor;  passavam as beatas, o sorridente pastor com suas longas mangas de um terno roto, passavam adolescentes em suas eternas buscas.  Um jovem que sonhava ser prefeito passou com alguns exemplares de seu pasquim escarlate.  Amparo e o Poeta apenas os olhavam e se imaginavam mais felizes que todos os outros casais, pareciam mais próximos de Deus que as beatas ou o pastor, sentiam enfim o gosto da ilusão de uma plenitude que somente a força de um amor é capaz de encucar aos navegantes desse mais imprevisível que o de Jaconé.
 
    Animou-se, porém, quando deu por conta de que se aproximava o momento importante daquela noite:  - a despedida.  É nas despedidas, sabia o poeta, que os beijos são acalorados, se trocam juras de amor, promessas de novos encontros...  Assim ele lera nos romances, desta forma, com beijos ardentes e apaixonados, deveria findar aquele encontro.
 
    Caminharam quase sem palavras. A ansiedade tomou conta de ambos. Pareciam ouvir seus próprios corações batendo mais apressadamente que suas pernas.  Na esquina de sua casa a jovem parou;  o Poeta entendeu o sinal e pôs-se novamente a sonhar com o que em pouco tempo poderia ser real.   Detinha especial atenção sobre os lábios de Amparo, dos quais em poucos minutos estaria sorvendo  o mais fino licor.
 
    E foi assim, repetindo na brisa o movimento do único beijo recebido naquela noite, que o Jovem Poeta caminhou para sua casa.  Um único beijo; único na forma;  único no sabor.  Único...  um beijo único que se repetiria por noites inteiras a fio, pela madrugada de várias noites.  A madrugada, aliás, deixou de ter ciúmes do Jovem Poeta e de Amparo, conformou-se, e todos os dias vinha ouvir encabulada os gemidos de prazer que exalavam...
 
    Desde aquela noite o Poeta não foi mais o mesmo.  Em suas andanças pela terra natal passou a ver mais cor nos verdes de suas matas, mais azul em seus mares e lagoas o canto dos pássaros tinia-lhe aos ouvidos como verdadeira melodia vinda dos céus.
 
    E tudo isso virou poesia. Os olhos cândidos de Amparo iluminavam a mente e moviam o punho do jovem sobre os rascunhos que teimava em nunca aprimorar.   Durante todos os anos de sua vida o poeta, agora não tão jovem, escreveu sobre seus dois amores:  Amparo a mulher de sua vida e Maricá, a cidade onde nasceu, viveu e amou ...