29/05/2002
MARICÁ, CONTOS E CASOS
Conto Finalista do Concurso da Academia de Ciências e Letras de Maricá, em parceria com a Revista Maricá Já

A negra da Serra da Tiririca e a Pedra do Elefante
Jorge Antônio Paes Lopes
 
 
Muitos são os mortos. Muitas são as formas de morrer. Disso bem sabia dona Zuleica, a dona do bar da esquina. O bar pequeno e de chão sujo era palco de grandes histórias do povo local. O cheiro, é claro, era de cachaça curtida. Freqüentadores comuns eram os de dentes podres e chapéu de palha. A cavalo ou de bicicleta. Outra clientela não haveria, já que as mercadorias que dona Zuleica oferecia eram cachaça, salgadinhos frios, cerveja e refrigerantes. Neste conjunto, nada de bebidas da moda ou frango com catupiri. O refrigerante era o ‘refrigereco’, a cachaça era feita em fundo de quintal por seu João da 78, cerveja só das piores e salgadinhos de farinha de trigo vencida. Estes, a própria dona Zuleica fazia na minúscula cozinha florida de gatos macérrimos e cachorros leprentos.  – Saúde  pública, não prendam a dona Zuleica! Ela faz tudo com muito amor. E o amor tudo suporta, tudo espera, tudo supera. E neste caso elimina impurezas também. Nunca soubemos de alguém que tenha passado maus momentos após comer os salgadinhos da dona daquele boteco.
Não havia na região ninguém que não conhecesse a famosa  dona Zuleica de seus cinqüenta e poucos anos. Anos muito bem vividos junto à mata atlântica que cercava (e cerca!) sua humilde casa nos fundos do bar. A casa era perto do mar. Do bar se ouviam as fortes ondas das temidas águas daquela cidade.
Mata, mar, montanha e bar. Ingredientes mais que suficientes para se fazer um bolo de histórias recheadas de crenças e mistérios. Uma delas, e talvez a mais famosa, era a história da negra da Serra da Tiririca. Qualquer um que chegasse ao bar logo exclamava:
- E aí dona Zuleica, o fantasma da negona apareceu por aqui?!
A história corria por toda a cidade. De bar em bar ouviam-se novos assombros da negra da serra. Curioso era o fato de que a misteriosa mulher só se revelava aos bêbados. – O que bêbo fala se escreve?
Chica era o nome da intrigante negra que sempre andava pelas trilhas da Serra que bebe água do mar através da tromba de um elefante. Diz-se que dona Chica é da época em que o elefante bebia água do canal que contorna a orla. – Havia mesmo um elefante naquele lugar. Era gigantesco e amedrontador. Mais parecia um dinossauro, de tão grande. Cientistas afirmaram que era o último da espécie.
 Um dia um fazendeiro muito temido ameaçou matar o elefante que era muito maior que os morros das  redondezas. Para o fazendeiro o elefante deveria morrer porque sua fama era infinitamente menor que a do enorme animal. Ele invejava o tamanho e a força do elefante, e sabia que depois do elefante ele era o ser mais temido do pedaço!
 Foi então que dona Chica, de passagem pelo bar de dona Zuleica - Dona Chica adorava uma pinga  -  soube das intenções do fazendeiro.
- Soube que Tiãozinho de Itaocaya está decidido a matar o elefante  que bebe água no canal- disse dona Zuleica.
- Não é possível. Esse velho tá pensando que é o dono do mundo é? O elefante bebendo água no canal é a única coisa que distrai os moleque daqui. Eles ficam tudo escondido nos mato passando o olho no elefante... Mas pode deixar que eu resolvo essa parada. Bota mais dois dedinho aí, vai  - Encerrou dona Chica fazendo um espaço entre os dedos que era do tamanho de um copo.
Subindo a trilha da serra, dona Chica pensava na melhor maneira de salvar o elefante. Sob o efeito do álcool ela pôde vislumbrar um enorme anjo que sem rodeios lhe dirigiu a palavra:
- Olá dona Chica! Vejo que está ventando muito por aí, não é?
- Meu Deus, é Nossa Senhora do Amparo! –  Gritou arregalada a 
velha negra.
- Não, não dona Chica. Não sou Nossa Senhora do Amparo. Nem sou
Deus. Sou o anjo encarregado de fertilizar a mente humana e você foi a escolhida para colaborar comigo numa missão muito nobre. Com sua ajuda, criaremos uma belíssima escultura para compor o cenário deste lugar.
- Mas como se dará isso se não sei nem o que é escultura? - Questionou a negra de joelhos.
- No momento certo eu aparecerei e a levarei até o dorso do elefante. De lá você conduzirá o bicho até a ponta da Serra, junto ao mar. Ali faremos com que o elefante se transforme em rocha. Assim ele poderá descansar em paz, longe dos inúmeros homens invejosos que surgirão no futuro, homens que  não admitem sua pequenês e querem derrubar tudo o que sobressai mais do que eles.
- Se é assim, eis-me aqui!
Um dia se passou até que se encontraram no bar da dona Zuleica a dona Chica e o seu Tiãozinho de Itaocaya. Ambos buscavam a mesma coisa: cachaça. Numa talagada só eles tomaram do cálice inebriante fazendo em seguida a tradicional careta.
É o elefante! -  Gritou um moleque na rua.
Prontamente o fazendeiro puxou a arma e saiu do bar. Dona Chica tossiu muito e foi atrás. Eis que surge o anjo. Só dona Chica o vê. Dona Zuleica corre para a porta do bar e vê também o anjo. Ao vê-lo, a dona do bar da esquina pôde ter a certeza de que a história contada por dona Chica na noite anterior era verdadeira.
 A velha negra foi levada até o dorso do elefante e sem muito jeito pediu-lhe que fosse contornando a serra na direção do mar. O elefante torceu a cara por causa do bafo, mas seguiu as instruções da negra. Quando se aproximou do mar, um forte clarão envolveu o elefante e a velha. De repente, viu-se formar uma enorme montanha rochosa, cujo formato era da cabeça do elefante de perfil, e bem lá no alto da montanha estava dona Chica.  Meio tonta, a negra perdeu o equilíbrio e caiu no mar. Pobre negra. Morreu. Mas ficou viva nos goles de cachaça.
 O fazendeiro, coitado, tempos depois foi mordido por uma cobra pequenininha e também morreu. Quem diria. Morto por um animalzinho tão pequeno. Humilhação. Se assim não fosse, ele morreria de desgosto de tanto deparar-se com a beleza e suntuosidade ainda maiores do que então se chamou Pedra do Elefante.
 Dona Zuleica já enterrou quase a cidade inteira.  Já vendeu cachaça para umas quatro gerações da região...
Zuleica, Chica, Tiãozinho. Estes encontramos até hoje por aí. Mesmo com o progresso notório da cidade, eles se mantêm, entre um gole e outro, perpetuando o lado lendário do lugar.
Por fim, dona Zuleica vira-se para seu Oswaldo, depois de contar-lhe toda a história da negra da Serra da Tiririca e diz:
- Sabe do que mais? De tempos em tempos o elefante volta a respirar em homenagem a dona Chica. Dia desses ele inspirou tão fortemente que carregou para si um avião que passava por perto...