Muitos são os mortos. Muitas são as
formas de morrer. Disso bem sabia dona Zuleica, a dona do bar
da esquina. O bar pequeno e de chão sujo era palco de grandes
histórias do povo local. O cheiro, é claro, era de cachaça curtida.
Freqüentadores comuns eram os de dentes podres e chapéu de palha.
A cavalo ou de bicicleta. Outra clientela não haveria, já que
as mercadorias que dona Zuleica oferecia eram cachaça, salgadinhos
frios, cerveja e refrigerantes. Neste conjunto, nada de bebidas
da moda ou frango com catupiri. O refrigerante era o ‘refrigereco’,
a cachaça era feita em fundo de quintal por seu João da 78, cerveja
só das piores e salgadinhos de farinha de trigo vencida. Estes,
a própria dona Zuleica fazia na minúscula cozinha florida de gatos
macérrimos e cachorros leprentos. – Saúde pública,
não prendam a dona Zuleica! Ela faz tudo com muito amor. E o amor
tudo suporta, tudo espera, tudo supera. E neste caso elimina impurezas
também. Nunca soubemos de alguém que tenha passado maus momentos
após comer os salgadinhos da dona daquele boteco.
Não havia na região ninguém que não conhecesse a famosa
dona Zuleica de seus cinqüenta e poucos anos. Anos muito bem vividos
junto à mata atlântica que cercava (e cerca!) sua humilde casa
nos fundos do bar. A casa era perto do mar. Do bar se ouviam as
fortes ondas das temidas águas daquela cidade.
Mata, mar, montanha e bar. Ingredientes mais que suficientes para
se fazer um bolo de histórias recheadas de crenças e mistérios.
Uma delas, e talvez a mais famosa, era a história da negra da
Serra da Tiririca. Qualquer um que chegasse ao bar logo exclamava:
- E aí dona Zuleica, o fantasma da negona apareceu por aqui?!
A história corria por toda a cidade. De bar em bar ouviam-se novos
assombros da negra da serra. Curioso era o fato de que a misteriosa
mulher só se revelava aos bêbados. – O que bêbo fala se
escreve?
Chica era o nome da intrigante negra que sempre andava pelas trilhas
da Serra que bebe água do mar através da tromba de um elefante.
Diz-se que dona Chica é da época em que o elefante bebia água
do canal que contorna a orla. – Havia mesmo um elefante
naquele lugar. Era gigantesco e amedrontador. Mais parecia um
dinossauro, de tão grande. Cientistas afirmaram que era o último
da espécie.
Um dia um fazendeiro muito temido ameaçou matar o elefante
que era muito maior que os morros das redondezas. Para o
fazendeiro o elefante deveria morrer porque sua fama era infinitamente
menor que a do enorme animal. Ele invejava o tamanho e a força
do elefante, e sabia que depois do elefante ele era o ser mais
temido do pedaço!
Foi então que dona Chica, de passagem pelo bar de dona Zuleica
- Dona Chica adorava uma pinga - soube das intenções
do fazendeiro.
- Soube que Tiãozinho de Itaocaya está decidido a matar o elefante
que bebe água no canal- disse dona Zuleica.
- Não é possível. Esse velho tá pensando que é o dono do mundo
é? O elefante bebendo água no canal é a única coisa que distrai
os moleque daqui. Eles ficam tudo escondido nos mato passando
o olho no elefante... Mas pode deixar que eu resolvo essa parada.
Bota mais dois dedinho aí, vai - Encerrou dona Chica fazendo
um espaço entre os dedos que era do tamanho de um copo.
Subindo a trilha da serra, dona Chica pensava na melhor maneira
de salvar o elefante. Sob o efeito do álcool ela pôde vislumbrar
um enorme anjo que sem rodeios lhe dirigiu a palavra:
- Olá dona Chica! Vejo que está ventando muito por aí, não é?
- Meu Deus, é Nossa Senhora do Amparo! – Gritou arregalada
a
velha negra.
- Não, não dona Chica. Não sou Nossa Senhora do Amparo. Nem sou
Deus. Sou o anjo encarregado de fertilizar a mente humana e você
foi a escolhida para colaborar comigo numa missão muito nobre.
Com sua ajuda, criaremos uma belíssima escultura para compor o
cenário deste lugar.
- Mas como se dará isso se não sei nem o que é escultura? - Questionou
a negra de joelhos.
- No momento certo eu aparecerei e a levarei até o dorso do elefante.
De lá você conduzirá o bicho até a ponta da Serra, junto ao mar.
Ali faremos com que o elefante se transforme em rocha. Assim ele
poderá descansar em paz, longe dos inúmeros homens invejosos que
surgirão no futuro, homens que não admitem sua pequenês
e querem derrubar tudo o que sobressai mais do que eles.
- Se é assim, eis-me aqui!
Um dia se passou até que se encontraram no bar da dona Zuleica
a dona Chica e o seu Tiãozinho de Itaocaya. Ambos buscavam a mesma
coisa: cachaça. Numa talagada só eles tomaram do cálice inebriante
fazendo em seguida a tradicional careta.
É o elefante! - Gritou um moleque na rua.
Prontamente o fazendeiro puxou a arma e saiu do bar. Dona Chica
tossiu muito e foi atrás. Eis que surge o anjo. Só dona Chica
o vê. Dona Zuleica corre para a porta do bar e vê também o anjo.
Ao vê-lo, a dona do bar da esquina pôde ter a certeza de que a
história contada por dona Chica na noite anterior era verdadeira.
A velha negra foi levada até o dorso do elefante e sem muito
jeito pediu-lhe que fosse contornando a serra na direção do mar.
O elefante torceu a cara por causa do bafo, mas seguiu as instruções
da negra. Quando se aproximou do mar, um forte clarão envolveu
o elefante e a velha. De repente, viu-se formar uma enorme montanha
rochosa, cujo formato era da cabeça do elefante de perfil, e bem
lá no alto da montanha estava dona Chica. Meio tonta, a
negra perdeu o equilíbrio e caiu no mar. Pobre negra. Morreu.
Mas ficou viva nos goles de cachaça.
O fazendeiro, coitado, tempos depois foi mordido por uma
cobra pequenininha e também morreu. Quem diria. Morto por um animalzinho
tão pequeno. Humilhação. Se assim não fosse, ele morreria de desgosto
de tanto deparar-se com a beleza e suntuosidade ainda maiores
do que então se chamou Pedra do Elefante.
Dona Zuleica já enterrou quase a cidade inteira. Já
vendeu cachaça para umas quatro gerações da região...
Zuleica, Chica, Tiãozinho. Estes encontramos até hoje por aí.
Mesmo com o progresso notório da cidade, eles se mantêm, entre
um gole e outro, perpetuando o lado lendário do lugar.
Por fim, dona Zuleica vira-se para seu Oswaldo, depois de contar-lhe
toda a história da negra da Serra da Tiririca e diz:
- Sabe do que mais? De tempos em tempos o elefante volta a respirar
em homenagem a dona Chica. Dia desses ele inspirou tão fortemente
que carregou para si um avião que passava por perto...