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Tenho recebido diversas
mensagens de solidariedade e incentivo ao protesto civil que dei
inicio recentemente da luta pela cidadania e pelo luto que a cidade
de Maricá enfrenta por falta de infra-estruturas básicas e corrupção,
mas junto com as palavras de apoio tenho percebido implicitamente
o Medo. Invariavelmente as pessoas me avisam que posso sofrer represálias,
tenho filhos pequenos, as coisas aqui são assim, ou assado, cuidado
com este ou com aquele.
A verdade é que só pelo fato de estarmos vivos já corremos risco
de morte, afinal "A vida é a única aventura da qual não podemos
sair com vida". Todos os dias dobramos esquinas, entramos em becos,
vielas e ruas escuras e nunca sabemos ao certo se conseguiremos
regressar a salvo para casa, assim como também não podemos proteger
nossos filhos, avos, avós, tios, tias, primos, nós mesmos e até
mesmo amigos, em tempo integral, sabemos portanto que não existe
porto seguro, mas é sempre importante pensarmos que vinganças são
feitas em ruas de mão dupla.
Sabemos, no entanto que algumas pessoas são caça outras caçadoras,
eu caço raposas, tubarões, abutres e vez ou outra predadores menores
como o vira-bosta (curiosamente é a segunda vez que uso animais
para fazer analogias). O mais surpreendente nisso tudo é perceber
que todas as pessoas com quem falei sentem medo, em alguns casos
muito próximos do pavor, é o medo de sentir medo, isso reduz o ser
humano a gado e é desta forma que os abutres se aproveitam para
devorarem suas almas corroídas pelo desespero, estes são os Reféns
do Medo.
Algumas pessoas confessam seus medos abertamente, outras entre linhas,
algumas chegam a duvidar que o voto eleitoral possa mesmo ser secreto
porque juram de pés juntos que podem sofrer penalidades horrorosas
se não votarem neste ou naquele candidato. Algumas se vendem por
um copo de cerveja ou um espetinho de churrasco, em alguns casos
uma cesta básica.
O que essas pessoas não percebem é que a subtração dos recursos
públicos seja por uso indevido ou por negociatas escusas levam de
suas vidas muito mais do que lhes foi dado, enquanto a maioria luta
todos os dias para por um prato de comida sobre a mesa, políticos
inescrupulosos refestelam-se em churrascarias ás custas da miséria
alheia palitando calmamente os dentes com os ossos do butim.
Eu tenho medo sim, mas não das pessoas que querem me ver no inferno,
tenho medo de precisar de um hospital num momento de crise e nem
curativos ou médicos ter para me ajudarem nessa agonia, tenho medo
de ver meus filhos crescerem estudando em escolas públicas com ensino
precário e professores mal remunerados e desta forma serem excluídos
das oportunidades futuras.
Tenho medo de ver o medo e a impotência das pessoas que me cercam
por não acreditarem que é possível mudar, escuto sempre que "eu
estou fazendo a minha parte", mas sempre no seu quintal, no seu
jardim, nunca no coletivo, nunca para os demais. As pessoas tornaram-se
individualistas e competidoras, deixaram valores morais sobreporem
os éticos, informação não é o mesmo que conhecimento, assim como
conhecimento não é o mesmo que sabedoria, sabemos que tudo em excesso
faz mal e continuamos seguindo em frente sem olhar para os lados,
ou para quem está ao nosso lado.
Queremos ter empregados, mas não queremos saber como eles vivem
com a miséria que pagamos, e só nos damos conta do quanto somos
inumanos quando vemos as tragédias dessas pessoas próximas a nós,
a quem confiamos muitas vezes nossos bens mais preciosos, estampados
nas manchetes de páginas de jornais. O mundo se baseia no fato de
que uma minoria gera necessidade para a grande maioria e através
disso escravizam cada um de nós, subtraindo através de impostos
e corruptelas nossos anos de vida e saúde.
Temos que ter medo de sermos incapazes de mudar o que parece imutável,
nós elegemos pessoas em que acreditamos por algum motivo apresentado,
quando essa expectativa não é atingida é necessário revogar esse
privilégio o mais breve possível para minimizar os danos ao patrimônio
publico e á sociedade. Dos piores defeitos da humanidade a covardia
deve ser a de maior peso porque mesmo que fugíssemos por uma vida
toda, sempre a levaremos conosco, lá no intimo.
Portanto, não tenho medo de não acordar amanhã, para os que esperam
que isso venha a acontecer o meu conselho é que preservem ao máximo
o meu bem estar e de minha família porque é para vocês que os dedos
estão apontados. Levantei uma bandeira chamada "Eu Luto por Maricá"
e esta luta não é tão somente minha, é de todos nós é de cada um
que esteja cansado de não ter perspectiva de melhoria de vida.
Levantei cedo, olhei para a estante e retirei dela empoeirada a
Constituição Brasileira, reli os princípios básicos nela inseridos
que por momentos parecem pequenos contos de ficção de uma sociedade
utópica, isso nos mostra o quanto nos afastamos tanto dos nossos
objetivos.
Tomei uma decisão: Meu nome é Ana Paula de Carvalho, sou Brasileira,
construo um Brasil diferente, vou mudar este país e estou começando
por Maricá!
Junte-se a mim neste protesto civil, hoje Eu
Luto Por Maricá, amanhã lutaremos
pelo BRasil.
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