21/09/2010
........ Luiz Gadelha # lgadelha@leitoreselivros.com.br
CRÔNICA DE UM ASSASSINATO ANUNCIADO
Maricá está prestes a cometer um crime com data marcada à vista de todos, que já estão convidados para comparecer ao auto de fé. No dia 28, na Associação Comercial, Empresarial e Industrial de Maricá será assassinada, sob a batuta inquisitorial, a liberdade de imprensa no município. O golpe, arquitetado nos gabinetes, está se consolidando com a conquista de cúmplices dentro da própria imprensa, que estão aderindo à criação da Associação de Imprensa de Maricá, a arma do golpe de mestre.
Com a promessa de que vai chover na horta jornalística, de repente teve gente que saiu da toca, acenando com diplomas e registros, se esquecendo que um ex-secretário do atual governo desfilou com dois registros profissionais por muito tempo sem chamar a atenção de tão espertos profissionais. E para demonstrar que são o máximo, e esqueceram mesmo a manobra de mordaça patista de 2009, querem agora ensinar o bispo, com 38 anos puxando linha e batucando nas pretinhas, a rezar missa em latim.
A associação vai nascer com presidente já ungido pelos poderes municipais, a quem vem servindo prontamente. É o indicado celeste para o cargo, uma vez que "sabe agregar pessoas e projetos" como se vê pela pressa com que organizou o primeiro encontro, como se tivesse prazo a cumprir, e o maquiavelismo com que vem arregimentando cúmplices e armando já a sua diretoria, títere governamental, como não poderia deixar de ser. Já há inclusive vice-presidente cotado e cooptado e logicamente vai ter comissionado nas paradas.
Quem festeja a vinda de uma associação está entrando no jogo do governo, que para a primeira reunião enviou todo um batalhão de cúmplices, comissionados ou ligados aos jornais amigos, além da subsecretária de Comunicação, que em seis meses no cargo nunca se apresentou aos jornalistas. Sintomática essa aparição da moçoila! Para mentes minimamente inteligentes, fica clara a participação maciça do governo num órgão de classe, o que é inadmissível, e com paralelo apenas na ditadura militar com os infiltrados como agora em Maricá.
Não à toa, em uma semana, a mesma secretaria enviou empenho, através da agência Elipse, para a inserção de anúncios institucionais da Prefeitura, ao preço de R$ 700, já na próxima edição de outubro, justamente no dead-line para as eleições, quando muitos veículos até estão antecipando sua circulação. Foi um sinal de que terão anúncio se forem associados (ou seria paus-mandados?).
Os jornalistas saíram da última reunião convencidos de que "a associação de imprensa vai ajudar os jornais de Maricá a serem mais independentes do comércio local". Ou seja, estão interessados numa liberdade financeira de olho nos grandes anunciantes, mas se esqueceram de perguntar quem vai fazer a corretagem dessas contas grandes e quem vai distribuir as cotas. A associação, que será sem dúvida um braço da Prefeitura, terá nas mãos a faca, o queijo e o pescoço dos donos dos jornais. Portanto, independência só a que for vendida.
Apesar de a reunião do golpe mortal ser na ACEIM, os jornalistas já parecem estar dispostos a se desvencilhar de quem "não valoriza o marketing nessas mídias", ou seja, o empresariado local. Pela declaração de um fervoroso defensor da associação, registrado e diplomado, e devidamente doutrinado, surge a maior injustiça contra o comércio local, justamente aquele que até hoje prestigia a muito custo suas edições, mas nunca recebeu troco.
Quando o comércio sofre com as atrocidades governamentais, não há jornalista que abra espaço para as reclamações dos empresários. Os defensores da nova associação esquecem ainda que o empresário também quer ver seu anúncio num jornal bem diagramado, com textos atraentes, que possam constituir um público e atrair fregueses. Esquecem os renomados trabalhadores de imprensa que grande parte não tem cuidado algum com a diagramação, ou os textos, preferindo colocar releases que empresário e leitor já estão cansados de conhecer, pois já vem azedados de um mês. Ainda por cima ou é política, ou políticos, ou governo, ou Câmara.

O que se discute com a criação da associação é a própria liberdade tanto da imprensa como do leitor. Nem nos tempos da ditadura, os tiranos foram tão mestres em orquestrar armações como as do petismo, hoje armando os arreios para quem prefere puxar carroça. Tornar a imprensa uma marionete não diz respeito apenas aos jornalistas, mas a todo cidadão. Afinal querem implantar de vez o lema do "sirva-me ou morra", que em nada difere do "ame-o ou deixe-o". Ou os jornalistas não tiveram aula de História do Brasil?
Não se lamentem depois. Pode haver um tempo em que os hoje coniventes amanhã tenham que vender abacaxi no Barroco, só porque aceitaram que os colaboracionistas tomassem conta da mídia daqui, com ela se locupletando em cargos. Quando então, fora da mídia, poderão sentir que mais do que vender uma profissão digna, venderam a própria liberdade de ser humano, irresponsavelmente prejudicando toda a população.
A independência cobra caro, em alguns casos, até com a crucificação. E a liberdade se conquista dia a dia, não é presente de governo. Resta saber se estão dispostos a defender nossa individualidade ou preferem vender as almas deles e a nossa liberdade. No último caso, que o diabo os carregue para bem longe. Vendidos só devem viver mesmo nos quintos dos infernos para que não poluam com infelicidade um mundo criado por Deus.

PS - O petista-mor do país, o presidente Lula, em arroubo chavista, decretou: "Nós somos a opinião pública". Se o idolatrado presidente admite que faz a opinião, então é melhor por as barbas de molho. Não à toa os petistas vão criar associação de imprensa em Maricá.