Sou antropólogo e
pesquisador de medicina popular e fitoterapia há vários anos no Brasil.
Imaginem a surpresa e a indignação ao ler a matéria na revista Época
de Agosto/2010 sobre a prática da fitoterapia no serviço público no
Brasil. No entanto é necessário agradecer ao Dr. Dráuzio Varella pela
iniciativa. Agora temos um representante da indústria farmacêutica
com quem dialogar. Sinal dos tempos! A fitoterapia e o projeto Farmácias
Vivas já começam a incomodar e a causar prejuízos à indústria farmacêutica
...
Analisando os países mais avançados do mundo e que utilizam em grande
escala os medicamentos produzidos pela indústria farmacêutica, verificamos
que os resultados obtidos pela medicina considerada científica são
pífios. Os Estados Unidos possuem os índices de câncer de mama e de
próstata mais elevados do mundo. Em 1993 haviam nos EUA, 8 milhões
de diabéticos, uma das mais altas do mundo. Com relação às doenças
cardio-vasculares também os americanos são campeões. Nesse país onde
se utiliza a "medicina de rico", no entender esclarecido do Dr. Dráuzio
Varella, os pacientes são tratados com medicamentos de última geração
e equipamentos modernos de alto custo. Investe-se muito em medicina
e quase nada em saúde da população.
Por outro lado, nos países onde se pratica a "medicina de pobre",
para citar novamente o ilustre médico Dr. Dráuzio Varella, os índices
de doenças degenerativas, tais como, cânceres, doenças cardio-vasculares,
diabetes, são baixíssimos. Nos EUA, ocorrem 120 casos de câncer de
mama por 100.000 habitantes, enquanto na China apenas 20.
Inclusive as imigrantes chinesas que vivem nos Estados Unidos, acabam
atingindo os índices absurdos e epidêmicos da população americana.
Em São Francisco, a cada ano surgem 160 casos de câncer de mama por
100.000 habitantes que migraram da cidade de Xangai, na China, enquanto,
na mesma faixa etária, as que permaneceram, apenas 40 casos surgiram
da mesma doença.
Portanto a medicina avançada dos países do primeiro mundo não colabora
em nada para promover a saúde de seus habitantes. Por que então importarmos
a mesma medicina que não se preocupa com a promoção da saúde e que
parece considerar a doença um negócio melhor do que a saúde?
O que diferencia as populações dos países asiáticos é a prática de
terapêuticas de origem milenar: fitoterapia, acupuntura, shiatsu,
assim como os medicamentos alopáticos, sempre que necessário.
Portanto, Dr. Dráuzio Varella, que modelo de medicina devemos escolher
e utilizar no tratamento das doenças da população brasileira de baixa
renda? O modelo americano ou o asiático? Como confiamos na sua boa
formação matemática e que as estatísticas epidemiológicas não são
mentirosas, o melhor caminho para o Brasil forçosamente terá que ser
o modelo asiático.
Mesmo sabendo que todos os profissionais da saúde, pesquisadores,
fitoquímicos, fitofarmacologistas, etnobotânicos, farmacêuticos, fitoterapeutas
e antropólogos da saúde são ignorantes, segundo a douta opinião do
Dr. Dráuzio Varella, acreditamos que um dia vamos conseguir atingir
os índices baixos de morbidade obtidos atualmente pelos países asiáticos.
Para melhorar o nível de nossos profissionais, pesquisadores da área
de plantas medicinais, basta que o próprio governo aumente as verbas
para pesquisa com plantas medicinais, que há séculos vem sendo utilizadas
sem nenhum apoio do governo no tratamento de seus problemas de saúde
pela população pobre, sem recursos, que conta apenas com a experiência
de seus ancestrais para tratar de suas doenças. Esta é a realidade
da nossa população humilde de interior, cujos serviços de saúde, todos
sabemos, são precários e péssimos.
Imagine o Dr. Dráuzio Varella, se a população simples do interior
não possuísse nenhum conhecimento da ação das plantas medicinais.
Se toda vez que alguém adoecesse tivesse que procurar o serviço de
saúde de seu município. Imagine o caos que seria. Em primeiro lugar,
porque a maioria dos médicos está concentrada nas capitais dos estados.
Em segundo lugar, porque na medida em que nos afastamos dos grandes
centros, os recursos na área da saúde diminuem. E por isso faltam
medicamentos, faltam leitos de hospital, faltam médicos e enfermeiros.
Ainda assim os poucos profissionais que existem no interior foram
mal formados na faculdade. As faculdades atualmente se preocupam em
formar médicos especialistas em monitoramento de UTI's. Enfim são
formados para exercer a "medicina de rico". São pouquíssimos os médicos
clínicos disponíveis capacitados para receitar fitoterápicos, mesmo
porque não se estuda fitoterapia nas faculdades de medicina no Brasil!
E muito menos dispomos de faculdade de fitoterapia, tais como, as
que existem na Inglaterra, na França, na Índia, na China.
Não estranhamos, portanto que o Dr. Dráuzio Varella, tenha encontrado
muita ignorância nos projetos de Farmácias Vivas estabelecidos em
diversas regiões do país. Há, na verdade, uma carência muito grande
pesquisas na área de plantas medicinais no Brasil. Por outro lado,
a ignorância encontrada pelo ilustre médico não é decorrente do descaso
ou por falta de amor pelo paciente. Além de não ter recebido nenhuma
informação, e, muito menos formação, na faculdade onde estudou, o
médico que atua nos atendimentos fitoterápicos não dispõe de nenhum
apoio logístico. Para praticar a fitoterapia as informações são escassas
e mesmo as pesquisas que a Universidade brasileira promove, que o
Dr. Drázio Varella, se referiu com tanto desprezo, dificilmente chegam
ao seu conhecimento.
Portanto tudo o que o douto Dráuzio Varella considera idiotices são
deficiências que ocorrem em um país que até hoje escolheu o modelo
da "medicina rica" que promove a doença e não investe na saúde da
população. Ao acusar um médico que receita fitoterápicos de idiota,
porque não conhece farmacologia, teria que acusar também os demais
médicos brasileiros que também não conhecem, porque todos sabemos
que a farmacologia moderna é uma caixa preta, cujo conhecimento é
de domínio exclusivo dos grandes laboratórios. Para o médico chega
apenas a bula dos medicamentos...
Mas agora sabemos que o único cidadão brasileiro que não é idiota
e que sabe farmacologia em profundidade é o Dr. Dráuzio Varella, porque
provavelmente recebeu informações confidenciais dos grandes laboratórios
e pode falar com conhecimento de causa. Como percebeu a deficiência
na formação dos médicos que entrevistou, vai agora colaborar e esclarecer
e orientar os idiotas, profissionais de saúde, que atuam nos projetos
de Farmácias Vivas, idealizado pelo provavelmente também idiota, Dr.
Francisco José de Abreu Matos, farmacêutico químico e professor da
Universidade Federal do Ceará, infelizmente falecido em 2008. Se estivesse
vivo com certeza explicaria as dificuldades para desenvolver e implantar
o projeto de Farmácias Vivas no Ceará, com uma experiência profissional
de 50 anos.
Sabemos que, segundo o Aurélio, idiota é um indivíduo pouco inteligente,
estúpido, ignorante, imbecil e em alguns casos, até mesmo, uma categoria
psiquiátrica, a idiotia. Portanto não consideramos correto e muito
menos ético, considerar idiotas inúmeros profissionais da área da
saúde, que atuam nos projetos de Farmácias Vivas no Brasil. As deficiências
por ventura encontradas pelo ilustre médico deveriam, com certeza,
ser avaliadas, mas evidentemente com o respeito que qualquer indivíduo
merece, independente de sua formação intelectual.
Quanto à experimentação dos fitoterápicos, a que o Dr. Drázio Varella
se referiu, gostaríamos de questionar porque inúmeros medicamentos
alopáticos são proibidos e retirados do mercado, após causar inúmeros
danos aos pacientes. Por acaso a talidomida que gerou inúmeras crianças
defeituosas no mundo inteiro foi submetida a experimentação científica
antes de ser colocada á venda no mercado? Quantos aditivos e demais
produtos químicos são colocados no mercado, expondo seres humanos
e seres vivos aos seus efeitos cancerígenos que somente são percebidos
depois que contaminaram todo o planeta. Basta lembrar dos PCB's, os
bifenilos policlorados, óleo conhecido no Brasil como ascarel, que
quando foram produzidos em 1929 não se sabia nada de seus efeitos
altamente nocivos para os seres vivos e para o meio ambiente. Sua
fabricação foi proibida em 1976, mas os efeitos maléficos cumulativos
e persistentes que atingiram toda a cadeia alimentar do planeta, não.
A contaminação continua até os dias de hoje e, provavelmente o ilustre
médico Dr. Dráuzio Varella também deve estar contaminado com PCB's,
o que explicaria sua atitude pouco ou nada cortês com demais indivíduos
de sua espécie. Este é apenas um trágico exemplo, mas existem mais
de 800 aditivos químicos ainda não estudados utilizados na fabricação
de alimentos. São proibidos apenas quando, após experiências com animais,
se descobre que são cancerígenos. Nesse caso, as cobaias não foram
os pobres camondongos, foram os seres humanos que, sem serem consultados,
foram submetidos à experimentação.
Também consideramos necessário experimentar previamente as plantas
medicinais. Os ensaios toxicológicos são evidentemente necessários,
inclusive para estabelecer uma posologia adequada para um possível
atendimento fitoterápico. Por outro lado, a etnobotãnica e a antropologia
da saúde fornecem uma contribuição muito importante para a ciência
ao estudar o conhecimento de raizeiros e pajés indígenas que conhecem
os efeitos de cada planta a partir da experiência recebida de seus
ancestrais e da utilização da planta por si mesmo. Podemos dispor
desse modo de uma informação preciosa a respeito de plantas potencialmente
tóxicas e perigosas. Na verdade tudo o que sabemos de cada planta
considerada medicinal, tem origem na medicina popular, indígena, ou
através dos conhecimentos trazidos pelas etnias africanas introduzidas
no Brasil como escravos desde o início do processo de conquista e
colonização do Brasil.
Na verdade todas as plantas medicinais estudadas pela Universidade
no Brasil são oriundas da medicina popular. Não existe nenhuma planta
medicinal cujo conhecimento não seja difundido entre a população.
Portanto quem decide o que estudar em termos de ação medicinal, são
os intelectuais existentes nas comunidades simples do interior brasileiro,
os raizeiros, os mateiros, as parteiras, os rezadores, os umbandistas,
os curadores de cobra, etc. São eles que informam aos etnobotânicos
e antropólogos da saúde o que vale a pena estudar no reino vegetal.
Se não fosse assim porque a Universidade iria formar etnobotânicos,
etnofarmacologistas, especialistas em estudar o pensamento médico
popular, com o objetivo de encontrar plantas, com grande potencial
terapêutico. E tal fato vem acontecendo no mundo inteiro. A planta
medicinal, Stevia rebaudiana foi descoberta pelos índios guarani do
Paraguai e classificada pelo cientista suíço Moisés Bertoni. Pois
bem, a estévia é um adoçante 300 vezes mais potente do que o açúcar
de cana e não produz diabetes. Não por acaso foi proibido o seu uso
nos Estados Unidos!
Assim necessitamos cada vez mais reduzir nossa ignorância aprendendo
com quem sabe: os praticantes da medicina popular, porque ninguém
é totalmente sábio ou totalmente ignorante. O acesso ao saber é um
processo contínuo de busca e por isso para deixar de ser ignorante
é necessário trilhar sempre o caminho da pesquisa e humildemente reconhecer
que, mesmo quando avançamos, sabemos apenas que sabemos pouco ou quase
nada.
Entretanto quando julgamos os que realmente pesquisam e buscam o conhecimento,
totalmente ignorantes e idiotas, estamos reconhecendo que nada sabemos
do que necessita ser conhecido.
Pelo menos o Dr. Dráuzio Varella reconheceu que o atendimento fitoterápico
é profundamente diferente do atendimento alopático. O médico fitoterapeuta
escuta durante muito tempo as queixas e o histórico do paciente e
faz uma anamnese correta e completa. Nenhuma novidade nisso. Todo
médico deve fazer isso. "O doente vai ao médico e ele nem olha na
cara", segundo Dr. Dráuzio Varella. Realmente esta é a realidade da
"medicina de rico" aplicada ao pobre. O médico de formação alopata
não olha o paciente, porque não necessita individualizar o paciente,
basta receitar um analgésico ou antibiótico qualquer, para despedir
seu paciente. Este é o modelo que o Dr. Dráuzio Varella defende em
sua entrevista. Parabéns pela inteligência do Dr. Dráuzio Varella!
Enfim, vamos aguardar a reportagem do dia 29/08/2010 na Globo, para
avaliar melhor a proposta do Dr. Dráuzio Varella. |