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Recebido
por mail de Prof. Douglas Carrara
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A
VITÓRIA DOS ENLATADOS
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Governo Federal
Trocou Mistura Nutricional Consagrada Há Décadas por Produtos Industrializados
A cena foi comovente. O vice-presidente José Alencar preparava-se
para plantar uma árvore em Brasília quando foi abordado por uma nissei
de 65 anos e 1,60 m de altura. Era manhã da quinta-feira (06/09/2007).
A mulher começou a mostrar fotografias de crianças esqueléticas, brasileiros
com silhueta de etíopes, mas que tinham sido recuperadas com uma farinha
barata e acessível, batizada de "multimistura". Alencar marejou os
olhos. Pobre na infância no interior de Minas, o vice não conseguiu
soltar uma palavra sequer.
Apenas deu um longo e apertado abraço naquela mulher, a pediatra Clara
Takaki Brandão. Foi ela quem criou a multimistura, composto de farelos
de arroz e trigo, folha de mandioca e sementes de abóbora e gergelim.
Foi esta fórmula que, nas últimas três décadas, revolucionou o trabalho
da Pastoral da Criança, reduzindo as taxas de mortalidade infantil
no País e ajudando o Brasil a cumprir as Metas do Milênio. E o que
a pediatra foi pedir ao vicepresidente? Que não deixasse o governo
tirar a multimistura da merenda das crianças. Mais do que isso, ela
pediu que o composto fosse adotado oficialmente pelo governo. Clara
já tinha feito o mesmo pedido ao ministro da Saúde, José Gomes Temporão
- mas ele optou pelos compostos das multinacionais, bem mais caros.
"O Temporão disse que não é obrigado a adotar a multimistura", lamenta
Clara.
Duas semanas antes, a energia elétrica da sala de Clara dentro do
prédio do Ministério da Saúde foi cortada. Hoje, ela trabalha no escuro.
"Já me avisaram que agora eu estou clandestina dentro do governo",
ironiza a pediatra. Mas ela nem sempre viveu na escuridão. Prova disso
é que, na semana passada, o governo comemorou a redução de 13% nos
óbitos de crianças entre os anos de 1999 e 2004 - período em que a
multimistura tinha se propagado para todo o País.
Desde 1973, quando chegou à fórmula do composto, Clara já levou sua
multimistura para quase todos os municípios brasileiros, com a ajuda
da Pastoral da Criança, reduto do PT. Os compostos da multimistura
têm até 20 vezes mais ferro e vitaminas C e B1 em relação à comida
que se distribui nas merendas escolares de municípios que optaram
por comprar produtos industrializados. Sem contar a economia: "Fica
até 121% mais caro dar o lanche de marca", compara Clara.
Quando ela começou a distribuir a multimistura em Santarém, no Pará,
70% das crianças estavam subnutridas e os agricultores da região usavam
o farelo de arroz como adubo para as plantas e como comida para engordar
porco. Em 1984, o UNICEF constatou aumento de 220% no padrão de crescimento
dos subnutridos. Dessa época, Clara guarda o diário de Joice, uma
garotinha de dois anos e três meses que não sorria, não andava, não
falava. Com a multimistura, um mês depois Joice começou a sorrir e
a bater palmas. Hoje, a multimistura é adotada por 15 países. No Brasil
só se transformou em política pública em Tocantins.
Clara acredita que enfrenta adversários poderosos. Segundo ela, no
governo, a multimistura começou a ser excluída da merenda escolar
para abrir espaço para o Mucilon, da Nestlé, e a farinha láctea, cujo
mercado é dividido entre a Nestlé e a Procter & Gamble. "É uma política
genocida substituir a multimistura pela comida industrializada", ataca
a pediatra. A coordenadora nacional da Pastoral da Criança, Zilda
Arns, reconheceu que a multimistura foi importante para diminuir os
índices de desnutrição infantil. "A multimistura ajudou muito", diz.
"Mas só ela não é capaz de dizimar a anemia; também se deve dar importância
ao aleitamento materno." ISTO É procurou as autoridades do Ministério
da Saúde ao longo de toda a semana, mas nenhuma delas quis se pronunciar.
"O multimistura é um programa que não existe mais", limitou-se a informar
a assessoria de imprensa. |
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Fonte:
Revista Isto É, Hugo Marques, 19/09/2007
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