Domício da Gama,
definitivamente, para a "cultura" maricaense é um zero à esquerda.
Para o governo, então, é alegoria para mostrar o quanto os integrantes
do governo desconhecem o setor em que entram como comissionados. O
pretendido resgate histórico do escritor, jornalista, diplomata, ex-ministro
de Relações Exteriores e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras
serviu apenas para colocar uma coroa de cebolas e alhos numa coleção
de homenagens e fotos de uns e outros. O escritor ficou como azeitona
num empadão indigesto de malfeito.
A exposição sobre Domício da Gama, alardeada pelo governo de Quaquá
com o beneplácito do secretário e da subsecretária de Cultura, parece
mais trabalho escolar. Dos 20 painéis, todos lembrando aqueles antigos
cartazes espalhados nas escolas pelas professoras com cartolina e
papel crepom, apenas dois são dedicados ao homenageado. Se bem que
não foi autor de obra extensa e há mesmo pouco material sobre ele,
ainda a exposição é de um primarismo escolar. Faltou empenho, mas
se esbanjou amadorismo de meia tigela de quem é pago para fazer trabalho
realmente cultural.
A curadoria da exposição sequer se deu o trabalho de procurar fotos
e documentos, mesmo na internet, ou foi à Academia Brasileira de Letras
para obter mais informações, uma vez que a entidade editou uma coletânea
de textos de Domício da Gama com apresentação de um familiar do escritor
e ainda possui material doado pelo próprio. Pois não é que nem isso
tiveram a capacidade de encontrar? Não mostraram nenhum livro do escritor,
ou sequer a capa! Nem mesmo a edição da ABL foi apresentada! Por sinal,
nem há qualquer citação sobre essas obras.
Os organizadores nem sabem que em Maricá, em mãos particulares, existem
ao menos dois exemplares de uma primeira edição de um dos seus livros,
publicado em 1901, e hoje peça rara. Sequer se interessaram em pesquisar
e descobrir que, por mais de dois anos, uma livraria manteve o Baú
do Domício com foto, biografia, bibliografia e até mesmo um exemplar
dessa obra. Pequena exposição, mas correta com obras e sem enfeite.
Desconhecem, por ignorância plena, que há mais informação em Maricá
sobre o autor do que imaginam. Como Domício e outros personagens da
História na cidade nunca foram ou são do interesse governamental,
resta o desconsolo de mais uma vez ver cultura, em Maricá, tratada
às patadas. E o pobre Domício, que nunca mereceu sequer um busto na
cidade, acaba enfiado num saco de batatas bichadas para deleite dos
medíocres. |