Numa cidade poética,
na qual todos cantam loas por suas belezas, nada melhor do que um
alemão para dizer também as verdades que não querem ouvir.
"SENTE-SE
Sente-se.
Está sentado?
Encoste-se tranquilamente na cadeira.
Deve sentir-se bem instalado e descontraído.
Pode fumar.
É importante que me escute com muita atenção.
Ouve-me bem?
Tenho algo a dizer-lhe que vai interessá-lo.
Você é um idiota.
Está realmente a escutar-me?
Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?
Então
Repito: você é um idiota.
Um idiota.
(...)
Por favor não me interrompa.
Não deve interromper-me.
Você é um idiota.
Não diga nada. Não venha com evasivas.
Você é um idiota.
Ponto final.
Aliás não sou o único a dizê-lo.
A senhora sua mãe já o diz há muito tempo.
Você é um idiota.
Pergunte pois aos seus parentes
Se você não é um I.
Claro, a você não lho dirão
Porque você se tornaria vingativo como todos os idiotas.
Mas
Os que o rodeiam já há muitos dias e anos sabem
que você é um idiota.
(...)
De resto isso não é grave.
E assim que você poderá chegar aos 80 anos.
Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem.
E então na política!
Não há dinheiro que o pague.
Na qualidade de I você não precisa de se preocupar
com mais nada.
E você é I.
(Formidável, não acha?)
(...)
Este homem é um I.
Nada mais.
Não basta tocar o disco uma só vez."
(Poemas, Bertold Brecht, com tradução de Arnaldo Saraiva, Editorial
Presença) |