15/04/2010
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MENSAGEM/QUINTA DE POESIA
Numa cidade poética, na qual todos cantam loas por suas belezas, nada melhor do que um alemão para dizer também as verdades que não querem ouvir.

"SENTE-SE

Sente-se.

Está sentado?

Encoste-se tranquilamente na cadeira.

Deve sentir-se bem instalado e descontraído.

Pode fumar.

É importante que me escute com muita atenção.

Ouve-me bem?

Tenho algo a dizer-lhe que vai interessá-lo.



Você é um idiota.

Está realmente a escutar-me?

Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?

Então

Repito: você é um idiota.

Um idiota.

(...)

Por favor não me interrompa.

Não deve interromper-me.

Você é um idiota.

Não diga nada. Não venha com evasivas.

Você é um idiota.

Ponto final.



Aliás não sou o único a dizê-lo.

A senhora sua mãe já o diz há muito tempo.

Você é um idiota.

Pergunte pois aos seus parentes

Se você não é um I.

Claro, a você não lho dirão

Porque você se tornaria vingativo como todos os idiotas.

Mas

Os que o rodeiam já há muitos dias e anos sabem

que você é um idiota.

(...)

De resto isso não é grave.

E assim que você poderá chegar aos 80 anos.

Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem.

E então na política!

Não há dinheiro que o pague.

Na qualidade de I você não precisa de se preocupar

com mais nada.

E você é I.

(Formidável, não acha?)

(...)

Este homem é um I.

Nada mais.

Não basta tocar o disco uma só vez."

(Poemas, Bertold Brecht, com tradução de Arnaldo Saraiva, Editorial Presença)