Brasileiro adora
uma carteira. Não confundir com bater carteira alheia, que é crime
só cometido pelos marginais, governos e políticos. Com que prazer
se dá a famosa carteirada! Não é qualquer um que pode mostrar uma
carteirinha da OAB ou CRM, pois será preso por falsidade ideológica.
Mas que tal desfilar com uma carteirinha de jornalista? Com essa,
da associação que for, enfim está conquistado o ibope junto a alhos
e bugalhos.
O sujeito enche a boca como se estivesse com um bombom debaixo da
língua: "Sou jornalista". Aí é bajulado pelos maiorais e reverenciado
pelos meros mortais. Sente-se um astro pairando sobre o bem e o mal,
uma estrela sob holofotes. Não é à toa que o fim da necessidade de
diploma para a profissão foi tão aplaudida. Enfim qualquer um poderia
desfilar com um crachá de imprensa pendurado no orelhão. Segundo os
inconsequentes, basta apenas saber umas noções básicas de Português,
ter no bolso umas opiniões sempre à mão, para zurrar como numa estrebaria:
"Sou jornalista!"
Com uma carteira, o sujeito não precisa enfrentar uma faculdade, para
a qual não tem capacidade mesmo de freqüentar; não vai agüentar ter
que a barulhada de uma redação, nem mesmo sua rotina diária, que pode
ser estressante e repetitiva; foge numa redação de tevê dos frames
angustiantes, dos segundos matematicamente calculados. A propriedade
de carteira dá fim a todos os inconvenientes da profissão, inclusive
procurar emprego. Porque o dono pode ser qualquer outra coisa, mas
no bolso traz a carteira que o endeusa sem que precise demonstrar
nada. Afinal, é jornalista!!!
A sem cerimônia com que tratam o jornalismo é criminosa. O verdadeiro
profissional não precisa de documento comprobatório como uma carteirinha.
Tem já o registro (em Maricá há quem desfilasse até com dois registros!!!).
Mas, se quiser carteira, estão aí a Associação Brasileira de Imprensa,
os sindicatos profissionais e a Federação Nacional dos Jornalistas,
que congregam profissionais, a maioria formada, e não meros escribas
de pasquinadas.
Os jornais daqui que sempre silenciaram contra os governos, e na atual
administração até abrem espaços gigantescos para a campanha da madame
Z, agora querem se aliar em uma associação. Será para continuar se
lixando para as atrocidades governamentais? Continuar divulgando releases
de governo com factóides?
O celestino jornalismo maricaense, aquele mesmo que vestiu a camisa
do jornal no prefeito imbecil e fez uma edição de louvores à mulher
do mesmo, candidata à Câmara, está promovendo nesta sexta-feira uma
apresentação da Associação Brasileira de Jornais do Interior, que
deve resultar em uma Associação Maricaense de Imprensa, com o apoio
do nobre presidente da Câmara, onde haverá o encontro.
O que pensar de uma associação que tenha as boas graças do presidente
da Câmara, seja organizada por um chapa branca, que sempre serviu
aos governos e nunca às reclamações do povo, e ainda consiga reunir
outros iguais "trabalhadores de imprensa"? Não se deve pensar bem
mesmo. O que se dirá de uma instituição de imprensa sob a guarda dos
poderes tão podres quanto os de Maricá e de gente que envergonha até
mesmo o velho jornalismo marrom da primeira metade do século passado
no país.
Só falta esta monstruosidade agir como uma outra, também inspiração
de "coleguinha", que depois assumiu um cargo na administração petista,
por mérito de viver há anos no município. Foi tão genial a entidade
de imprensa que até oferecia carteira de "sócio colaborador" mesmo
a quem não fosse do ramo.
FRASE - "Nenhum meio informativo é asséptico, mas deve basear-se na
ética e em valores a serviço dos povos e não para se servir dos mesmos"
- Adolfo Perez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz |