10/09/2010
........ Luiz Gadelha # lgadelha@leitoreselivros.com.br
A CARTEIRINHA ABENÇOADA NA PASTELARIA
Brasileiro adora uma carteira. Não confundir com bater carteira alheia, que é crime só cometido pelos marginais, governos e políticos. Com que prazer se dá a famosa carteirada! Não é qualquer um que pode mostrar uma carteirinha da OAB ou CRM, pois será preso por falsidade ideológica. Mas que tal desfilar com uma carteirinha de jornalista? Com essa, da associação que for, enfim está conquistado o ibope junto a alhos e bugalhos.
O sujeito enche a boca como se estivesse com um bombom debaixo da língua: "Sou jornalista". Aí é bajulado pelos maiorais e reverenciado pelos meros mortais. Sente-se um astro pairando sobre o bem e o mal, uma estrela sob holofotes. Não é à toa que o fim da necessidade de diploma para a profissão foi tão aplaudida. Enfim qualquer um poderia desfilar com um crachá de imprensa pendurado no orelhão. Segundo os inconsequentes, basta apenas saber umas noções básicas de Português, ter no bolso umas opiniões sempre à mão, para zurrar como numa estrebaria: "Sou jornalista!"
Com uma carteira, o sujeito não precisa enfrentar uma faculdade, para a qual não tem capacidade mesmo de freqüentar; não vai agüentar ter que a barulhada de uma redação, nem mesmo sua rotina diária, que pode ser estressante e repetitiva; foge numa redação de tevê dos frames angustiantes, dos segundos matematicamente calculados. A propriedade de carteira dá fim a todos os inconvenientes da profissão, inclusive procurar emprego. Porque o dono pode ser qualquer outra coisa, mas no bolso traz a carteira que o endeusa sem que precise demonstrar nada. Afinal, é jornalista!!!
A sem cerimônia com que tratam o jornalismo é criminosa. O verdadeiro profissional não precisa de documento comprobatório como uma carteirinha. Tem já o registro (em Maricá há quem desfilasse até com dois registros!!!). Mas, se quiser carteira, estão aí a Associação Brasileira de Imprensa, os sindicatos profissionais e a Federação Nacional dos Jornalistas, que congregam profissionais, a maioria formada, e não meros escribas de pasquinadas.
Os jornais daqui que sempre silenciaram contra os governos, e na atual administração até abrem espaços gigantescos para a campanha da madame Z, agora querem se aliar em uma associação. Será para continuar se lixando para as atrocidades governamentais? Continuar divulgando releases de governo com factóides?
O celestino jornalismo maricaense, aquele mesmo que vestiu a camisa do jornal no prefeito imbecil e fez uma edição de louvores à mulher do mesmo, candidata à Câmara, está promovendo nesta sexta-feira uma apresentação da Associação Brasileira de Jornais do Interior, que deve resultar em uma Associação Maricaense de Imprensa, com o apoio do nobre presidente da Câmara, onde haverá o encontro.
O que pensar de uma associação que tenha as boas graças do presidente da Câmara, seja organizada por um chapa branca, que sempre serviu aos governos e nunca às reclamações do povo, e ainda consiga reunir outros iguais "trabalhadores de imprensa"? Não se deve pensar bem mesmo. O que se dirá de uma instituição de imprensa sob a guarda dos poderes tão podres quanto os de Maricá e de gente que envergonha até mesmo o velho jornalismo marrom da primeira metade do século passado no país.
Só falta esta monstruosidade agir como uma outra, também inspiração de "coleguinha", que depois assumiu um cargo na administração petista, por mérito de viver há anos no município. Foi tão genial a entidade de imprensa que até oferecia carteira de "sócio colaborador" mesmo a quem não fosse do ramo.

FRASE - "Nenhum meio informativo é asséptico, mas deve basear-se na ética e em valores a serviço dos povos e não para se servir dos mesmos" - Adolfo Perez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz