A Febraplame - Federação
das Associações de Pesquisa com Plantas Medicinais, composta pelas
entidades Associação Brasileira de Fitoterapia; Associação Brasileira
de Fitomedicina; Sociedade Botânica do Brasil; Sociedade Brasileira
de Etnobotânica e Etnobiologia; Sociedade Brasileira de Farmacognosia;
Sociedade Brasileira de Farmacologia e Terapêutica Experimental; Sociedade
Brasileira de Horticultura; Sociedade Brasileira de Química; Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência e Sociedade Catarinense de
Plantas Medicinais (representando cerca de 5000 pesquisadores das
várias áreas da ciência), reunida em João Pessoa durante o XXI Simpósio
de Plantas Medicinais do Brasil, evento que expressa 40 anos de pesquisa
na área de plantas medicinais e que contou com cerca de 1700 participantes
com 1400 trabalhos científicos apresentados, vem a público manifestar-se
sobre o conteúdo de reportagens da Revista Época e programa Fantástico
sobre o tema plantas medicinais e fitoterápicos, realizadas recentemente
pelo Dr. Drauzio Varella:
1. O Dr. Drauzio Varella afirma, inicialmente, que o Ministério da
Saúde propõe uma 'medicina para pobres baseada em plantas que não
tem atividade demonstrada cientificamente'. Desde sempre as entidades
da área tem buscado evitar tal dilema, isto é, produtos para classes
distintas, contribuindo de modos diversos para que todos os produtos
tenham eficácia e segurança garantidas e possam ser usados por pacientes
de todas as classes sociais. Portanto tal afirmação não corresponde
à realidade e ao esforço e entendimento dos pesquisadores e entidades
da área.
2. A afirmação de que a fitoterapia não tem atividade demonstrada
cientificamente igualmente não tem fundamento e evidencia outro aspecto:
a existência de modos diferentes de entender-se 'demonstração científica'
("Têm de ser submetidos ao mesmo escrutínio ao qual os remédios comuns
são submetidos."). Os entendimentos técnicos e legais da área definem
que para uma substância totalmente nova na terapêutica, sejam fármacos
sintéticos ou espécies vegetais, exigem-se todos os testes possíveis
pré-clínicos e clínicos, visão expressa pelo Dr. Drauzio. No entanto,
para espécies vegetais ampla e tradicionalmente usadas, ocorre flexibilização
de requisitos, de modo a considerar-se o tempo documentado de uso
como de valor em termos de expressão de segurança e eficácia (mínimo
de 20 anos de uso no Brasil, e 30 anos ou mais é a regra considerada
na Comunidade Européia).
3. Tal requisito, de fato distinto do modo clássico aplicado a fármacos
sintéticos, tem base teórica expressa nos documentos da OMS desde
os anos de 1980 (ex.: OMS. Pautas para la evaluacion de medicamentos
herbarios. Ginebra, 1991), foi discutido e amadurecido por décadas
no Brasil, foi incorporado progressivamente em normas legais brasileiras
(exs.: RDC Anvisa 17 de 2004; RDC Anvisa 48 de 2004; RDC Anvisa 14
de 2010) e tem total sintonia com os padrões regulatórios internacionais,
como ocorre na Alemanha, Itália, França, dentre inúmeros outros países.
Portanto, a posição do Dr. Drauzio trata-se de uma visão parcial,
ortodoxa, completamente desinformada frente ao que foi construído
e estabelecido no Brasil em termos técnicos e legais.
4. As afirmações do Dr. Drauzio de que temos apenas testes in vitro
é certamente uma falácia, demonstrando má intenção clara, cuja origem
não se sabe mas pode ter viés político-eleitoral ou mesmo comercial,
frente a algum possível segmento que se sinta incomodado em relação
às perspectivas abertas com a oficialização da fitoterapia no SUS.
Na verdade, os estudos nacionais têm progredido em todas as áreas,
desde os iniciais passando por modelos animais, estudos químicos,
de controle de qualidade, toxicológicos bem como clínicos. Nesta área
clínica certamente há carências, decorrentes do desinteresse secular
da ciência médica atual, bem como das dificuldades em patenteamento
de fitoterápicos, o que desestimula o financiamento privado. Mas certamente
temos diversos estudos clínicos com plantas brasileiras e espera-se
que tais estudos proliferem progressivamente com o avanço da fitoterapia
em vários níveis.
5. O Dr. Drauzio Varella demonstra claramente seu total desconhecimento
sobre os aspectos regulatórios de medicamentos fitoterápicos no Brasil,
ao afirmar que: "Eles são registrados na ANVISA como complemento alimentar".
Essa afirmação, além da ignorância no tema, confunde o entendimento
de todo o trabalho que tem sido realizado, desde 1995, para a regulamentação
dos medicamentos fitoterápicos no país. Desde então essa regulamentação
vem sendo aperfeiçoada e atualmente é uma das melhores do mundo, superando
inclusive a legislação dos EUA, país onde realmente os fitoterápicos
são considerados suplementos alimentares, com venda livre em supermercados
e não regulados pelo FDA. Outras críticas pontuais têm sido feitas,
tanto em relação a algumas Farmácias Vivas visitadas, bem como a indicações
por profissionais não qualificados para tal, chegando-se também a
sugerir que as indicações de alguns fitoterápicos não foram bem estabelecidas.
Nesse grupo é possível alguma concordância, pois recentemente emitimos
crítica à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos
do Ministério da Saúde sobre a falta de abertura para seleção dos
oito fitoterápicos recentemente introduzidos no SUS e mesmo das 71
espécies da RENISUS. E de fato problemas têm ocorrido, os quais podem
e devem ser corrigidos e aperfeiçoados visando a adequada implantação
da fitoterapia no SUS. No entanto, nada disso permite ou justifica
a implosão de todo um conjunto de possibilidades terapêuticas, econômicas
e de aproveitamento da biodiversidade brasileira, como se depreende
dos questionamentos desinformados do Dr. Drauzio.
Assim as críticas construtivas sempre devem ser feitas, de modo a
que a sociedade civil mantenha seu papel fiscalizador das atitudes
governamentais e também de contribuição, refletindo a visão dos seus
membros e aperfeiçoando as políticas setoriais.
Portanto a Febraplame REPUDIA e CONTESTA a forma equivocada e tendenciosa
como este tema vem sendo divulgado pelo Dr. Drauzio Varella, Revista
Época e programa Fantástico, os quais denigrem o esforço de décadas
para que se consiga estabelecer uma adequada política de fitoterápicos
no Brasil e em nada contribuem à sua melhoria.
FEBRAPLAME
Lauro Barata - Presidente Gestão 2008-2010
Vanderlan Bolzani - Presidente gestão 2010 - 2012
Ricardo Tabach (pelas diretorias)
Secretário
São Paulo, 6 de outubro de 2010 |