Um pato, muito convencido,
que se achava o maior, um dia descobriu um apito no meio da lama.
Com sua fome biafrenta, engoliu o apito. Da voz arrepiante, passou
a grasnar com um leve sotaque mágico. Não houve quem no terreiro resistisse
aos encantos dos seus bemóis. Isso mais pavoneou o pato, que se aproveitou
para reinar supremo no meio dos patos.
Tanto cantou de galo que chamou a atenção dos outros animais que não
eram tão burros quanto ele ou seus parentes. "Impossível um pato ter
voz assim para maravilhar", dizia um. "Pato só serve para emporcalhar
tudo e berrar nos ouvidos", afirmava outro. "Tem lebre aí", falou
o coelho.
Tanto se comentou por todo lado o assunto que o asno resolveu decidir
a parada, porque sabia que tinha apito na jogada. Chegou na cerca
da pataria e chamou o pato mágico. Depois de elogiar muito o governo
bípede naquele terreiro e principalmente a voz mágica de comando,
sugestionou o pato: "Com essa voz e ainda aqui? Se eu fosse o senhor,
alçava voo para outros terreiros. Seria dono de todo reino dos patos,
quiçá reinar sobre os quadrúpedes."
"Mas como voar assim?", pensou o pato, já crente que poderia imperar
como um condor, pois só conseguia dar um rasante merreca.
"Por que o senhor não pratica todo o dia um voo aqui e outro ali?",
disse o asno.
E assim a besta decidiu praticar. Mas por mais que fizesse não havia
jeito. Tanto se desesperou um dia que fez uma tentativa com o maior
esforço. A força que usou foi tamanha que o apito saiu por onde não
devia. Mas nem percebeu isso o burro que, quando se estabacou no chão,
começou a berrar igualzinho aos outros. Foi a perdição. O pato era
igual a todos os outros parentes.
E assim foi o fim do pato que um dia imaginou ser o rei do terreiro.
Acabou na lama, obrando a cada patada como seus porcos parentes, que
fazem da terra chiqueiro. |