A Vila
estava agitada hoje. Eu e Santinha, a minha mula querida, notamos
que tinha muita gente nas ruas, tudo gente estranha, com uns panos
na cabeça, homens com bata branca, enrolando a língua. Vixe! Estranhei
inté que estava em outra terra.
Depois é que vim saber das novidades. Era gente ilustre que veio trazer
os tais de dólares, por isso estavam disfarçados. Já pensou se os
pobrezinhos dos estrangeiros são depenados na Vila? Porque pode não
parecer, mas na vila tem cada um, que vixe! mete a mão sem incomodar
mosquito no bolso e ainda diz que só faz caridade para o povo.
Deixa pra lá que Santinha já ficou nervosa só com a relembrança do
caso. Fomos vendendo tudo do caçuá: as bananas doces de mel, as laranjas
que escorrem maná; mandiocas que se desmancham. Tudo coisa do melhor.
E vende aqui, vende ali, ficamos sabendo, eu e Santinha, das novidades
pra lá de boas do prefeitinho. Gente fina, que, como nós, comeu muita
rã em criança. Mas só que ele ficou forte e inteligente como o diabo.
Nós é que ficamos assim desbaratado da cabeça. Deve ter sido de muita
banana na infância, porque a fruta é coisa de macaco e mexeu com a
cabeça.
Das novidades, vim pensando no caminho para a terrinha. E agora aqui
do alto, com o mar lá na fita da praia, vejo que o homem é mesmo inteligente.
Todo mundo fala por lá que o mar vai subir. E não é que o prefeitinho,
gente moça, mas de um olho desse tamanho no futuro, resolveu o problema
caladinho. Num deve ter pensado muito não, que não é desses de pensar.
Logo viu que se colocasse um estaleiro aqui e outro lá na ponta, com
aquela montoeira de ferro para fazer navios, e uns gigantes daqueles
espalhados pelo marzão, mais uma montanha de edifício bem na beiradinha
da praia, tá resolvido tudo. Fecha de vez o espaço para o mar brabão
que dizem que vem por aí. Fica todo mundo tranqüilo, bem protegidinho.
E ainda resta um pouquinho de água da lagoa para a gente se divertir
e até sobra espaço para ele encher com aqueles aviõezinhos, que parecem
até passarinho, a terra daqui desse lado.
Já tava vendo aquela muralha de navio e edifícios bem na fita de areia,
tudo alinhado no gostinho para enfrentar os ondões, que não são bestas
de encarar a inteligência do homem da Vila.
Aí dormi, encostadinho nos cascos de Santinha, crente que um dia vou
ser tão inteligente. Mas a droga daquela de rã com banana ainda mexe
muito com a cabeça. Deixa eu amalucado só com jeito para pensar nas
minhas frutinhas da terra.
Se tivesse filho, dava a ele rã de manhã e de noite, para ficar mais
inteligente inté que pudesse pensar coisa ainda mais inteligente do
que a inteligência grande do prefeitinho da Vila. Êta sô! |