Era
uma vez um palhaço que resolveu dar mais prestígio ao cirquinho de
beira de estrada, daqueles bem caidinhos. Como todo circo de verdade
tem que ter um leão, resolveu se fantasiar de Rei dos Animais para
dar prestígio à lona mambembe. Com uma roupa remendada e rugindo para
tudo, começou ensaiar para ser Rei. Convenceu público e até mesmo
os animais que viviam ali próximo no terreiro, como cobras, urubus,
burros, cavalos, cachorros e até hienas (porque lá na terra do tal
palhaço hiena vivia em quintal).
A coisa tomou tal forma que ele até ganhou regalia de só ter obrigação
de aparecer na hora do espetáculo. No resto do tempo, como queria
aprimorar sua forma, estava sempre entre os animais próximos, no meio
do mato, mascando capim. A palhaça não gostou muito da novidade do
marido. Até porque continuava a dar duro no picadeiro. Mas ficou atenta,
porque, se ele convencesse a todos que era Rei, ela bem que poderia
ser Rainha. E já sonhava quando vestiria a roupa remendada de leoa.
Passou inclusive a dar alguns rugidos, de ensaio. O mestre de cerimônias,
domador e dono do picadeiro viu uns bons trocados surgindo se pudesse
contar com um casal de felinos reais. A novidade fez chover dinheiro
sob a lona. Todo mundo queria conhecer o casal Leão Trovejante e Dona
Juba, que agora também passava o dia no mato se aprimorando para bem
impressionar como animal. E entre aquela cambada de burros, hienas,
cobras, urubus, jararacas e outros bichinhos, logo estavam afiadíssimos.
Mas o leão fajuto, sem qualquer ofensa animal, era por demais um asno,
que empacava quando cismava numa besteira, ia fundo e se estabacava.
E foi o que aconteceu. Tão animado ficou em ser Rei, que escolheu
um montinho no meio do terreiro como trono para suas preleções diárias
àquela cambada animal que reunia para ouvir seus rugidos de taquara-rachada.
Uma novidade que entre os sons mais altos estavam o riso de come-bosta
e o zurrar de quem pasta. E lá todo dia, com o monte crescendo e seu
convencimento de que era rei aumentando no mesmo nível, ficava o palhaço-leão
rugindo para os ouvidos complacentes dos animais. E lá no meio, para
aprender, também ficava a palhaça, bem arrumada em seu traje de leoa.
Balançava a juba, fazia caras e bocas para os burros deslumbrados,
as hienas gargalhantes, as cobras sibilinas.
Tudo ia bem até que num belo dia, bem no alto do monte, sob o rabo
do leão, se abriu um buraquinho. Foi o suficiente para dali saírem
as formigas-fogo. O desespero tomou conta do Rei com o rabo em brasa
de tanta mordida. A voz de taquara voltou e os animais deram no pé,
decepcionados com um leão que mais parecia um marreco grasnando em
desespero para se chafurdar na lama a fim de conseguir acabar com
o fogo daquelas formiguinhas.
A rainha leoa logo viu que teria que voltar a ser palhaça para sustentar
a família, porque com o rabo entre as pernas, todo inchado de mordida,
gemendo como um bebê chorão, o palhaço tinha de vez desistido da palhaçada
de ser rei. Agora nem para palhaço servia, porque queimadura de formiga-fogo
destrambela a cabeça ainda mais quem dela já não regula. A palhaça
perdeu de vez o sonho de rainha que durou pouco.
E assim foram viver felizes da vida lá em Pequepê, região bem afastada
no mapa, para onde devem ir aqueles que sempre se acham grandes e
não passam de insignificantes. |