24/09/2009
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O PALHAÇO-LEÃO E A FORMIGA-FOGO
Era uma vez um palhaço que resolveu dar mais prestígio ao cirquinho de beira de estrada, daqueles bem caidinhos. Como todo circo de verdade tem que ter um leão, resolveu se fantasiar de Rei dos Animais para dar prestígio à lona mambembe. Com uma roupa remendada e rugindo para tudo, começou ensaiar para ser Rei. Convenceu público e até mesmo os animais que viviam ali próximo no terreiro, como cobras, urubus, burros, cavalos, cachorros e até hienas (porque lá na terra do tal palhaço hiena vivia em quintal).

A coisa tomou tal forma que ele até ganhou regalia de só ter obrigação de aparecer na hora do espetáculo. No resto do tempo, como queria aprimorar sua forma, estava sempre entre os animais próximos, no meio do mato, mascando capim. A palhaça não gostou muito da novidade do marido. Até porque continuava a dar duro no picadeiro. Mas ficou atenta, porque, se ele convencesse a todos que era Rei, ela bem que poderia ser Rainha. E já sonhava quando vestiria a roupa remendada de leoa. Passou inclusive a dar alguns rugidos, de ensaio. O mestre de cerimônias, domador e dono do picadeiro viu uns bons trocados surgindo se pudesse contar com um casal de felinos reais. A novidade fez chover dinheiro sob a lona. Todo mundo queria conhecer o casal Leão Trovejante e Dona Juba, que agora também passava o dia no mato se aprimorando para bem impressionar como animal. E entre aquela cambada de burros, hienas, cobras, urubus, jararacas e outros bichinhos, logo estavam afiadíssimos. Mas o leão fajuto, sem qualquer ofensa animal, era por demais um asno, que empacava quando cismava numa besteira, ia fundo e se estabacava.

E foi o que aconteceu. Tão animado ficou em ser Rei, que escolheu um montinho no meio do terreiro como trono para suas preleções diárias àquela cambada animal que reunia para ouvir seus rugidos de taquara-rachada. Uma novidade que entre os sons mais altos estavam o riso de come-bosta e o zurrar de quem pasta. E lá todo dia, com o monte crescendo e seu convencimento de que era rei aumentando no mesmo nível, ficava o palhaço-leão rugindo para os ouvidos complacentes dos animais. E lá no meio, para aprender, também ficava a palhaça, bem arrumada em seu traje de leoa. Balançava a juba, fazia caras e bocas para os burros deslumbrados, as hienas gargalhantes, as cobras sibilinas.

Tudo ia bem até que num belo dia, bem no alto do monte, sob o rabo do leão, se abriu um buraquinho. Foi o suficiente para dali saírem as formigas-fogo. O desespero tomou conta do Rei com o rabo em brasa de tanta mordida. A voz de taquara voltou e os animais deram no pé, decepcionados com um leão que mais parecia um marreco grasnando em desespero para se chafurdar na lama a fim de conseguir acabar com o fogo daquelas formiguinhas.

A rainha leoa logo viu que teria que voltar a ser palhaça para sustentar a família, porque com o rabo entre as pernas, todo inchado de mordida, gemendo como um bebê chorão, o palhaço tinha de vez desistido da palhaçada de ser rei. Agora nem para palhaço servia, porque queimadura de formiga-fogo destrambela a cabeça ainda mais quem dela já não regula. A palhaça perdeu de vez o sonho de rainha que durou pouco.

E assim foram viver felizes da vida lá em Pequepê, região bem afastada no mapa, para onde devem ir aqueles que sempre se acham grandes e não passam de insignificantes.