24/08/2009
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VILA FELIZ DOS INFERNOS
Zé da Santinha

Foi difícil animar Santinha para passear de novo na Vila. A bichinha ficou vexada.

Da última vez, fiquei pouquinho, porque amarrei minha amada mula lá para os cantões da Cadeia Velha, onde o prefeito até fez um plantio de mato bom para os animais.

Santinha prefere também esse canto, bem afastado dos paus onde se amarram os burros dos bares. Ela estava bem quietinha no seu mastigar, quando um sujeito tascou-lhe a mão nos quartos. Minha Santinha é muito recatada e se vexou. Ainda no pelo lustrado o homem deixou pregado um selo de multa de estacionamento. Só podia ser maldade de cabra ruim. Mas não é que tive ainda que pagar uma multa por Santinha! Aí é que vi que agora temos muita lei ali, com uma ordem que dá inté choque nos desavisados.
Acho que ela superou o vexado depois de muita conversa que tive com ela sobre a necessidade de se cumprir a lei.

E voltamos, ela meio ressabiada, tanto que nem ficamos parados. No zanzar pela cidade, pude ver melhor a Vila. De obra, não vi coisa nova. Mas olhei bem, com um olhão arregalado, para ver que tinha pouca gente nas ruas e tudo emburrado. Cabisbaixos, tristes, desconsolados. E no pergunta aqui e ali, soube que isso acontece com os não sabem ver a bondade do prefeito. É isso mesmo, ficam contrariados, por não terem aproveitado os braços abertos da bondade do governo.

Resta ver como o prefeito abrigou um mundão de gente, desempregada, desesperada por um dinheirinho. Está tudo nos prédios que alugou para abrigar os mais necessitados.

Onde tem prédio do governo, agora só se vê gente feliz com dinheiro no bolso, rindo de siso a siso. Também pudera com aquela bondade dele, abrigou os necessitados que agora, por não serem mais explorados, trabalham quando querem e no máximo três horinhas bem contadas. Dá gosto de ver a felicidade do povão dele.

É como digo, aquelas rãs que comeu na infância não só deram inteligência ao homem como ainda amoleceram seu coração. Essa felicidade é que o resto da cidade, uns despeitados, não vê. Trabalham como uns desgraçados que nem têm tempo de ver a beleza de se cuidar de tanto necessitado que havia ao lado, muitos estiradões nas redes o dia todo sem o que fazer, na procura de uma boquinha. Só o casalzinho teve essa visão de buscar e amparar todo mundo.

É tanta bondade, de transbordo, que até obrigou a mulher, outra boníssima dona moça, a também fazer essa caridade. Ela superou mesmo o prefeito. Trabalha, a coitada, de dar dó. Viaja sempre para pegar um dinheirinho lá fora, ou então está em tudo que é lugar na cidade. Onipresente sempre. Quando viaja, leva uns pobres para andar de avião e conhecer a capitá. E colocou num prédio bem grande, com piscina, os seus necessitados. Tudo escolhido a dedo, precisado de um amparo. Trocadinho certo no fim do mês, poucas horas de trabalho bem levinho para não se cansarem. E festa. Como os dois gostam de dar festa para seus descamisados. Lembrei inté de Evita, santa.

No outro canto, ficam os pobres emburrados que implicam de montão com esse esbanjamento de bondade. Não sabem mesmo o que é ajudar o povo. Vivem reclamando de impostos, de exploração, até falam em intimidação e repressão, mas não querem ver que a Vila vive dias cor de rosa, mais festeira como nunca, com um montão de gente empregada, de bolso cheio. Até se dão ao luxo, uns pouquinhos, a gastar a grana lá fora.

Alguns mesmo com casa e comida, só não conseguiram ainda roupa lavada. Fazem uns passeios grandes numas praias de fora. Vidão que só esse governo dá com tudo pago de beber e de comer, inda sobra até para gozar nas terras vizinhas e pagar rodada em cada bar para mostrar as belezas da Vila.

O prefeitinho também não fica atrás em se mexer. De tanto gostar do povão, até se aventurou por muito tempo em fazer vigília no hospital. Acompanhou muito doente, empurrou muita cadeira de roda, só faltou mesmo, dizem alguns, dar banho nos pacientes de tanto que gostou de cuidar daquela gente doente.

Depois de um passeio desses até voltei mais feliz. Pobre na Vila agora tem vida. E que vidão! Agora só reclama mesmo quem não está comendo na boquinha como essa gente tão precisada. Governo nenhum nunca fez tanto pelos pobres, que agora uns poucos ainda até pensam em pegar um carrinho. Afinal, são pobres de Deus e muito necessitados dessa bondade do seu prefeito e dona moça, que ainda pretendem fazer muito mais. Conforme o dinheirinho vai entrando daqueles emburrados, reclamões, eles vão abrigando mais gente. Êta Vila feliz dos infernos.