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Foi difícil animar
Santinha para passear de novo na Vila. A bichinha ficou vexada.
Da última vez, fiquei pouquinho, porque amarrei minha amada mula
lá para os cantões da Cadeia Velha, onde o prefeito até fez um plantio
de mato bom para os animais.
Santinha prefere também esse canto, bem afastado dos paus onde se
amarram os burros dos bares. Ela estava bem quietinha no seu mastigar,
quando um sujeito tascou-lhe a mão nos quartos. Minha Santinha é
muito recatada e se vexou. Ainda no pelo lustrado o homem deixou
pregado um selo de multa de estacionamento. Só podia ser maldade
de cabra ruim. Mas não é que tive ainda que pagar uma multa por
Santinha! Aí é que vi que agora temos muita lei ali, com uma ordem
que dá inté choque nos desavisados.
Acho que ela superou o vexado depois de muita conversa que tive
com ela sobre a necessidade de se cumprir a lei.
E voltamos, ela meio ressabiada, tanto que nem ficamos parados.
No zanzar pela cidade, pude ver melhor a Vila. De obra, não vi coisa
nova. Mas olhei bem, com um olhão arregalado, para ver que tinha
pouca gente nas ruas e tudo emburrado. Cabisbaixos, tristes, desconsolados.
E no pergunta aqui e ali, soube que isso acontece com os não sabem
ver a bondade do prefeito. É isso mesmo, ficam contrariados, por
não terem aproveitado os braços abertos da bondade do governo.
Resta ver como o prefeito abrigou um mundão de gente, desempregada,
desesperada por um dinheirinho. Está tudo nos prédios que alugou
para abrigar os mais necessitados.
Onde tem prédio do governo, agora só se vê gente feliz com dinheiro
no bolso, rindo de siso a siso. Também pudera com aquela bondade
dele, abrigou os necessitados que agora, por não serem mais explorados,
trabalham quando querem e no máximo três horinhas bem contadas.
Dá gosto de ver a felicidade do povão dele.
É como digo, aquelas rãs que comeu na infância não só deram inteligência
ao homem como ainda amoleceram seu coração. Essa felicidade é que
o resto da cidade, uns despeitados, não vê. Trabalham como uns desgraçados
que nem têm tempo de ver a beleza de se cuidar de tanto necessitado
que havia ao lado, muitos estiradões nas redes o dia todo sem o
que fazer, na procura de uma boquinha. Só o casalzinho teve essa
visão de buscar e amparar todo mundo.
É tanta bondade, de transbordo, que até obrigou a mulher, outra
boníssima dona moça, a também fazer essa caridade. Ela superou mesmo
o prefeito. Trabalha, a coitada, de dar dó. Viaja sempre para pegar
um dinheirinho lá fora, ou então está em tudo que é lugar na cidade.
Onipresente sempre. Quando viaja, leva uns pobres para andar de
avião e conhecer a capitá. E colocou num prédio bem grande, com
piscina, os seus necessitados. Tudo escolhido a dedo, precisado
de um amparo. Trocadinho certo no fim do mês, poucas horas de trabalho
bem levinho para não se cansarem. E festa. Como os dois gostam de
dar festa para seus descamisados. Lembrei inté de Evita, santa.
No outro canto, ficam os pobres emburrados que implicam de montão
com esse esbanjamento de bondade. Não sabem mesmo o que é ajudar
o povo. Vivem reclamando de impostos, de exploração, até falam em
intimidação e repressão, mas não querem ver que a Vila vive dias
cor de rosa, mais festeira como nunca, com um montão de gente empregada,
de bolso cheio. Até se dão ao luxo, uns pouquinhos, a gastar a grana
lá fora.
Alguns mesmo com casa e comida, só não conseguiram ainda roupa lavada.
Fazem uns passeios grandes numas praias de fora. Vidão que só esse
governo dá com tudo pago de beber e de comer, inda sobra até para
gozar nas terras vizinhas e pagar rodada em cada bar para mostrar
as belezas da Vila.
O prefeitinho também não fica atrás em se mexer. De tanto gostar
do povão, até se aventurou por muito tempo em fazer vigília no hospital.
Acompanhou muito doente, empurrou muita cadeira de roda, só faltou
mesmo, dizem alguns, dar banho nos pacientes de tanto que gostou
de cuidar daquela gente doente.
Depois de um passeio desses até voltei mais feliz. Pobre na Vila
agora tem vida. E que vidão! Agora só reclama mesmo quem não está
comendo na boquinha como essa gente tão precisada. Governo nenhum
nunca fez tanto pelos pobres, que agora uns poucos ainda até pensam
em pegar um carrinho. Afinal, são pobres de Deus e muito necessitados
dessa bondade do seu prefeito e dona moça, que ainda pretendem fazer
muito mais. Conforme o dinheirinho vai entrando daqueles emburrados,
reclamões, eles vão abrigando mais gente. Êta Vila feliz dos infernos.
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