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Era uma vez um barco
remendado, que um trapalhão bêbado e muito falador, com um marreco
como mascote, conseguiu colocar navegando num mar de esgoto. Encheu
o barco de amigos com as mais loucas fantasias. Brincavam de ser
médicos, engenheiros, artistas, farmacêuticos, jornalistas, advogados
e até professores. Houve quem mesmo botasse Bíblia debaixo do braço
para ver se evangelizava algum incauto pela viagem, pois de hereges,
todos sabem, o mundo está cheio, sempre dando um lucrinho extra.
Nem esqueceu o saquinho com 30 moedas velhas como talismã. E saíram
por aí.
O pirata-mor, made in Paraguai, tomava muitas e com uma espada de
pau fazia a todos obedecerem, pois todo dia, de quatro, levavam
sorrindo uma espadada na bund*. E enquanto a nau velejava aos trancos
e barrancos por entre a bosta, corriam soltas a festa e a bebida.
O navio era um bacanal dos diabos sem lei e sem dinheiro. Ninguém
se entendia, mas tinham um bom estoque de rum.
Profetizava o tal pirata, com a fanfarronice dos bêbados, que iriam
encontrar tesouros, pilhar muita cidade, ganhar ouro a rodo. Os
olhos de todos cresceram. Se pensavam duques, marqueses, barões
de terras e escravos mil. Outros, com o idealismo dos tresloucados,
se imaginavam em palanques conclamando a liberdade para enganar
pobres miseráveis e deles tirar dinheiro como outros já fazem sem
entrar em canoa furada.
Mas o barco mal andava naquele fedor de mar. O mau cheiro já azucrinava
o nariz de uns poucos, que a farra já não satisfazia. E um deles,
mandado para ver que tesouros haveria no porão, encontrou por lá
ratazanas tamanhas nadando. Famintas, roeram os fundos do barco
e a água se fez como há muito no mundo se fez a luz. Seria rápido
o desastre e, recuperados da bebedeira, muitos preferiam cair fora.
Como da merd* tinham nascido, não queriam nela se afogar. E a grita
começou do salve-se quem puder.
Para onde foi o barco, ninguém sabe. Do pirata bêbado e palhação,
quem saberá? Do mascote marreco, nem se fala. Só temos confirmado
que as ratazanas sobreviveram, pois no esgoto crescem e se multiplicam.
Mas para onde foram não se sabe. Quem desejar um final, escreva
o que a carapuça lhe couber.
Para os que aqui viram apenas uma fábula, não desejem uma moral.
Esta é apenas a história sem pé nem cabeça de como um palhaço fanfarrão
levou os idiotas para brincar na bosta. Choram os arrependidos que
ficaram fora do barco e os enganados pela cegonha.
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