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Pólo
naval ameaça riqueza socioambiental de Jaconé
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Grandes construtoras
ameaçam degradar boa parte da riqueza socioambiental de Jaconé com
a construção de um gigantesco pólo naval. As mesmas estão sendo atraídas
para Maricá, entre outras razões, devido a um suposto menor rigor
no licenciamento ambiental fluminense em relação ao baiano.
Por: Cássio Garcez* |
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Como se já não
bastassem as tentativas de ocupação da Área de Proteção Ambiental
(APA) de Maricá com um megaempreendimento imobiliário, o superaquecimento
da especulação imobiliária neste município pressionando suas
áreas preservadas - devido, sobretudo, à instalação do Complexo
Petroquímico de Itaboraí (Comperj) no município vizinho - e
os iminentes impactos deste complexo em águas maricaenses [1],
surge mais uma potencial e poderosa agressão ambiental: a construção
do Pólo Naval, em Jaconé.
Riqueza socioambiental X interesses econômicos Local
de grande importância pré-histórica, histórica, ambiental, social
e cultural, Jaconé é um distrito que se divide entre Maricá
e Saquarema, municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro,
cujas vocações econômicas eram eminentemente rurais e turísticas,
pelo menos até bem pouco tempo. A área onde será construído
o pólo está situada dentro dos limites de Maricá.
A ideia dos empresários, industriais e políticos envolvidos
no projeto é transformar uma área de aproximadamente cinco milhões
de m² num gigantesco pólo naval, a ser erguido nos próximos
anos segundo a imprensa [2]. Assim, com esta obra, já é considerada
certa a destruição de ecossistemas de restinga e de parte da
bela Praia de Jaconé, além da descaracterização da paisagem
de pontão rochoso contíguo ao local e também a poluição e a
alteração de águas marinhas fundamentais à manutenção da biodiversidade,
da pesca e do turismo. |
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Foto
da Praia das Conchas, em primeiro plano, e Praia de Jaconé, ao fundo.
Nesta última será construído o pólo naval de Maricá.
Fonte: coleção do próprio autor, 2008.
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Baianos arretados,
fluminenses prejudicados
O curioso nessa história, é que justamente um dos motivos para
a implantação do pólo em Maricá está num suposto menor rigor do licenciamento
ambiental do governo do Estado. Pelo menos é isso o que dá a entender
o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio
e Petróleo, Aleksander Santos, em sua afirmação de que "Problemas
na concessão de licenças ambientais na Bahia poderão beneficiar o
estaleiro que será instalado em Jaconé" [3].
Os problemas a que se refere Santos dizem respeito às dificuldades
na liberação de licenças ambientais de outro pólo naval, no Recôncavo
Baiano, do Consórcio Setal/OAS. Este consórcio teria, assim, demonstrado
interesse em trazer o complexo para Maricá, numa alusão de que aqui
as coisas poderiam ser ambientalmente mais "fáceis".
Faraônicas, autofágicas e anacrônicas
Além do estaleiro, segundo notícias [4], o empreendimento também terá
um porto, empresas de logística offshore e de construção naval. O
investimento total é estimado em R$ 1 bilhão e já há articulação política
para a busca de incentivos fiscais. Há ainda a previsão de construção
de uma ferrovia ligando o porto de Maricá a Itaboraí para escoamento
do minério de ferro para o Comperj e a implantação de um pólo tecnológico
aeronáutico não muito distante do pólo naval [2].
Não foram encontradas referências quanto à mitigação ou compensação
dos impactos socioambientais que serão ocasionados com tais obras
faraônicas e suas operações. Mas, nunca é demais lembrar que, por
mais competentes que venham a ser estas iniciativas obrigatórias,
elas jamais substituirão ou compensarão adequadamente o que será degradado
ou perdido em termos de riqueza ecológica, integridade da paisagem
natural, serviços ambientais e modo de vida dos moradores.
Trocando em miúdos, dirigentes empresariais e políticos parecem querer
transformar Maricá num ícone do desenvolvimento econômico autofágico
e antiecológico. Ou seja, por um lado receber megainvestimentos, crescer
extraordinariamente e criar milhares de empregos, mas, por outro,
negligenciar o respeito e a proteção às comunidades locais e aos ecossistemas
remanescentes - incluindo seus sistemas de manutenção da vida e da
qualidade de vida humanas.
Tudo isso por conta da continuidade de uma tríade ainda paradigmática
e hegemônica no atual modelo de desenvolvimento: (1) falta de visão
de longo prazo, (2) concepção ultrapassada de "progresso" baseada
na doutrina do desenvolvimentismo e (3) priorização do uso (e abuso)
dos combustíveis fósseis em detrimento de outras matrizes energéticas
mais limpas. Mas, o mais grave, é que esse direcionamento anacrônico
se fortalece em plena era do despertar da humanidade para os desafios
globais das mudanças climáticas e de outros graves e urgentes problemas
socioambientais (vide o populismo em torno do pré-sal).
A questão é: será que a sociedade, em especial o cidadão maricaense,
terá a coragem, o tempo e a força suficientes para se posicionar e
tentar recusar mais esse presente de grego? Talvez as futuras gerações,
mais do que ninguém, esperam que a resposta seja um sonoro sim...
*Coordenador do grupo Ecoando - Ecologia & Caminhadas, guia ecológico,
mestre em Ciência Ambiental (PGCA-UFF), Planejador Ambiental (PGPA-UFF)
e membro do Conselho Consultivo do Parque Estadual da Serra da Tiririca.
Referências:
[1] NICOMEX. Comperj pode ter emissário submarino. Nicomex Notícias
/ Rápidas: Rio de Janeiro: 30/9/2009. Disponível em: http://www.nicomex.com.br/NN_Web/NNBuscaWeb/BuscaNN_P_2.asp.
Acesso em: 20/10/2009.
[2] PELLEGRINO, Rosely. Estaleiro à vista: grupo coreano visita Maricá.
Noticiário RJ On-line, Rio de Janeiro: 25/6/2009. Disponível em: http://roselypellegrino.wordpress.com/2009/06/25/estaleiro-vista-grupo-coreano-do-setor-naval-visita-maric/.
Acesso em: 20/10/2009.
[3] LIMA, Bruno. Pólo naval de Maricá tem mais propostas de investimentos.
Nicomex notícias / Indústria Naval, Rio de Janeiro: 27/7/2009. Disponível
em: http://www.nicomexnoticias.com.br/exibe_conteudo.asp?cod_conteudo=6913&codigo_menu=2.
Acesso em: 20/10/2009.
[4] CARVALHO, Anderson. Construção de pólo naval em Marica é debatida
entre parlamentares. O Fluminense On-line, Niterói, 9/10/2009. Disponível
em: http://www.ofluminense.com.br/noticias/241684.asp?pstrlink=2,5,0,241684.
Acesso em: 20/10/2009. |
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