Nesta
terra, muitos são os homens com rabo de ponta em saca-rolha para melhor
se prenderem uns aos outros. Com os rabos presos, vivem saracoteando
de um lado ao outro, comendo de mão aqui, uma papinha ali, sempre
cacarejando, mas nunca fazem força para colocar um mísero ovinho.
Quando se desprendem de um rabo, é um ai Jesus. Saem então ganindo,
puxando a cachorrinha, atrás de outro rabo para se prenderem. A vida
deles é se cercar daqueles que só cacarejam, invejosos do apêndice
nobre.
Os cacarejadores alardeiam ao mundo que vale na vida ter rabo. Não
é à toa que se esfregam constantemente para ver se também surja neles
nem que seja um rabinho de camundongo. Chegam uns a se besuntar de
visgo para, no esfrega-esfrega, garantir uma coladinha. Outros, a
cavalo, nos muros - dizem que assim cresce o rabo -, se passam melhor
por rabudos, pois quem olha para eles pensa que do outro lado do muro
está enorme rabo.
O exército desses seres estranhos cresce muito, porque ter rabo virou
sinônimo de nobreza (falida, é bem verdade), que desfilam com pompa,
arrastando presos a eles sempre um pequeno batalhão. E quanto maior
o número de rabos que arrasta, maior é a tal nobreza. Sem contar que
junto a eles, se esfregam aqueles que já cacarejam em altos decibéis
por uma migalhinha de atenção dos rabudos, mesmo que sejam os de baixo
escalão.
Mas a terra não é dos rabudos, mas de uma gente conhecida como plebeus,
os únicos que trabalham e estudam na terra. Fazem de tudo, suando
dia e noite, para conseguir uma grãozinho de comida, porque os homens
de rabo são vorazes e comem demais, cobram caro seu azucrinante cacarejo.
Quando os plebeus reclamam, são cercados pela malta e mais um punhado
de desrrabados, que esperam ter também um dia rabo próprio. E assim
a terra vai sendo dominada pelo cacarejo e a briga dos rabudos - alguns
tão grandes como tiranossauros de tanto rabo preso.
Só que os plebeus não são asnos - apenas parecem burros para sobreviverem
- e se perguntam: "Se todos forem rabudos, quem vai trabalhar?" Os
rabudos, dedicados a pensar em seus rabos, nunca pensaram nisso, sequer
ainda levantaram a questão os cacarejantes desrrabados.
Os tais plebeus descobriram que, na Terra dos Rabudos, a solução é
cortar de vez os rabos nobres para tudo ficar igualzinho e arrancar
a língua dos que cacarejam. E não mais os rabudos e seus invejosos
amigos viverão a cacarejar nos ouvidos de quem trabalha.
Moral: Agora, que cada um trate de arrancar o maior número de rabos
que puder. E assim a Terra poderá novamente abrigar a humanidade,
e não mais haverá plebeus. |