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É de arrepiar os poucos
cabelos e dar frio na coluna, quando se vê que o velho chavão da
crítica construtiva está à solta nas folhas. Como ainda acreditam
em fantasmas carnavalescos como "interesses de Estado", "forças
ocultas", "pressão econômica", "razões políticas", para defender
amizades antigas ou esconder posições, saem por aí com as mais estapafúrdias
desculpas para seu posicionamento. São os resquícios de uma ditadura,
entranhada, que os críticos construtivos ainda exibem com a roupagem
de antiquados Clóvis a bater bola e assustar criancinhas.
O que os tais escribas esquecem (por interesse próprio?) que a crítica
não pode ser adjetivada. Quando criticam fulano ou beltrano, tascam
o pau com a maior liberalidade. Usam e abusam da liberdade horizontal,
porque para eles a liberdade não deve existir de baixo para cima.
É falta de respeito em sua reverência ao poder, que beira a santidade.
Quando as críticas mostram a verdade das ruas e são apresentadas
por todo lado, os tais escribas alegam que os outros são panfletários.
Apenas se esquecem que o governo é mais panfletário, sujando a cidade
com folhetos e até "jornal" exclusivamente dedicados a exaltar as
futuras realizações pagos pelo Erário. Quem critica trabalha, paga
impostos e ganha o pão de cada dia com o próprio suor; não usa nunca
o dinheiro dos outros para exercer sua liberdade de opinião.
Para esses senhores e senhoras, tudo pode o governo, porque é sagrado,
mas quem trabalha e paga impostos deve ter o único direito de se
calar. Repete-se aqui o que já se viu há muitos anos no país: cala-te
povo. Deu no que deu com seus filhotes hoje travestidos de esquerdistas.
A crítica construtiva que defendem é um cala boca ao direito do
cidadão de opinar, de criticar - direito universal do homem.
Sob um governo que está mais para o circo dos Césares e a proliferação
de estádio de futebol da ditadura, assim distante da Revolução de
1919 que levou a cultura ao povo, entre operários, e nas praças,
quando até mesmo seus cartazes de propaganda continham arte, voltaremos
a nos calar? Qual a liberdade que se tem quando a crítica é contida,
amortalhada, censurada? E como esconder o que está nas ruas, estampada
nas faixas, nos folders, publicada nos jornal oficial: intimidação
e estrepolias, gastos exorbitantes, nomeações inumeráveis? Com óculos
de visão cor-de-rosa?
Vamos todos comentar a bela vestimenta do rei em pedrarias, quando
o rei desfila nu?
A atitude dos defensores da crítica de meia tigela é uma clara defesa
de que se precisa calar a voz livre. Como só mostram a cara quando
estão protegidos, não sabem o que é liberdade. Sabem dela os que
viveram sob mortalhas, ameaças, refugiados sob pseudônimos, correndo
riscos, para defender um direito até mesmo daqueles próprios críticos
falarem como falam. Mas eles pouco ligam a que exista uma liberdade
de todos e para todos. Preferem a liberdade concedida e abençoada
pelo poder dos amigos, quando podem dizer suas baboseiras sem nenhum
arranhão.
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