18/08/2009

A BALELA DA CRÍTICA CONSTRUTIVA

........ Luiz Gadelha # lgadelha@leitoreselivros.com.br

É de arrepiar os poucos cabelos e dar frio na coluna, quando se vê que o velho chavão da crítica construtiva está à solta nas folhas. Como ainda acreditam em fantasmas carnavalescos como "interesses de Estado", "forças ocultas", "pressão econômica", "razões políticas", para defender amizades antigas ou esconder posições, saem por aí com as mais estapafúrdias desculpas para seu posicionamento. São os resquícios de uma ditadura, entranhada, que os críticos construtivos ainda exibem com a roupagem de antiquados Clóvis a bater bola e assustar criancinhas.
O que os tais escribas esquecem (por interesse próprio?) que a crítica não pode ser adjetivada. Quando criticam fulano ou beltrano, tascam o pau com a maior liberalidade. Usam e abusam da liberdade horizontal, porque para eles a liberdade não deve existir de baixo para cima. É falta de respeito em sua reverência ao poder, que beira a santidade.
Quando as críticas mostram a verdade das ruas e são apresentadas por todo lado, os tais escribas alegam que os outros são panfletários. Apenas se esquecem que o governo é mais panfletário, sujando a cidade com folhetos e até "jornal" exclusivamente dedicados a exaltar as futuras realizações pagos pelo Erário. Quem critica trabalha, paga impostos e ganha o pão de cada dia com o próprio suor; não usa nunca o dinheiro dos outros para exercer sua liberdade de opinião.
Para esses senhores e senhoras, tudo pode o governo, porque é sagrado, mas quem trabalha e paga impostos deve ter o único direito de se calar. Repete-se aqui o que já se viu há muitos anos no país: cala-te povo. Deu no que deu com seus filhotes hoje travestidos de esquerdistas. A crítica construtiva que defendem é um cala boca ao direito do cidadão de opinar, de criticar - direito universal do homem.
Sob um governo que está mais para o circo dos Césares e a proliferação de estádio de futebol da ditadura, assim distante da Revolução de 1919 que levou a cultura ao povo, entre operários, e nas praças, quando até mesmo seus cartazes de propaganda continham arte, voltaremos a nos calar? Qual a liberdade que se tem quando a crítica é contida, amortalhada, censurada? E como esconder o que está nas ruas, estampada nas faixas, nos folders, publicada nos jornal oficial: intimidação e estrepolias, gastos exorbitantes, nomeações inumeráveis? Com óculos de visão cor-de-rosa?
Vamos todos comentar a bela vestimenta do rei em pedrarias, quando o rei desfila nu?
A atitude dos defensores da crítica de meia tigela é uma clara defesa de que se precisa calar a voz livre. Como só mostram a cara quando estão protegidos, não sabem o que é liberdade. Sabem dela os que viveram sob mortalhas, ameaças, refugiados sob pseudônimos, correndo riscos, para defender um direito até mesmo daqueles próprios críticos falarem como falam. Mas eles pouco ligam a que exista uma liberdade de todos e para todos. Preferem a liberdade concedida e abençoada pelo poder dos amigos, quando podem dizer suas baboseiras sem nenhum arranhão.