No
tempo em que os bichos falavam, certa vez a rataria tomou conta de
tudo. Os camundongos se faziam passar de seguranças e cobradores de
impostos, ficando os ratos na administração do mundo animal. No Conselho,
imperavam as ratazanas. Gordas, esbanjando poder, suando gordura de
porcarias, que o gênero adora esgoto, comandavam o império. Faziam
o que queriam de dentes arreganhados, assustando os passarinhos, cães
e gatos, e tudo quanto era animal de bom trato, educado e culto. Era
um mundo de fedentina. Não havia maneira de se reunir uma tropa de
outros animais, todos ameaçados pelas dentuças infectas da rataria.
Certo dia, um descuidado camundongo, que se prestava para tudo a fim
de não fazer nada e receber as sobras, resolveu bancar ratazana para
uma formiguinha-fogo. Resolveu logo pisar a bichinha, inofensiva,
que fazia o que milhões de gerações antes dela fizeram: trabalhar.
Não contava com o desprezo da formiguinha-fogo, pouco se lixando para
dentes ou ameaças. Tascou seu ferrão, mínimo é bem verdade, na pata
do insolente, que não queria deixá-la fazer seu trabalho. Foi o suficiente
para o camundongo metido a besta se dar conta de que com formiga não
se brinca, ainda mais quando está sempre a trabalhar.
Deu no que deu. A formiguinha, sem saber bem o que estava fazendo,
pôs a boca no trombone para as amigas. E a rataria não contava que
animais tão desprezíveis, porque trabalhavam, poderiam acabar com
seu poder. Só tremeram mesmo quando viram aquela multidão de formigas
avançar para suas pernas, não temer dentuças ou fedor, e morder mais
do que o fogo. As formigas foram mordendo e passando por cima de todos
os ratos. Quem pôde fugiu - alguns dizem que houve até rato voador
-, mas a maioria mesmo ficou massacrada, mordida, bem mordida, coberta
de formigas. Nunca mais houve outro império de ratos, ao menos naquele
tempo. |