29/12/2008

ALGUNS ANOS ATRÁS, UM DIA NA VIDA DE ZOFIA
In Memoriam
                Zofia tem mais de 80 anos, uma viúva polonesa que tem dificuldades em se expressar em português e que ainda traz tatuada no braço, a lembrança de um campo de concentração da 2ª guerra, local onde entre outros diariamente doava sangue para soldados. Vindo de uma origem abastada, já teve rendimentos pessoais que lhe possibilitavam bancar a proteção animal, mas os gastos nisso são muitos, e agora praticamente já não possui nenhum rendimento, pois poucos anos atrás após a morte do marido, um advogado conseguiu acabar com o que ela ainda possuía. Já teve com ela muito mais de 300 animais, e atualmente cuida de aproximadamente 200 cães e uns 30 gatos, todos animais que de algum modo foram descartados na sua casa por irresponsáveis inconsequentes, casa essa modesta e localizada num pequeno sítio, único bem imóvel que lhe restou, e que já se encontra em risco devido muitas dívidas de IPTU.
              Dorme no andar de cima de um beliche montado num canto da sala de sua casa, uma sala mobiliada com muitos bancos e mesas de plástico, que servem de cama para seus muitos animais. A cozinha, os dois quartos e até o banheiro servem de enfermaria para animais doentes, caixas d`água grande de fibra servem para guardar sacos e sacos de ração, mas tambem servem de panela diariamente nas épocas mais dificeis, quando sacos de ração barata são dissolvidos ali em muita água, e após sua dissolução, transformados numa sopa rala, que é jogada no chão numa área cimentada, para os animais se alimentar.
              Aos trancos e barrancos consegue sozinha alimentar e tratar desses animais todos, e apesar da humildade de todo o ambiente, a limpeza impera, e várias vezes por dia Zofia lava com uma mangueira a casa e o exterior. As vezes conta com algum empregado, empregados esses que em maioria absoluta acabam abandonando o serviço inesperadamente, e ainda carregando alguma coisa de "lembrança", ou deixando lembranças, como um casal de empregados que sumiu e abandonou aos cuidados dela os 3 filhos pequenos. O último empregado que arrumou, sumiu levando até o fogão e o colchão onde dormia, e Zofia agora está tentando conseguir alguma coisa para mobiliar novamente o quarto de empregado, ao mesmo tempo em que faz seus milagres para conseguir o alimento e remédio para seus animais.
              Graças à boa vontade de um dentista, conseguiu consertar seus dentes, e mesmo usando sempre as mesmas velhas roupas, nunca deixa de iluminar seu sorriso, passando um baton antes de atender alguém na porta. Brinca que mantém sua saúde nessa idade, graças aos muitos sacos de ração de quase 20kg, que diariamente manipula.
              Como a maioria dos protetores, não gosta que divulguem seu endereço, pois ninguém aparece para ajudar, e sim somente para furtivamente jogar por cima da cerca mais algum animal ali dentro, fato que lhe gera o desespero da descoberta acidental muito repetida, dos restos desse animal recém-chegado, destroçado pelos que já se encontram ali dentro. Todo final de mês é um desespero, o dinheiro há muito já acabou, acaba-se a ração, precisa-se remédios, e o número de animais sempre tendendo a aumentar. São os outros protetores, que tambem endividados e sobrecarregados de serviço, que colaboram para fazer frente às fases de maior desespero.
              Seu sonho é transformar em fundação sua casa, para que seus animais continuem sempre amparados, e no momento, para fazer frente momentaneamente as despesas, procura quem queira comprar o jazigo onde descansa seu marido, único bem que ainda lhe resta intacto e livre de dívidas.
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Novembro 2008 - Nem a enorme dificuldade de se movimentar lhe impedia de tratar dos animais. Uma semana depois dessa foto, Zofia teve um derrame e ficou 3 dias caida no chão, ate ser encontrada pelos bombeiros. Seus animais deitaram em volta dela e a mantiveram aquecida nos 3 dias. Um mês depois faleceu no hospital de Bacaxá.
2006 - A alegria no dia da inauguração da sede do Instituto Zofia
2004 - Desespero de todo dia: mais um cão encontrado abandonado amarrado em sua porta
Zofia Zuzanna Matysiak
Polônia,19/02/1924 # Bacaxá, 25/12/2008