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Muitos acham que sou
louco, mas a verdade é que os livros são, para mim, como pessoas.
Alguns são enfadonhos, outros, apaixonantes. Mas todos têm algo
a dizer.
Alguns deles têm mais a dizer do que aparentam. Estão impregnados
de sua própria história. Seja num rasgo, numa data escrita à mão
na primeira página, ou num trecho sublinhado, eles trazem marcas.
É por isso que sempre fui apaixonado por sebos. São lugares mágicos
que trazem, não só cultura e lazer, mas vida. Vidas que antes tiveram
o prazer de manusear o mesmo livro a que hoje tenho acesso.
Sempre tive a mania de observar certos detalhes nos livros antes
de comprá-Ios. Os meus preferidos são os com assinaturas, datas
ou dedicatórias. Essas, então, me levam para longe. É como uma história
paralela à do livro. Certa vez, no sebo de costume, encontrei algo
que me chamou a atenção. Tratava-se de uma edição antiga de Love
Story, de Eric Segal. Já havia lido esse livro e tinha, inclusive,
uma outra edição dele em casa, mas um pequeno detalhe me fez levar
aquele exemplar comigo.
Uma dedicatória. Dizia o seguinte:
" Joana: Sei que de nada adianta pedir que releve os meus erros,
mas ainda a amo. A história desse livro me fez lembrar de nós dois.
Você vai achar estranho quando chegar ao final. E estará certa,
pois nenhum de nós morreu, aparentemente. Mas é através desse livro
que venho lhe comunicar minha morte, pois fui eu quem morreu nessa
história. Morri no dia em que você me deixou e continuarei morrendo
a cada dia, até que a verdadeira morte me assalte. Seu amor era
o que me mantinha vivo e, sem ele, sou apenas um pobre defunto abandonado.Espero
que se lembre de mim toda vez que vir este livro e que chore a minha
morte quando puder." Lucas.
Não preciso nem dizer o quanto fiquei aturdido com aquela declaração.
Aquilo tomou conta de minha alma. Não se passava um só dia em que
eu não pensasse nesse casal.
Eu precisava conhecer a história deles, mas não tinha meios. Foi
por isso que comecei a inventar. Desenvolvi a imagem dos dois na
minha mente, imaginei como se conheceram, o que viveram juntos,
por que se separaram e o que aconteceu a eles depois daquela dedicatória.
Imaginei a feição de Joana ao ler aquelas palavras, uma mistura
de amor e mágoa. Tentei criar um final feliz, mas não consegui.
Eles não podiam ficar juntos; ele já estava morto desde o dia da
separação.
Tudo foi fluindo de uma forma mágica. Senti necessidade de registrar
minhas "descobertas". Criei um diário fictício para Joana, onde
ela teria escrito toda a história, mas não deu certo. Eu queria
mostrar a reação dela, vista por alguém de fora; vista por mim.
Passei adiante o amor dos dois. Quando percebi, tinha escrito um
livro.
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