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'Quando estou lá fora, não vou me preocupar com o Brasil '.
Essa foi uma das respostas de Benedita da Silva ao jornalista Leandro
Mazzini, em entrevista ao Jornal do Brasil, publicada em 26 de março
de 2006. Benedita não ocupava, então, nenhum cargo público, após
deixar o status ministerial na Secretaria Especial da Assistência
e Promoção Social sob acusações de uso indevido de dinheiro público
em viagens internacionais de cunho pessoal, e estava em disputa
interna no PT do Rio de Janeiro com Saturnino Braga pela candidatura
ao Senado Federal. No frigir dos ovos, nenhum dos dois ganhou o
apoio do partido, que acabou fechando coligação com Jandira Feghali
do PC do B e esta perdeu a eleição para Francisco Dornelles do PP'.
Apesar de não se preocupar com o Brasil quando está lá fora, a ex-ministra
e atual Secretária Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos
do Governo de Sérgio Cabral Filho, criou lá uma ONG com seu próprio
nome: a 'Benedita da Silva International Foundation'.
Assim como Narciso achava feio tudo que não era espelho, o nome
de sua Fundação não poderia ser outro. A Organização tem registros
estadual e federal e pode receber doações de unidades governamentais
e do público em geral e todas são dedutíveis. É presidida, desde
sua criação, por uma amiga de 'Bené', Wilma Leitão Krüger,
que também preside o Comitê das Cidades Irmãs Atlanta-Rio de Janeiro
e representa no Brasil a bem sucedida 8 Point Exports Inc. do Mias
Group, relativa à área de mineração. A propósito, Wilma Krüger é
pentecostal como Benedita e é irmã da jornalista e comentarista
de economia Miriam Leitão.
Benedita da Silva International Foundation fica no nº 201 da Martin
Luther King Jr. Street, na cidade de Atlanta, Estado da Georgia.
Prédio de três andares de propriedade da
Coca-Cola Company. É lá que também encontramos a sede da multinacional
de refrigerantes. Coincidência ou não, o espaço foi cedido à Fundação
logo após a então governadora Benedita da Silva anistiar uma dívida
de mais de R$ 460 milhões da Coca-Cola com o Tesouro do Estado do
Rio de Janeiro.
Há que se observar que o decreto de anistia
foi assinado por Benedita em 02 de abril de 2002, ou seja, dois
dias após assumir o cargo devido à desincompatibilização de
Anthony Garotinho, de quem era vice, para concorrer à Presidência
da República.
O 'perdão' de Benedita foi
lavrado com base em pareceres elaborados na gestão do antecessor.
No entanto, a Rio de Janeiro Refrescos, engarrafadora da Coca-Cola
na cidade, perdeu a questão na Justiça e deveria pagar a
conta. Indiferente a isso, Benedita da Silva anistiou a dívida milionária
da empresa. 'Abrindo as asas da lembrança', como dizia
um trecho do samba-enredo da Portela de 1985, se realizarmos uma
breve viagem pelas folhas de calendários passados, podemos observar
uma certa relação gasosa entre Benedita da Silva e a Coca-Cola,
muito antes de coabitarem um mesmo prédio nos EUA. Em 07 de janeiro
de 1998, a coluna Radar da revista Veja, então assinada por Ancelmo
Gois, noticiou que 'a senadora Benedita da Silva estava animada
e assistiu aos Jogos Olímpicos de Atlanta por conta da Coca-Cola'.
Um ano antes, em 1997, precisamente no dia 15 de maio, a então senadora
Benedita da Silva protocolou o Projeto de Lei do Senado de nº 00087/1997,
que regulamentaria e daria nova redação ao Artigo 17 da Lei 4.657
de 04 de setembro de 1942 (Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro).
Esse Artigo 17 delibera exatamente sobre os casos de não aplicação
de leis, atos ou sentenças de outros países no Brasil.
O processo foi arquivado pela Secretaria Geral da Mesa, em 1999.
Não tenho nada contra o 'sonho americano' dos outros, mas
alguém já ouviu falar em algum projeto realizado pela Benedita da
Silva International Foundation? Além de eventos para arrecadar fundos,
a própria Benedita afirmou na entrevista ao Jornal do Brasil que
foi ao Canadá pedir apoio e que o Fundo Social Canadense tem muito
dinheiro no Brasil. Será que a Fundação ainda não conseguiu nenhum
trocado para realizar algum projeto? Aliás,
será que o governador Sérgio Cabral Filho tem ciência da existência
dessa ONG internacional de sua Secretária de Assistência Social
e Direitos Humanos? Será que há 'conflitos de interesses'
em toda essa história?
O Governo do Estado do Rio de Janeiro está se tornando uma célula
da estrutura fisiológica do Governo Federal?
O governador Sérgio Cabral Filho corre
o risco de estar chacoalhando uma garrafa de Coca-Cola quente. Finge
que não vê o passado de Benedita, as constantes denúncias de irregularidades
na Fundação da Infância e do Adolescente, o loteamento de cargos
na SEASDH, a leniência em relação às ONG's e tantos outros fatos
nebulosos nas cercanias da Secretária. Quando essa 'tampa'
estourar, vai jorrar Coca-Cola para todos os lados. Resta-nos saber
quem vai se sujar mais.
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