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Imprensa Popular Fluminense
Ano 1 n. 2 , página 3.
Maricá, julho de 2008.
Entrevista
Em abril de 2007, em nota oficial, a prefeitura de Maricá anunciava
o retorno do prefeito Ricardo Queiroz de uma viagem a Portugal,
onde "teve a oportunidade de conhecer as instalações da sede em
Lisboa de uma das empresas empreendedoras do projeto de construção
de um resort em Maricá". A nota também dizia que a nova empresa
proprietária, o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento - IDB -
"Braço brasileiro do grupo, é o mais novo proprietário da área de
8 Km de praias na restinga de Maricá".
De lá para cá, vários acontecimentos surgiram envolvendo o empreendimento,
transformando-se em assunto polêmico para o município. De um lado,
parte da população e ambientalistas que sustentam que a restinga
não é área compatível com qualquer uso urbano e, de outro, parte
da população e poder público que defendem a implantação do empreendimento
pelo possível desenvolvimento que poderia trazer para Maricá, com
a geração de empregos e benefícios para a economia do município.
O JORNAL IMPRENSA POPULAR FLUMINENSE entrevistou Désirée Freire,
Mestre em Geografia pela UFF, professora da UERJ e membro do Movimento
Pró-restinga. Ela faz uma análise das características de crescimento
do município e esclarece sobre o que espera o Movimento para a preservação
da restinga.
Maricá, entre a metrópole e o turismo
Maricá, município com mais de 100.000 habitantes, experimenta um
ritmo de crescimento alto, o que demanda ações para que não aconteça
de forma desordenada. "Mesmo antes de projetos como o Complexo Petroquímico
do RJ, Maricá já vinha sentindo uma mudança na forma de utilização
da terra, de uso rural para a predominância de uso urbano, com mudanças
significativas já na década de 50 e depois nos anos 70 e 90" - esclarece
Désirée.
"Várias fazendas e sítios de Maricá foram transformados em grandes
loteamentos e, com isto houve uma intensa expansão do tecido urbano
que culmina, hoje, com mais de 100.000 lotes vagos. Estão aí para
atender uma migração de origem metropolitana, devido ao alto custo
de vida e manutenção naquelas áreas. Atualmente o município compre
uma dupla função no estado, abriga uma parcela da mão-de-obra metropolitana,
pois muitas pessoas que aqui residem trabalham em Niterói ou Rio
de Janeiro, e ainda, é um município de veraneio com suas residências
de uso ocasional, o que lhe dá uma característica turística que
pode ser explorada com hotelaria e com o turismo de negócios e ecológico
gerando empregos".
"Desenvolvimento sustentável para o município
é polêmico - depende de como é realizado "
Désirée declara que caminhos econômicos que tragam desenvolvimento
realmente sustentável para o município são bem-vindos: " Um caminho
que dê um 'perfil econômico' para o município é bom para nós. O
município precisa de empregos. O desenvolvimento econômico, tanto
industrial ligados aos processos de formação do Comperj, como aquele
atrelado ao turismo, é bem-vindo. O problema é como isto é feito,
pois temos muitos patrimônios como a pesca artesanal secular, pequenos
sitiantes, sítios arqueológicos, ecossistemas de restinga e mata
atlântica em excelente estado de preservação, unidades de conservação
da natureza, dunas, uma área de restinga preservada, praias e um
belíssimo sistema lagunar. Rio das Ostras, por exemplo, tem um parque
industrial voltado para o petróleo, unidades de conservação na natureza
devidamente preservadas e atividade turística. Uma coisa não exclui
a outra " - acrescenta.
O fato do centro urbano de Maricá estar retirado de um eixo rodoviário
principal, a RJ-106, atualmente, a BR-101, também deve ser considerado
quando se pensa na formação turística da Região dos Lagos. "A questão
é que Maricá ficou sempre à margem dos grandes processos. As 'pérolas'
da Região dos Lagos foram, numa época anterior, Araruama, depois
Cabo Frio e, depois, Saquarema. Maricá ficou sempre no meio do caminho
entre a metrópole e o turismo da região".
Por outro lado, o fato de Maricá ter ficado ausente neste processo
de desenvolvimento turístico do final do século ajudou a manter
patrimônios naturais preservados. "Temos ainda patrimônio natural
preservado: uma serra com mata atlântica, praias sem poluição, um
sistema lagunar importante, mesmo com todo o despejo de esgoto do
município, com quatro lagunas e produção pesqueira significativa;
e temos a nossa 'rainha' que é a restinga."
Para que Maricá, agora inserida em processos de desenvolvimento
como o Comperj, possa ter um desenvolvimento sustentável, fica óbvio
que o planejamento destes empreendimentos deve considerar a infra-estrutura
do município que, segundo Désirée, não é suficiente nem para a situação
atual: "Maricá não tem água potável nem para os habitantes; apenas
16% deles têm água tratada e 4% têm esgoto sanitário. O transporte
também é um problema sério. Concentra-se na locomoção para Rio e
Niterói e a passagem é caríssima. O sistema viário é precário, pois
as rodovias secundárias não têm qualidade, a maior parte não tem
pavimentação e iluminação pública. Não existe transporte para Itaboraí,
para o restante da Região dos Lagos, para o centro de São Gonçalo
nem mesmo Alcântara, que é um centro regional importante."
O valor da restinga
Um dos itens para a avaliação da sustentabilidade dos empreendimentos
é a preservação ambiental para o próprio homem. A restinga é reconhecidamente
um fator essencial para a sustentabilidade de Maricá.
"O valor da restinga, com sua extensão significativa, reside na
presença de um ecossistema costeiro importantíssimo, é a mais estudada
pela comunidade científica com centenas de trabalhos e teses, e
de um patrimônio cultural, histórico e pré-histórico que ainda não
foi completamente delimitado de Museu Histórico Nacional" - esclarece
Désirée. "No que se refere ao ecossistema, a restinga preserva toda
a área contra a erosão do mar aberto violento da região; e a margem
da restinga que fica para a lagoa é ecologicamente importantíssima,
pois abriga o berçário da lagoa com espécies vegetais, como o capim-lixo
que serve de alimento aos peixes. Além disto, abriga colônias de
pescadores, como a de Zacarias, que conta com aproximadamente duzentos
anos de existência". - acrescenta.
No que se refere a ações para proteção, "o governo do Estado, por
intermédio da FEEMA, transformou a área em Unidade de Conservação
sem indenizar o proprietário, da área chamada de Fazenda São Bento
da Lagoa, o que resultou numa unidade muito permissiva, uma APA.
O ideal seria instituir o Conselho Gestor Deliberativo, o Conselho
Municipal das Cidades e o Conselho Municipal de Meio Ambiente e
criar, com base numa ampla discussão com a sociedade e os demais
agentes envolvidos, um mosaico de unidades de conservação. Indicaria,
por exemplo, a instalação de uma Unidade de Conservação de uso mais
restritivo, preservando o ecossistema, a pré-história e a pesquisa
científica, e uma Reserva Extrativista englobando o sistema lagunar
que garantisse a pesca artesanal".
Resort
A expectativa de desenvolvimento da região, aliada ao seu potencial
turístico, atraiu interesses de grandes investidores, inclusive
de grupos estrangeiros com empresas no país. É o caso da IDB, um
consórcio luso-espanhol, com um projeto que prevê a criação de um
resort de grande dimensão na área da restinga, a Fazenda São Bento
da Lagoa, comprada do grupo Cintra. O projeto inclui marina para
1000 barcos, construções habitacionais e de hotelaria, e ilha artificial.
O Movimento Pró-Restinga, baseado em pesquisas de profissionais
de instituições conceituadas, como as universidades públicas UFRJ,
UFF, UERJ e UFRRJ (Rural), defende que o ecossistema da região da
restinga é incompatível com qualquer empreendimento de uso urbano,
mesmo os sustentáveis permitidos por uma APA. Désirée afirma que
"o tipo ideal de preservação seria um conjunto de reservas que permitam
a conservação e o extrativismo controlado, como é o caso da pesca.
Até em áreas um pouco devastadas, existem os sítios arqueológicos
com impedimentos legais. As dunas e o ecossistema são protegidos
por lei incondicionalmente. Ou seja, de acordo com a legislação,
não existe na restinga área compatível com a utilização para este
empreendimento".
"O Movimento Pró-Restinga acredita que Maricá merece receber vários
empreendimentos geradores de emprego que atuem com responsabilidade
social, ambiental e legal, pois possui vastas áreas devastadas à
espera de valorização urbana, assim, não precisam se implantar neste
grande patrimônio que é a Restinga de Maricá ou em qualquer local
que tenha o ecossistema preservado. O Brasil e o estado do Rio de
Janeiro possui uma importante legislação que regula as ações sobre
as comunidades tradicionais, o meio ambiente e os sítios arqueológicos
que deve ser respeitada por todos, sobretudo pelo governo." - concluiu.
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