03/06/2008
Recebido por mail de Flávia Valença
NA ROTA DO TURISMO INTERNACIONAL

RJ, 17/07/2007
Carta de Flávia Valença
Geógrafa e Analista Ambiental

               No Estado do Rio de Janeiro, processos de licenciamento estão em andamento nas localidades de Búzios (Praia de Tucuns), Cabo Frio (Reserva do Peró e APA do Pau Brasil¹) e Maricá (APA da Restinga) com vista à alocação de empreendimentos imobiliários de alto luxo. São as últimas áreas com remanescentes contínuos de restinga (e ecossistemas associados) do litoral do Estado do Rio de Janeiro. A privatização do meio ambiente, “bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida” (Constituição Federal, Título VIII – Da Ordem Social –, Capítulo VI – Do Meio Ambiente – Art. 225), para implantação de empreendimentos como resorts e condomínios (sob a concepção do modelo “clube- residência”), tem se mostrado uma tendência para atendimento de uma elite nacional e internacional, uma minoria no meio da multidão, parece ser esse o destino das Unidades de Conservação categorizadas como APA, entre outras.

               A rota do turismo internacional é a grande aposta atual das prefeituras da região “dos lagos”, para “sanar” seus problemas de desenvolvimento local. Mas essa atitude não se limita somente às regiões do Estado do Rio de Janeiro, estende-se pelo Brasil em diversas localidades, a exemplo do Estados do Espírito Santo, Bahia, e etc. Diversos são os municípios e seus sucessivos governos, incompetentes que, incapazes de dar conta de gerir o seu território, de dotá-lo com infra-estrutura básica a uma qualidade de vida citadina, têm adotado o discurso da sustentabilidade para resolver aquilo que não resolvem, apesar da arrecadação de nossos altos impostos, e passam a entregar a grupos internacionais as últimas áreas remanescentes de vegetação.

               Qual será de fato a efetiva preocupação dos governos municipais, estadual e seus órgãos “públicos” ambientais? Como mantém um discurso da necessidade de um desenvolvimento econômico, se efetivamente o social fica de lado? Cadê as políticas habitacionais, o efetivo investimento na educação e na saúde - que inclui primordialmente o saneamento básico e água potável para todos? A oferta de políticas sociais consistentes, que são obrigatórias do ESTADO (esfera federal, estadual, municipal), está contida nos argumentos em prol dos empreendimentos imobiliários, oferecidos como medida compensatória, concretizando uma espécie de “entreguismo” ambiental. Nossos velhos e novos governantes e representantes políticos (A exemplo do “ecolibertário” Carlos Minc) sacramentam, com essa atitude, nossa antiga história de submissão ao estrangeiro, aos seus modelos econômicos, aos seus discursos ambientais. Jogam fora, com isso, a capacidade de buscar resolver nossos problemas internamente, de colocá-los em debates nas universidades e escolas, e exercem uma falsa democracia, uma democracia “só para inglês ver”, desrespeitando comunidades, pescadores, pesquisadores e todos os demais trabalhadores desse país ou qualquer movimento que atravessar o caminho do interesse econômico (vide o caso Chico Mendes, ou da irmã Dorothy Stang, e tantos outros que servem de exemplo de como funciona a nossa democracia na prática).

               De que vale em nível internacional se discutir o aquecimento global e a emissão de CO2 em Bali, se em âmbito nacional as práticas são escusas. Por exemplo, no Estado do Rio de Janeiro, duvidoso é o papel dos órgãos ambientais (a FEEMA, CECA, IEF e SERLA) que “passaram o rodo” em toda a comunidade maricaense e na vila de Zacarias- comunidade tradicional de pescadores que vivem na restinga há mais de 200 anos. Não chamaram ninguém para participar da elaboração do plano de manejo, e realizam, “às portas fechadas”, um plano que fragmentará todo um sistema (praias, dunas, lagoas) que demorou cerca de 16.000 anos para se constituir. Além de ser uma atitude ilegal, pois o decreto só deveria ser aprovado por uma audiência pública, que legitime a efetiva participação democrática de todas as partes interessadas, e essa não existiu. Eu diria que isso é imoral e antiético.Uma promiscuidade a atitude de correr com uma decisão tão importante que definirá o destino de espécies, somente para atender ao capital internacional e às construtoras e gestoras nacionais, além dos vereadores e demais políticos que já estão comprometidos com essa venda.

               Recorro ao escritor PAULO MENDES CAMPOS ao sugerir: se gosta de gato, experimenta o ponto de vista do rato². Qual será de fato a perspectiva de espécies ameaçadas de extinção? E as endêmicas, aquelas que só existem aqui e em nenhum outro lugar no mundo? Sem contar a comunidade residente, que se desenvolveu ao longo dos anos com um manejo artesanal, efetuando uma atividade conjugada aos ciclos de um sistema lagunar. Essa atitude de não se pesar as coisas de maneira profunda, soa sobretudo leviana do ponto de vista da continuidade da nossa espécie. Devemos nos questionar para onde o sistema econômico capitalista está nos levando, e a quem de fato atenderão as regulações territoriais como as tais Unidades de Conservação de Uso Sustentável.

               O desenvolvimento Sustentável termo criado na década de 70 muda que realidade em termos ambientais? A quem ou o que de fato ele sustenta? Ou como questiona mais profundamente o estudioso ACSELRAD “se o mundo e seu recursos são finitos, quais são os fins para os quais nós deles nos apropriamos? Para produzir tanques e arados? Para fabricar armas mortíferas ou para produzir alimentos para quem tem fome? Ou poderíamos dizer no caso brasileiro, para exportar pasta de celulose e grãos para equilibrar as contas externas e cumprir os compromissos com os credores internacionais do país ou para viabilizar a agricultura familiar?”³ . E eu acrescentaria: irá sustentar quais contas bancárias?

               Arrisco dizer que o blábláblá do Desenvolvimento Sustentável abre uma oportunidade para a continuação da espoliação da natureza e destruição da biodiversidade em nome de uma pequena diversidade de meia dúzia de bolsos, e nada mais. Isso é continuidade do que já está aí, a se desenvolver aqui em no mínimo 507 anos. E mais, conceitos como conservação, manejo, plano de manejo, zoneamento etc, desconsideram incertezas científicas e o ponto de vista do desconhecimento das espécies, mas legitimam ações sobre a natureza calcadas na suposição de um uso racional.

               Para que acordos globais, se aqui na nossa casa os discursos só servem para disfarçar interesses escusos dos políticos comprometidos com contas bancárias?

               Gostaria de perguntar ao biólogo (Marcos Moscatelli, que se pronuncia a favor do empreendimento na APA do Pau Brasil), geógrafos (João Baptista, que se pronúncia a favor de uma avaliação crítica do P.M da APA de Maricá que insere uma previsão de 123.283 pessoas para a área, quantidade maior do que a população total hoje no município de Maricá), ao prefeito Ricardo Queiroz, se poderia, alguém, arrancar a perna de um homem, mas em compensação, dar a este uma cadeira de rodas supersônica com ar-condicionado local, etc..................................... A perda da perna perderia sim o seu valor?


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1- “ um complexo de resorts, campo de golfe e condomínio residencial (...) erguido em quatro quilômetros quadrados (...)”. Jornal O Globo, Domingo, 20 de maio de 2007. Reportagem: “ Uma nova espécie dos campos do Brasil” p. 18

2 - http://www.geocities.com/rcultural/cronicas/Campos/paramaria.html

3 - Conflitos ambientais no Brasil / Org. Henri Acselrad- Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Heinrich Bol, 2004