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Entrevista com Werther
Holzer.
Escrito por Edson Cherem 14-Set-2007
Que conseqüências
para o Meio Ambiente pode causar o empreendimento que um grupo de
empresários espanhóis pretende instalar na Restinga de Maricá? Para
responder esta e outras perguntas, o jornalista Edson Cherem entrevistou
o doutor em Geografia (Humana) pela Universidade de São Paulo (USP)
e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Werther Holzer.
-Qual a sua maior preocupação diante da possibilidade de os espanhóis
construírem em Maricá um complexo hoteleiro e de lazer semelhante
ao Costa do Sauípe, da Bahia?
A primeira preocupação é a do segredo, em um empreendimento que,
se vai beneficiar o município, deveria ser levado ao conhecimento
público, em todos os detalhes. Do modo como vem sendo apresentado
até agora gera suposições e rumores, vou pautar minha análise no
que foi veiculado pelo jornal O Globo.
Independentemente do empreendimento se implantar em uma APA, onde
o controle das atividades deve restringir qualquer impacto ambiental,
verificamos que neste caso se trata de uma implantação urbana que
provocará imensos impactos ambientais e, principalmente, sociais.
Pelo que vemos nas imagens veiculadas pelo O Globo, este empreendimento
não se trata de um complexo hoteleiro, é um loteamento de grande
porte, com um número bastante grande de lâminas verticais e uma
área enorme ocupada extensivamente por residências unifamiliares,
além da marina para 1000 embarcações, ou seja, em um município que
tem um estoque entre 100.000 e 150.000 lotes vagos se promoverá
desnecessariamente o loteamento da única área livre de restinga
disponível. Este empreendimento não é semelhante ao da Costa do
Sauípe, é muito mais ambicioso e terá um impacto muito maior.
-Pessoas que hoje são favoráveis ao empreendimento, têm a expectativa
de uma significativa geração de empregos e esperam ainda que a Lagoa
de Maricá seja finalmente dragada e despoluída o que favoreceria
a todos os freqüentadores da Cidade, e, em particular, moradores
de condomínios que têm acesso para a lagoa. Que análise o Sr. faria
desses aspectos?
Evidentemente haverá uma significativa geração de empregos durante
a implantação do empreendimento, com prazo desconhecido por nós.
Quando concluído o município terá condições de absorver a mão-de-obra
empregada? Provavelmente não, o impacto poderá, e deverá, ser direto:
favelização de grandes áreas do município.
Quanto à dragagem das lagoas; este é com certeza o impacto mais
sério do projeto, e neste caso não se trata de suposição, pois se
a Marina projetada for implantada todo o sistema lagunar terá que
ser dragado. Como a profundidade média deste sistema hoje, segundo
dados de cartas batimétricas não deve passar de algo entorno dos
60 cm, os impactos são previsíveis: salinização, desestabilização
de margens, diminuição significativa do espelho d'água e, inclusive,
a possibilidade da desestabilização da faixa arenosa da restinga.
Com o aumento do nível do mar previsto pelos cientistas da ONU esta
faixa pode até acabar e, este tipo de empreendimento, pode potencializar
em muito as consequências deste impacto ambiental global.
-Na Restinga de Maricá é comum encontrarmos animais mortos ali depositados,
entulhos de obras, carcaças de veículos roubados, despachos -que
em muitas ocasiões causam a queima da vegetação nativa (arbustos,
bromélias e orquídeas)- e todo tipo de depredação ao ecossistema.
Qual a melhor alternativa levando em conta que o Poder Público abandonou
aquela região à sua própria sorte e a sociedade organizada nunca
atingiu seus objetivos?
Na minha opinião, que já venho externando há vários anos, a área
da APA deve ser transformada em Parque Estadual de Restinga. Esta
área é importante para o município, que teve seu litoral parcelado
segundo um modelo que não se preocupava em disponibilizar áreas
verdes públicas. Além disso existe a possibilidade concreta de se
ligar, por meio de corredores ecológicos, esta área com o Parque
Estadual da Serra da Tiririca, como comprovam simulações feitas
por meus alunos. Esta alternativa seria muito interessante em termos
ambientais, pois o Parque da Serra da Tiririca hoje carece da interface
mata atlântica/restinga.
-Há quem defenda a cessão daquele espaço à iniciativa privada com
regras claras sobre a ocupação da área de reserva ambiental, discutidas
previamente por um Conselho Ambiental, com a participação de vários
segmentos da sociedade local. Qual a sua avaliação sobre esta proposta?
Não creio que esta alternativa seja adequada. RPPNs (reservas particulares
do patrimônio natural), pela legislação, não necessitam implantar
conselhos. Os exemplos de constituição de Conselhos para administrar
áreas de proteção ambiental no Rio de Janeiro não são muito bons.
Na Tiririca tenta se formar um conselho há anos sem sucesso. Apesar
destes insucessos a implantação de conselhos gestores deveria ser
uma premissa tanto em unidades de conservação, quanto na gestão
do solo urbano em geral, como aliás já prevê o Estatuto da Cidade.
Em Maricá esta prática poderia se iniciar pela implantação do Conselho
da Cidade, que deveria acompanhar a gestão do Plano Diretor Municipal
aprovado ano passado. Se este Conselho estivesse implantado, o que
me parece uma exigência legal, teríamos um foro legítimo e adequado
para discutirmos a implantação deste suposto resort em nosso município.Obrigado
pela oportunidade de falar sobre o assunto.
O nosso entrevistado mora em Maricá, onde já lecionou em um Curso
de Pós-Graduação em Meio Ambiente e hoje é professor adjunto IV
da Universidade Federal Fluminense e atua principalmente nos seguintes
temas: Geografia Humana, Geografia Histórica, Geografia - Fenomenologia,
Geografia - Paisagem, Geografia Lugar e Geografia - Viajantes.
O professor Werther Holzer realiza também pesquisa sobre a urbanização
dispersa na Região dos Lagos.
Participe enviando críticas e sugestões de pauta para: edsoncherem@gmail.com
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Edson Cherem é jornalista, orquidófilo e colaborador do Greenpeace
e da WWF-Brasil (Esta matéria foi reproduzida do Jornal O Rebate)
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