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Pescadores e moradores de Zacarias,
comunidade de Maricá, porta de entrada da Região dos Lagos, no litoral
norte do Estado do Rio, decidiram iniciar uma campanha nacional
contra a destruição da restinga local, ameaçada por projeto de um
grupo hoteleiro luso-espanhol que prevê a construção de um resort
na área.
Reunidos, no dia 21 de julho, na
Associação Comunitária de Cultura e Lazer dos Pescadores de Zacarias
(Aclapes), com apoio do Sindsprev Comunitário, eles decidiram que
a campanha terá abaixo-assinado, denúncia ao Ministério Público
Federal e atos contra a ‘privatização’ da restinga, que é uma Área
de Proteção Ambiental (APA).
Os moradores temem a degradação ambiental
dos 8 milhões de metros quadrados da área e a expulsão das cerca
de 140 famílias que vivem no local.
Vídeos vendem projeto na Europa
Logo após o presidente da Aclapes,
Vilson Francisco Correia, abrir a assembléia, explicando que o movimento
que está sendo construído não tem conotações político-partidárias
– “Aqui não tem candidato a nada, candidato aqui é salvar a restinga”
–, foram exibidos dois vídeos ligados à questão: o primeiro, uma
peça publicitária do grupo empresarial, direcionada ao mercado de
Portugal, ‘vendendo’ o projeto residencial; o segundo, contando
a história de resistência em uma comunidade de agricultores familiares
da Espanha que acabaram expulsos de suas casas por um projeto empresarial
espanhol.
Chamou a atenção no vídeo que ‘vende’
o resort à beira da lagoa a ausência de quaisquer referências à
própria restinga e aos moradores nativos. “Vocês viram que eles
vão construir duas ilhas e que essas ilhas vão servir para jogar
golfe?”, perguntou Maria da Conceição Marques Porto, diretora do
Sindsprev-RJ e moradora de Maricá, ao constatar a ausência das casas
dos pescadores nas imagens exibidas.
Ela criticou os critérios de preservação
da natureza que possam vir a ser assumidos pelo grupo hoteleiro.
“Eles chamam de preservar a natureza colocar coqueiros e tucanos”,
disse, referindo-se a uma das características marcantes do vídeo.
“A maior parte da área que eles chamam de turismo vai ser loteada”,
denunciou Conceição. “O que podemos perceber é que o capital, o
poder público, os capitalistas, os grandes empresários, o setor
pesqueiro não estão preocupados em manter as famílias tradicionais
de pescadores”, afirmou. A diretora do Sindsprev-RJ propôs a organização
de uma ampla campanha contra o projeto e em defesa da revitalização
da lagoa.
Entidades apóiam movimento
Dirigente da Apalma (Associação de
Preservação Ambiental das Lagunas de Marica), Flavia Lanari também
defendeu a ampliação da luta em defesa da restinga. ”A luta de Zacarias
não é só dos pescadores, ela é de todo mundo, a restinga é de todo
mundo”, disse durante a assembléia.
O presidente da Câmara Comunitária
de Maricá, Heitor Luiz Menezes, declarou apoio ao movimento em defesa
da restinga e destacou a importância da revitalização da lagoa.
“Se não melhorarmos nossas águas não vamos ter peixe para nossos
pescadores”, disse. Ele é dirigente da Associação dos Moradores
de Ponta Negra e participa do Movimento dos Sem Peixe.
Os pescadores e moradores de Zacarias
também receberam o apoio da Associação Livre dos Aqüicultores das
águas de São João da Barra. Luiz Carlos Maciel, diretor da associação,
afirmou que os pescadores precisam se organizar de forma autônoma.
“Não tem que vir o Ibama para dizer o que vamos fazer”, disse. Também
ressaltou que essa luta tem que passar pela associação enquanto
a sede da colônia de pescadores não for transferida de Itaipu, em
Niterói, onde se encontra, para Maricá. A transferência da colônia
é uma das reivindicações dos pescadores.
Área é disputada por empresários
há décadas
A ameaça sobre a restinga e a população
que ali vive é antiga. A dirigente da Associação de Zacarias Arceni
Marins, com 50 anos nascidos e vividos ali, lembra que quando criança
os pescadores já eram perseguidos e ameaçados por um empresário
que se dizia dono da região.
Após tantos anos vivendo no local,
ela tem dificuldade para digerir o que está acontecendo. “Você não
acredita que eles vão fazer isso, tirar os pescadores da beira da
lagoa”, disse à reportagem do Jornal do Sindsprev. “O meu marido
é pescador, eu sou pescadora, não temos outra sobrevivência”, relata.
Também casada com pescador e nascida
em Zacarias, Sueli José comparou o que está acontecendo ao retorno
de um pesadelo. Filha e irmã de pescadores, até hoje não esquece
os tiros que por pouco não acertaram seu pai algumas décadas atrás,
quando capangas do tal empresário teriam obrigado muitos moradores
a se mudar.
Faz cerca de oito meses, o local
foi cercado com arames, cancelas foram instaladas nas entradas da
restinga e seguranças passaram a guardar o local 24 horas por dia.
Chegaram a impedir a entrada de caminhões com compras ou materiais
de construção, mas a restrição acabou revertida.
‘Nos trataram como animais’
No entanto, até hoje os moradores
não foram informados oficialmente de nada. Nem do projeto residencial
que ‘privatiza’ a restinga, nem dos motivos do cerco ao local e
das cancelas. “Nos trataram como animais, chegaram e foram cercando,
ninguém falou nada. Estamos protegidos ou estamos sendo ameaçados?”,
indagou Sueli, com jeito de quem sabe a resposta.
Enquanto lamentava o fato de parte
dos pescadores ainda não ter aderido à luta, afirmou ter a consciência
de que só com união eles podem conseguir preservar o local e as
fontes de sobrevivência das famílias que ali residem. “Há coisas
lindas dentro da restinga”, disse. “Para serem destruídas”, completa,
com ar de quem sabe que “não tem lugar melhor” para viver. E com
a certeza de que, como disse alguém durante a assembléia, a luta
para impedir a destruição disso tudo “é agora”.
(por Hélcio Duarte Filho)
Abaixo, o resumo das decisões saídas
da assembléia:
- Denúncia ao Ministério Público
Federal e a outros órgãos federais;
-Abaixo-assinado com a população
em geral e com entidades dos movimentos social e sindical;
-Lutar pela revitalização da lagoa
de Maricá;
-Defesa do retorno da sede da Colônia
de Pescadores, que hoje se encontra em Itaipu, Niterói, para Maricá;
-Resgate do processo de denúncias
da Rra. May;
-Buscar universidades públicas para
que se incorporem á luta em defesa da restinga;
-Defesa da conclusão do projeto quebra-mar
de Ponta Negra, com barra com comportas, e construção da barra permanente
também em Itaipuaçu e também com comportas, com garantia de manutenção
e participação dos pescadores e da comunidade nesse processo;
-organização de possíveis idas a
Brasília para pressionar o poder público em prol das reivindicações
da comunidade;
-Foi eleita uma comissão para encaminhar
as propostas aprovadas.
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