A sabedoria popular
é muito maior do que se julga. Por isto, antigos ditados e dizeres
permanecem sempre atuais, já que representam o simbolismo do comportamento
humano.
Nossa cultura, por ser uma enorme salada de culturas diferentes, nos
privilegia e nos permite utilizar e compreender dizeres não forjados
em nosso território.
Falemos então de um antigo dizer árabe: “os cães ladram e a caravana
passa”.
Observe a maravilha de contradição existente no meio da afirmação.
O estacionário e o evolutivo. Sabe-se que seguir adiante é da constituição
das caravanas, tal qual ladrar é da constituição dos cães. Aliás,
os cães apenas ladram para avisar a seus donos a aproximação de algo
que não faz parte de seu habitat convencional, ou quando desejam fazer
festa para algum conhecido.Também é de sua constituição manterem-se
próximos aos locais onde vivem, como se fossem limitados por um círculo
invisível. No primeiro caso, não importa que a caravana tenha boas
notícias, nem remédios importantes, basta que não seja daquele local.
No segundo, o latido é diferente, mas é latido. Mas se ambos agem
de acordo com suas constituições o que há de excepcional na expressão?
Exatamente o sentido de um permanecer estacionado e do outro seguir
sempre em direção ao seu destino.
Assim são algumas pessoas. Fixam-se em suas posições. Não buscam.
Não ousam. Não largam seus velhos hábitos. Ladram para tudo que lhes
pareça não fazer parte de seu meio.
Aqui vale também uma reflexão sobre dois termos. Apesar de “hábitos”
e “costumes” terem significado semelhante, quando precedidos pelo
adjetivo “velho”, assumem posições diferenciadas. “Velho costume”
representa a parte da cultura que permanece viva na memória popular.
É ativo e coletivo. “Velho hábito”, não. É aquilo que está enraizado
no indivíduo. É muito pessoal. É mania mesmo!
Então, não me assusta o ladrar de alguns que se espantam com o Conselho
Comunitário de Maricá (CCM). Também é da constituição do CCM o seguir
adiante, para o seu destino. Fazer o que tem que ser feito. Por isto,
não nos fechamos para ninguém. Todos são bem-vindos e têm um lugar
para ocupar. Basta estar disposto a seguir em boa companhia, e manter
um comportamento democrático para que, juntos,possamos vencer as agruras
deste deserto que é a administração pública brasileira.
Por outro lado, como não estamos fechados para ninguém, também não
“fechamos” com ninguém. Pois perderíamos a condição de seguir com
os próprios passos, na direção que desejamos. Isto é, deixaríamos
de seguir na direção dada pelo povo para seguir aquela determinada
por um indivíduo, ou por um pequeno grupo de indivíduos, ou por um
partido. E isto não é democrático.
Quanto aos que estão ladrando contra o CCM, ou contra A ou B deste
grupo, estão apenas cumprindo suas constituições: avisar aos donos
a chegada de algo novo, mesmo que este algo venha para o bem. Se não
ladrarem, podem ser descartados na primeira oportunidade, por não
haverem cumprido o que se esperava deles.
Os latidos são apenas latidos. Podem até incomodar um pouco. Podem
irritar. Podem provocar algumas iras contra a caravana por perturbar
o sono de alguns. Mas a caravana entende o seu sentido e segue adiante.
O CCM veio para ficar. Traz em sua bagagem remédios, projetos de melhoria
de vida e uma nova cultura e sabe que os cães têm que latir mesmo.
Sabe também que, em breve, terão que latir fazendo festa, pois assim
seus donos o desejarão.
E nós continuaremos seguindo adiante. Ficar preso a um círculo invisível
é para eles, os cães...
(*) - Carioca, 58 anos, Assessor para Assuntos Classistas da Associação
dos Servidores Civis da Marinha (ASCM),representante da ASCM junto
ao CCM; Coordenador Geral do Conselho Comunitário de Maricá (CCM);
freqüenta Maricá desde a década de 60 , tendo se fixado a partir da
década de 90. |