|
PESCADORES ARTESANAIS NÃO FORAM AINDA INDENIZADOS PELA EMPRESA
QUE VAZOU 1,3 MILHÕES DE LITROS DE ÓLEO DA BAÍA DE GUANABARA EM
18 de JANEIRO DE 2000
AMBIENTALISTAS E PESCADORES EXIGEM DA EMPRESA E DO PODER JUDICIÁRIO
MAIOR CELERIDADE NA INDENIZAÇÃO E DENUNCIAM EMPOBRECIMENTO E DESMANTELAMENTO
CULTURAL DAS COMUNIDADES PESQUEIRAS
Ambientalistas e pescadores artesanais encaminharão nesta 4ª. feira,
dia 18 de janeiro, documento à Direção da Petrobras e ao Presidente
do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Desembargador
Sérgio Cavalieri Filho, pedido de urgência na conclusão da ação
indenizatória de milhares de pescadores artesanais prejudicados
pelo vazamento de 1,3 milhões de litros de óleo na Baía de Guanabara,
em oleoduto da empresa, ocorrido em 18 de janeiro de 2000 (portanto
há 7 anos atrás). Neste período houve uma expressiva redução do
pescado na Baía de Guanabara provocando grande empobrecimento das
comunidades pesqueiras. Até os anos 70, o estado do RJ era o 2º
maior produtor de pescado do país.
Mesmo com o moroso processo judicial, em abril de 2005 a empresa
foi condenada em última instância na 25ª Vara Cível do Rio. Também
a justiça federal (Superior Tribunal de Justiça) já a havia condenado.
Em 2006, após ser condenada a empresa exigiu a realização de uma
perícia para definir o número de pescadores que seriam beneficiados
e qual o valor a ser pago. No entanto, até o momento a indenização
não foi paga. Estima-se em mais de R$ 1 bilhão o valor a ser pago
aos pescadores, sendo a maior indenização por dano ambiental já
vista no país.
O ecologista Sérgio Ricardo, que é testemunha dos pescadores na
ação contra a Petrobras, destaca a necessidade da empresa ressarcir
imediatamente os pescadores artesanais já que nestes 7 anos acumulou-se
um enorme passivo ambiental e social que levou a um maior empobrecimento
destas comunidades tradicionais, além do aumento do desemprego e
do sub-emprego (muitos tem abandonado a atividade pesqueira devido
a poluição) e precarização das condições de trabalho. Sérgio também
denuncia o que considera um crime contra o patrimônio cultural:
“o pescador artesanal é uma espécie ameaçada de extinção na Baía
de Guanabara, O aumento da poluição tem provocado um desmantelamento
cultural destas comunidades tradicionais que sempre viveram da natureza,
como trabalhadores extrativistas. Os pescadores tem abandonado
a sua profissão e perdido conhecimentos tradicionais que eram uma
herança passada com orgulho de pai para filho, por gerações. Atualmente,
grande parte dos pescadores estão sobrevivendo de sub-emprego (pedreiros,
marceneiros, zeladores de prédios, empregada doméstica, etc).
Os pescadores denunciam que em alguns pontos da Baía, próximos
à REDUC (Refinaria Duque de Caxias) nas proximidades do duto que
vazou, ainda há presença de óleo no fundo do mar e nos mangues.
O ecologista quer a adoção de medidas emergenciais até o pagamento
da indenização como: inclusão de todos os pescadores artesanais
da Baía de Guanabara no Programa Bolsa-Família (Programa Fome Zero,
do governo federal) para que possam –ao menos- comprar alimentos
para suas famílias; realização de um Censo Pesqueiro para identificar
o número de pescadores afetados em caso de vazamentos que periodicamente
vêm ocorrendo na Baía; implantação de política pesqueira através
da conversão dos recursos oriundos do valor de multas e compensações
ambientais para construção de píers (cais para embarcações), fábrica
de gelo, cursos de capacitação/aperfeiçoamento profissional, construção
de escola de pesca, financiamento p/ melhoria das embarcações e
aquisição de apetrechos de pesca, projetos de reflorestamento de
manguezais, construção de casas populares para evitar a ocupação
desordenada de áreas de manguezais, entre outras ações emergenciais.
No documento será lembrado o acidente ocorrido com o navio “Exxon
Valdez”, considerado o maior acidente petrolífero ocorrido nos EUA,
em 24 de março de 1989, quando este navio derramou um quarto de
sua carga de 1,3 milhões de barris de petróleo no sul do Santuário
ecológico do Alasca. Na época, diante da repercussão do acidente
ecológico a empresa assumiu publicamente a culpa e prometeu indenizar
todas as comunidades de pescadores que perderam quase tudo naquela
região do Alasca. No entanto, não cumpriu totalmente o prometido
e luta até hoje na Justiça para tentar diminuir o valor da indenização.
Na época, as ações da petrolífera Exxon, assim como as da Petrobras
tiveram acentuadas quedas na Bolsa de Valores.
O ecologista também estará solicitando aos Ministérios Público
estadual e à Procuradoria Geral da República que exijam a realização
de uma Auditoria Ambiental independente nos ecossistemas (mangues)
e áreas da Baía de Guanabara afetados pela poluição provocada pelo
vazamento de 2000, além da montagem de um Sistema de Monitoramento
permanente da Baía de Guanabara. Ele alerta que estranhamente, na
época do vazamento, a pesca foi liberada rapidamente pelos órgãos
ambientais (FEEMA e Ibama), com base apenas na análise de compostos
aromáticos que são voláteis, além de ter sido analisadas áreas não
impactadas (o parecer não diz exatamente sequer onde foram feitas
as coletas) e concluiu precipitadamente que não houve grande alteração
da contaminação da Baía, concluindo que o pescado estava próprio
para consumo. Apenas foi analisada os coliformes fecais e salmonela
(agente patogênico). Deveriam ter sido feitas permanentemente uma
série de análises tanto biológicas, quanto físico-química, bem como
análises dos sedimentos, lama dos mangues, água, fauna e flora.
Na época, foi utilizado grande quantidade de produtos químicos para
decantar (fazer descer) o óleo para o fundo do mar com isso aparentemente
cessou a poluição por óleo.
No pedido será solicitado que a Auditoria Ambiental independente
incluía uma avaliação dos diversos dutos da Petrobras instalados
no interior da baía (fundo do mar) e no seu entorno (muitos dutos
cortam áreas residenciais densamente urbanizadas), uma vez que o
Duto PE 43 continua vulnerável devido ao crescente assoreamento
da baía representando elevado risco ambiental de novos acidentes
com barcos de pesca, entre outros.
O ecologista alerta que após o vazamento do duto da Petrobras ocorreram
vários outros acidentes como do navio Saga Mascote, no estaleiro
ENAVI/RENAVE em Niterói e o descarrilhamento do trem da FCA-Ferrovia
Centro Atlântica da Vale do Rio Doce, que afetou a Área de Proteção
Ambiental de Guapimirim e o rio Caceribu, em Itaboraí, em que também
os pescadores não foram indenizados até o momento. O ecologista
considera vulnerável e pouco transparente o plano de emergência
para a Baía elaborado pela Feema e grandes empresas.
O derramamento de 1,3 milhão de litros de óleo, foi o segundo maior
desastre ecológico ocorrido na Baía de Guanabara. O maior foi em
1974, de 6 milhões de litros de óleo do navio Tarik.
Maiores informações:
Sérgio Ricardo (Ambientalista) – Tel. (21) 9908-2773, 3366-1898
Alex Sandro - Associação de Pescadores de Tubiacanga-Ilha do
Governador –Tel. (21) 9237-5705
|