A MISERICÓRDIA
A fila se estendia ao longe, muito, muito longe. Seu comprimento abrigava
101.451 pessoas. O seu início era marcado por uma pedra gélida de
piso irregular, acinzentada, um degrau. Um degrau que marcava a entrada
de um lugar histórico, a entrada de um templo, um templo do saber.
Não importava o quanto era belo esse templo e nem o que irradiavam
aquelas paredes impregnadas de cultura. Como tudo na cidade, ele tinha
se curvado diante das forças involutivas e de seus comandantes. Eles
eram poderosos, implacáveis, cultuavam a tragédia, exploravam a miséria
e se divertiam com a desgraça do povo.
Ali na porta daquele lugar sagrado, naquele degrau, encurvado sobre
seu ventre, de cabeça arriada, José era mantido ajoelhado. Nessa posição,
vivenciava a sina de um povo e, assim, resignado, tal como ficavam
os escravos do passado, ele aguardava a descida da chibata.
Do seu lado, em semelhante situação, estavam a Maria, a Delminda,
a Alaíde... Naquela fila maldita todos aguardavam a sua vez.
A sua vez de sofrer! Tudo era apenas uma questão de tempo.
Diante dessa cena, seus algozes se mostravam garbosos, gargalhavam.
Em suas mãos o chicote bradava pra lá, bradava pra cá.
Sabiam que a essência de sua maldade, era uma manifestação inequívoca
da crueldade que havia sido instalada em seus corações e que se alimentava
na desgraça dos doentes, dos aleijados, dos velhos,... |
Sabiam
que essa essência, tinha sido moldada na escuridão de nossas crianças
cegas, que abandonadas à própria sorte, colhiam os dissabores do analfabetismo.
Tinham a certeza da impunidade. As leis dos homens não poderiam tocá-los.
Assim, a cada chibatada os sonhos do José, da Maria, de muitos daquela
fila, eram dilacerados. Suas esperanças caiam por terra.
A fraternidade do mal se firmava. Tudo eram trevas! |
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Então...,
veio à luz!
Exatamente, como aconteceu nos primeiros momentos da criação!
O universo se expandiu
e trouxe consigo o amor. O ícone mais representativo da vida, trouxe,
também, a misericórdia....
Sim! A misericórdia, o perdão, a indulgência, a graça e a clemência
como resposta da consciência dos homens de bem para enfrentar situações
de eminente perigo, de grande necessidade.
Nessa conjuntura sublime, particularmente abençoada pelas mais elevadas
mônadas, as hierarquias internas e os grandes mestres invocaram:
Que as graças dos céus recaiam sobre esses irmãos que se desviaram
do caminho. Que sejam retirados os véus que separam suas vidas atuais
da verdade interior.
Que recebam a luz e que ela lhes sirva de fonte de inspiração!
Que conheçam a verdade superior, aquela que tudo perdoa, que tudo
releva e que está contida em cada partícula da criação. A verdade
que está no coração de cada um dos homens.
...
Mais uma vez, o verdadeiro amor mostrou a sua face transformadora.
O sofrimento acabou!
O cenário da história anterior foi completamente transmutado.
Agora, as criancinhas cegas não são mais analfabetas. Aprenderam
braile, a escrita apropriada para sua necessidade especial.
As Delmindas recebem as suas bolsas coletoras de fezes.
Os ônibus transportam as pessoas para todos os cantos e existem
passarelas por todos lugares.
Nesse novo tempo, todos foram contemplados!
José não chora mais. Seu olhar é iluminado pela luz, refletida de
seus antigos algozes.
Todos estão sorrindo e se dão as mãos!
Nesse clima começou a grande festa. A festa da fraternidade!
Parabéns pra você,
Nessa data querida,
Assim, cantávamos todos juntos, unidos, fraternos, diante daquele
símbolo que representava o início de uma nova era. A rampa dos Josés.
Que a paz e o amor se instalem no coração de todos!
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