20/09/2007

OSTOMIZADOS DE MARICÁ
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........xxx.....Engº Spencer Ferreira # spencer@ostomizados.com
A MISERICÓRDIA

A fila se estendia ao longe, muito, muito longe. Seu comprimento abrigava 101.451 pessoas. O seu início era marcado por uma pedra gélida de piso irregular, acinzentada, um degrau. Um degrau que marcava a entrada de um lugar histórico, a entrada de um templo, um templo do saber.
Não importava o quanto era belo esse templo e nem  o que irradiavam aquelas paredes impregnadas de cultura. Como tudo na cidade, ele tinha se curvado diante das forças involutivas e de seus comandantes. Eles eram poderosos, implacáveis, cultuavam a tragédia, exploravam a miséria e se divertiam com a desgraça do povo.
Ali na porta daquele lugar sagrado, naquele degrau, encurvado sobre seu ventre, de cabeça arriada, José era mantido ajoelhado. Nessa posição, vivenciava a sina de um povo e, assim, resignado, tal como ficavam os escravos do passado, ele aguardava a descida da chibata.
Do seu lado, em semelhante situação, estavam a Maria, a Delminda, a Alaíde...  Naquela fila maldita todos aguardavam a sua vez. A sua vez de sofrer! Tudo era apenas uma questão de tempo.
Diante dessa cena, seus algozes se mostravam garbosos, gargalhavam. Em suas mãos o chicote bradava pra lá, bradava pra cá.
Sabiam que a essência de sua maldade, era uma manifestação inequívoca da crueldade que havia sido instalada em seus corações e que se alimentava na desgraça dos doentes, dos aleijados, dos velhos,...
Sabiam que essa essência, tinha sido moldada na escuridão de nossas crianças cegas, que abandonadas à própria sorte, colhiam os dissabores do analfabetismo.
Tinham a certeza da impunidade. As leis dos homens não poderiam tocá-los.
Assim, a cada chibatada os sonhos do José, da Maria, de muitos daquela fila, eram dilacerados. Suas esperanças caiam por terra.
A fraternidade do mal se firmava. Tudo eram trevas!

Então..., veio à luz!
Exatamente, como aconteceu nos primeiros momentos da criação!

O universo se expandiu e trouxe consigo o amor. O ícone mais representativo da vida, trouxe, também, a misericórdia....
Sim! A misericórdia, o perdão, a indulgência, a graça e a  clemência como resposta da consciência dos homens de bem para enfrentar situações de eminente perigo, de grande necessidade.
Nessa conjuntura sublime, particularmente abençoada pelas mais elevadas mônadas, as hierarquias internas e os grandes  mestres invocaram:
Que as graças dos céus recaiam sobre esses irmãos que se desviaram do caminho. Que sejam retirados os véus que separam suas vidas atuais da verdade interior.
Que recebam a luz e que ela lhes sirva de fonte de inspiração!
Que conheçam a verdade superior, aquela que tudo perdoa, que tudo releva e que está contida em cada partícula da criação. A verdade que está no coração de cada um dos homens.
...
Mais uma vez, o verdadeiro amor mostrou a sua face transformadora. O sofrimento acabou!
O cenário da história anterior foi completamente transmutado.
Agora, as criancinhas cegas não são mais analfabetas. Aprenderam braile, a escrita apropriada para sua necessidade especial.
As Delmindas recebem as suas bolsas coletoras de fezes.
Os ônibus transportam as pessoas para todos os cantos e existem passarelas por todos lugares.
Nesse novo tempo, todos foram contemplados!
José não chora mais. Seu olhar é iluminado pela luz, refletida de seus antigos algozes.
Todos estão sorrindo e se dão as mãos!
Nesse clima começou a grande festa. A festa da fraternidade!
Parabéns pra você,
Nessa data querida,
Assim, cantávamos todos juntos, unidos, fraternos, diante daquele símbolo que representava o início de uma nova era. A rampa dos Josés.


Que a paz e o amor se instalem no coração de todos!