08/01/2007
Recebido por mail   de  Luiz da Silva Mattos
HOMENAGEM À PSIQUIATRA NISE DA SILVEIRA

      Em comemoração à data de nascimento, escrevemos "Nos limites do inconsciente" em  homenagem a Nise da Silveira, psiquiatra brasileira, nascida em Alagoas que terminou em parte, pois as barbáries ainda são usadas em hospitais psiquiátricos, pois é mais fácil matar e atestar.

No período de 1936 a 1944 foi afastada do seu trabalho no Serviço Público, por motivos políticos, sendo confinada ao cárcere, devido aos seus ideais socialista. Em liberdade, foi readmitida e designada em 17 de abril de 1944 para ter exercício no Centro Psiquiátrico Nacional que funcionava na Praia Vermelha, posteriormente sede da antiga Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil. O Centro Psiquiátrico Nacional foi transferido para o Engenho de Dentro, atual Instituto Municipal Nise da Silveira.

Nise da Silveira, discípula de Jung, se rebelou contra a barbárie dos métodos usados, tais como a lobotomia e o eletro choque. Assim, fundou em 1946 a Seção de Terapêutica Ocupacional no antigo Centro Psiquiátrico Nacional, origem do Museu de Imagens do Inconsciente - Rio de Janeiro, quando em 1952, reunindo material produzido nos ateliês de pintura e de modelagem da Seção de Terapêutica Ocupacional.  O Museu de Imagens do Inconsciente fica no Instituo Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira (antigo Centro Psiquiátrico Pedro II).  Rua Ramiro Magalhães, 521 - Engenho de Dentro CEP 20730-460 - Rio de Janeiro. Temos ainda no Rio de Janeiro, a CASA DAS PALMEIRAS, fundada pela mesma psiquiatra; uma clínica de reabilitação para egressos de instituições psiquiátricas, em regime de externato, que utiliza as atividades expressivas como principal método terapêutico.  Na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, encontramos o Museu Bispo do Rosário.

A visita, a colaboração ou a participação é gratificante,  pela mudança de conceitos e métodos aplicados ao restabelecimento ou a ressocialização do doente, pelo que se aprende; pela exposição das artes plásticas, palestras e documentários, tais como:

"afetividade na Esquizofrenia", "cujas pesquisa no Museu demonstram a permanência viva da afetividade nos esquizofrênicos, contrariando um dos chavões da psiquiatria tradicional, que frisa o embotamento afetivo progressivo desses indivíduos"

"Abstração e Geometrismo": mostra que "a psiquiatria tradicional interpreta a abstração e o geometrismo como sendo uma característica do estilo esquizofrênico, significando embotamento afetivo e intelectual. Esta afirmação não corresponde à realidade revelada nos documentos do atelier de pintura. Emoção, angústia e o esforço para se opor ao estado de caos e confusão psíquica são mostrados neste documentário."

"Mandala": "Tentativa de entender o aparecimento de imagens ordenadas na pintura de esquizofrênicos que freqüentavam o atelier de pintura, Nise recorreu a Jung, cujos esclarecimentos acerca dessas imagens comprovando a existência de um potencial autocurativo na psique, foram o ponto de partida para introdução da psicologia junguiana no Brasil."

"Vivências no Espaço": "As estranhas vivências espaciais dos esquizofrênicos, são estudadas através das imagens por eles pintadas, que revelam a interpenetração mundo externo/mundo interno."

"Efeitos da Leucotomia Sobre a Atividade Criadora": "Apresentação do estudo de três casos clínicos, através de imagens produzidas antes e depois da intervenção cirúrgica."

"Paixão e Morte de um Homem": "A série de imagens apresentada nesse audiovisual, contradiz um dos chavões da psiquiatria tradicional, que frisa o embotamento afetivo do esquizofrênico crônico. Permite o acompanhamento da paixão de um homem"

Nos limites do inconsciente

No limite da loucura com a genialidade,

sou levado pelos fantasmas que ainda povoam as masmorras,

outrora um misto de cárcere, nosocômio de terror,

entregues e deixados aos grilhões de tragicômicos

que não só confinaram e mutilaram os seus corpos,

também os reduziram em ondas eletromagnéticas.

 

A energia eterificada povoa hoje os nobres salões

e advém de existências que contradizem resultados

de inúmeras, amargas e tormentosas experiências aplicadas

por verdugos, executores dos bárbaros,

doutos protagonistas maníacos de cenas dantescas.

 

Sádicos: cruel deleite na lobotomia e eletrochoque

a transformar a morbidez mental esquizofrênica

e demais casos, de dores tidas como  intratáveis,

em morto-vivos apascentados pelas convulsões,

quiçá total perda de consciência. . . talvez a morte.

 

Avanço e chego à fronteira,  limiar da genialidade

e eis que vejo noutro lado da rua, seres excluídos,

levados em "metamorfoses ambulantes" a vagar

em divagação simples e desconexas em destempero

de realidade para o mundo físico, mas prisioneiros

nessa estreita dimensão de relações egocêntricas

que se chocam nas projeções de surrealidade

e se deslocam em diferente dimensão do astral.

 

Avanço, chego aos degraus inconscientes da loucura,

trilhas marcadas, deixadas por muitos que passaram

antes ou depois, não importa, mas sempre hão de vir

e chegar inconformados pelo vil cotidiano dos seres.

 

Busco o homem forjado puro, idealista e despojado,

mas o sabendo utópico, não nos restam os impuros,

senão amargos, quase vida e ingênuos: os incautos;

mercê dos torpes e dos vis espertalhões.

 

Acautelo-me, penso em mim, não serei a  divindade?

qual! pois sou deus decaído, parafísico, paranormal;

errado ou errante, sem adoração ou sem pedestal;

sem fiéis; fruto da aversão de intolerantes e odiosos;

sou avesso à suspeição sectária e irracional de raças,

credos ou religiões na convergência do nosso destino,

quiçá  divergências que se nos deparam o cotidiano.

 

Busco acima do bem e do mal e não encontro nada

além de um espaço que se projeta rarefeito e vazio

no vácuo de uma caverna fria, escura e oca.

 

Avanço e chego assediado pelos ímpios e hereges,

trazendo impiedade que bem antes já a conhecera;

volvo e me vejo cercado por prosélitos e fanáticos

entregues ao rescaldo mórbido de seus  descaminhos.

 

Avanço e chego ao limite tênue desse exíguo espaço

que se amplia na vastidão das paredes do surreal

levando-nos e realocando-nos em viagens de fantasias,

adequando-nos às personagens: aos pais e aos filhos;

aos deuses e aos astronautas.

lsmattos