|
Desculpe o desabafo
que farei agora, sou moradora de Itaipuaçú há menos de 4 anos, lugar
que escolhi para adquirir minha casa e “fincar” meus pés como
uma árvore finca suas raízes, terminar de criar meus filhos, envelhecer
e me preparar para a viagem que um dia todos nós faremos. Nesses
4 anos, lemos vários livros sobre a historia da cidade, estivemos
em cada bairro de Maricá, inclusive locais de extremíssima miséria,
esquecidos pelas autoridades municipais (exemplo do bairro Coréia,
em Jaconé; bairro Amizade, “saco da lama” e Caju, bem pertinho
do Centro de Marica; Retiro; Mato Dentro e tantos outros),
conhecemos cada canto do Município, e é lamentável o que a
“sede” pelo dinheiro, a ganância imobiliária, a corrupção e a conivência
não só das autoridades como dos cartórios fizeram com nossa cidade,
com nosso ecossistema, nossa geografia, nossas histórias e cultura:
lacunas desapareceram ou foram desviados, morros foram devastados
ou simplesmente desapareceram, rios foram aterrados ou desviados,
terras públicas foram tituladas irregularmente, areias roubadas
para enriquecer cada vez mais os “coronéis da cidade” ou enfeitar
condomínios, manguezais desapareceram, condomínios titulados irregularmente
beirando nossas águas, nosso povo tradicional abandonado à própria
sorte - quilombolas dispersos e abandonados (inclusive pagando laudêmio
à União, como se a dívida social fosse deles para com o Estado),
nossos pescadores, na grande maioria, desviados da sua cultura,
da pesca artesanal, pela necessidade de sobrevivência (lamentavelmente,
a natureza não tem como se recompor de tanto estrago causado ao
longo dos anos, não só com a sujeirada que lançam diariamente em
suas águas, que as contaminam ou que fazem geminar plantas que as
desequilibram, mas também com o barro vermelho de pequenos morros
“sangrados” que serve para aterrar nossas águas e levar plantas
que intoxicam nosso pescado).
Quanta estupidez!
Quantos crimes foram praticados ao longo do tempo na “busca do progresso
e do desenvolvimento” com a anuência das autoridades, governos
negligentes, incompetentes ou corruptos ou de cartórios aliados
à cobiça de alguns especuladores inescrupulosos ou de pessoas com
vontade desesperada de prosperar, levando a multiplicarem-se os
loteamentos, empreendimentos imobiliários que, em sua grande maioria
não tinham sequer fundamento legal, pois colocavam no mercado terrenos
que antes não existiam, pois na realidade foram “traçados” na propriedade
do poder público” e as areias da restinga retalhadas por urbanização
predatória. O fato é que há danos irreversíveis! Não dá mais para
recuperar a antiga geografia e os “valores ecológicos” da nossa
cidade e reverter todos os crimes cometidos contra ela, mas ainda
há tempo para proteger o que sobrou e recuperar parte do que
foi destruído, como demonstra a luta, muitas vezes solitária, de
poucos como Doutora May (que lamentavelmente partiu), Flavia, Regina,
os pescadores de Zacarias, Vicente Silva, Gerhard e outros amigos
e protetores de Maricá e ate mesmo aqueles que se mantiveram
ou mantém incógnitos, invisíveis, como “anjos da guarda”, anonimamente,
em frente ao computador “alimentando de informações e conhecimentos
aqueles que tem mais poder para atuar como seu “porta voz”.
Sindicalista que
sou, atuando e trabalhando no Rio, mas já recebendo denúncias sobre
a precarização do trabalho em Maricá, praticada pela Multiproff,
que deixa seus trabalhadores sem direitos trabalhistas, e
de uma saúde pública extremamente sucateada pela falta de recursos
e de políticas públicas, apesar dos bons profissionais que aqui
existem, vinha atuando na organização dos trabalhadores da
saúde, trabalho e previdência. Mas o sindicato no qual estou diretora
abandonou faz tempo à visão corporativista de só defender a categoria
sindicalizada e atua nos movimentos sociais com o Sindsprev Comunitário
e, assim, ao sabermos pelos jornais sobre a “venda da restinga”,
procuramos os pescadores de Zacarias e os dos demais bairros,
levando até eles nosso apoio - de organização, jurídico e
tudo o que for necessário para, juntos, formarmos uma frente contra
esse projeto capitalista e tantos outros que estejam vindo para
“destruir” o pouco que sobrou.
Com certeza, o Sindsprev
Comunitário sempre estará presente onde houver ataques aos direitos
do povo, seja ele empregado, desempregado, sem teto, sem terras,
sem águas, trabalhadores informais. Nos colocamos à disposição para
caminharmos e trabalharmos com aqueles que compartilham desses ideais.
Feito o desabafo e a apresentação, voltemos ao nosso assunto neste
momento: o “famigerado” projeto do Resort (nome para enganar
“trouxa”, visto que o projeto, na sua grande maioria, é um luxuoso
loteamento residencial, empresarial e comercial, com exclusividade
de acesso em terras, que a historia comprova serem do poder publico,
pois como já foi dito anteriormente, houve quebra de sucessão, portanto
tornaram a ser terras publicas = “privatização da restinga”).
|