03/08/2007
 
Recebido por mail de MCM
S.O.S RESTINGA! S.O.S MARICÁ!
Desabafo

Desculpe o desabafo que farei agora, sou moradora de Itaipuaçú há menos de 4 anos, lugar que escolhi para adquirir  minha casa e “fincar” meus pés como uma árvore finca suas raízes, terminar de criar meus filhos, envelhecer e me preparar para a viagem que um dia todos nós faremos. Nesses 4 anos, lemos vários livros sobre a historia da cidade, estivemos em cada bairro de Maricá, inclusive locais de extremíssima  miséria, esquecidos pelas autoridades municipais (exemplo do bairro Coréia, em Jaconé; bairro Amizade, “saco da lama” e Caju,  bem pertinho do Centro de Marica; Retiro; Mato Dentro  e tantos outros), conhecemos cada canto do Município,  e é lamentável o que a “sede” pelo dinheiro, a ganância imobiliária, a corrupção e a conivência não só das autoridades como dos cartórios fizeram com nossa cidade, com nosso ecossistema, nossa geografia, nossas histórias e cultura: lacunas desapareceram ou foram desviados, morros foram devastados ou simplesmente desapareceram, rios foram aterrados ou desviados, terras públicas foram tituladas  irregularmente, areias roubadas para enriquecer cada vez mais os “coronéis da cidade” ou enfeitar condomínios, manguezais desapareceram, condomínios titulados irregularmente beirando nossas águas, nosso povo tradicional abandonado à própria sorte - quilombolas dispersos e abandonados (inclusive pagando laudêmio à União, como se a dívida social fosse deles para com o Estado), nossos pescadores, na grande maioria, desviados da sua cultura, da pesca artesanal, pela necessidade de sobrevivência (lamentavelmente, a natureza não tem como se recompor de tanto estrago causado ao longo dos anos, não só com a sujeirada que lançam diariamente em suas águas, que as contaminam ou que fazem geminar plantas que as desequilibram, mas também com o barro vermelho de pequenos morros “sangrados” que serve para aterrar nossas águas e levar plantas que intoxicam nosso pescado).

Quanta  estupidez! Quantos crimes foram praticados ao longo do tempo na “busca do progresso e do desenvolvimento” com a anuência  das autoridades, governos negligentes, incompetentes ou corruptos ou de cartórios aliados à cobiça de alguns especuladores inescrupulosos ou de pessoas com vontade desesperada de prosperar, levando a multiplicarem-se os loteamentos, empreendimentos imobiliários que, em sua grande maioria não tinham sequer fundamento legal, pois colocavam no mercado terrenos que antes não existiam, pois na realidade foram “traçados” na propriedade do poder público”  e as areias da restinga retalhadas por urbanização predatória. O fato é que há danos irreversíveis! Não dá mais para recuperar a antiga geografia e os “valores ecológicos” da nossa cidade e reverter todos os crimes cometidos contra ela, mas ainda há tempo para  proteger o que sobrou e recuperar parte do que foi destruído, como demonstra a luta, muitas vezes solitária, de poucos como Doutora May (que lamentavelmente partiu), Flavia, Regina, os pescadores de Zacarias, Vicente Silva, Gerhard e outros amigos e protetores de Maricá e ate mesmo aqueles que se  mantiveram ou mantém incógnitos, invisíveis, como “anjos da guarda”, anonimamente, em frente ao computador “alimentando de informações e conhecimentos aqueles que tem mais poder para atuar como seu “porta voz”.

Sindicalista que sou, atuando e trabalhando no Rio, mas já recebendo denúncias sobre a precarização do trabalho em Maricá, praticada pela Multiproff, que deixa seus trabalhadores sem  direitos trabalhistas, e de uma saúde pública extremamente sucateada pela falta de recursos e de políticas públicas, apesar dos bons profissionais que aqui existem,  vinha atuando na organização dos trabalhadores da saúde, trabalho e previdência. Mas o sindicato no qual estou diretora abandonou faz tempo à visão corporativista de só defender a categoria sindicalizada e atua nos movimentos sociais com o Sindsprev Comunitário e, assim, ao sabermos pelos jornais sobre a “venda da restinga”,  procuramos os pescadores de Zacarias e os dos demais bairros, levando até  eles nosso apoio - de organização, jurídico e tudo o que for necessário para, juntos, formarmos uma frente contra esse projeto capitalista e tantos outros que estejam vindo para “destruir” o pouco que sobrou.

Com certeza, o Sindsprev Comunitário sempre estará presente onde houver ataques aos direitos do povo, seja ele empregado, desempregado, sem teto, sem terras, sem águas, trabalhadores informais. Nos colocamos à disposição para caminharmos e trabalharmos com aqueles que compartilham desses ideais. Feito o desabafo e a apresentação, voltemos ao nosso assunto neste momento: o “famigerado” projeto do Resort  (nome para enganar “trouxa”, visto que o projeto, na sua grande maioria, é um luxuoso loteamento residencial, empresarial e comercial, com exclusividade de acesso em terras, que a historia comprova serem do poder publico, pois como já foi dito anteriormente, houve quebra de sucessão, portanto tornaram a ser terras publicas = “privatização da restinga”).