No Estado do Rio de
janeiro a 48 km do centro da capital está localizado o município de
Maricá. Que tem nesta área de restinga uma APA que nunca teve do governo
municipal nenhuma atenção e que agora dedica-se a sua destruição.
Varias manobras já foram tentadas com interesse do governo municipal
e apoio do governo estadual, que teve seu secretário de meio ambiente
falando em alto e bom som no IX Congresso da Apedema que estaria numa
Audiência Pública no dia 8/10/07 em Maricá para tratar do Plano de
Manejo da APA, encheram a cidade de “out doors”. Não conseguiram,
pois a sociedade mobilizou-se e o governo teve que transformar a tal
“audiência” em Reunião Pública. O secretário não foi, mas mandou um
representante. Mais uma surpresa: no dia 16/10/07 às 14h00min, uma
Audiência Pública na ALERJ (A casa dos Deputados Estaduais). O motivo
era sobre “Resorts na Região dos Lagos: Cabo Frio, Búzios e Maricá”.
Mais uma vez a mobilização da sociedade: pescadores, professores,
ambientalistas e cidadãos que sabedores do dano que poderá advir se
fizeram presentes. Mais uma vez conseguimos mostrar que o povo não
é ignorante e nem indolente. Chegamos ao centro da cidade antes de
10 horas da manhã com carro de som e panfletamos fazendo um abaixo
assinado. Porque este descaso? Ficamos mais de seis horas fazendo
conscientização da população, no centro do Rio de Janeiro, e não chegou
nem uma rádio pirata.
O presidente da comissão foi o Dep. André do PV, o deputado Tucalo
exviceprefeito de Marica só ficou por menos de 10 minutos e logo disse
que tinha compromisso e saiu. Mas o site da Alerj diz que ele ficou
na audiência. E tudo foi filmado e gravado.
Quando oito de nossos vereadores foram com as esposas e o presidente
da câmara a Europa, com dinheiro publico e estadia paga pela tal empresa.
Viajaram ao encontro do Prefeito que lá estava e do vice-governador.
A Rede Bandeirante foi ao Aeroporto do Galeão e colocou na TV numa
sexta e num sábado, mas de lá pra cá parece que não existimos. Já
procuramos vários veículos de informação, mas existe uma indiferença.
A ameaça não é nova: nosso município vem sofrendo sucessivos ataques
ao longo de varias décadas. No final da década de 30 já havia o ataque
ao nosso sistema Lagunar, mas em 1971, o “proprietário das terras”
Lucio Thomé Feteira encomendou um projeto para uma Cidade de São Bento
nesta mesma área. Projeto encomendado ao escritório do reconhecido
arquiteto Lucio Costa. Em 1975 quando começou a implantação do projeto
“pedrador”, após o inicio do trabalho de terra plenagem houve a mortandade
de peixes por quatro anos seguidos: sendo que só em 1975 foram 200
toneladas. “Ninguém” sabe o que provocou a mortandade, houve até quem
dissesse que foi uma planta de nome “timbó” que seria usada pelos
índios na pesca. Esquisito é! Mas o “dono” da restinga era amigo dos
militares.
Muita coisa aconteceu e culminou em 1978, “no parecer em do Juiz Federal
Dr. Américo da Luz da 5ª Vara que por negligencia e omissão responsabilizou
os governos municipal, estadual, federal e três companhias loteadoras.
Na esfera municipal, o prefeito; na estadual, FUNDREM, a FEEMA, e
a CECA; no âmbito federal, o IBDF, a SUDEPE, o DNOS e a EMBRATUR respondiam
as acusações de culpa no “cataclisma ecológico”. No domínio não governamental,
figuravam como rés a Sociedade de Explorações agrícolas e industriais
S/A (S.E.A.I.), isto é Lucio Thomé Feteira, além de Augusto B.F. do
Valle, corretor e J. Pimenta S/A. O ato do poder público implicava
na imediata paralisação das obras da Cidade de São Bento, pois determinava
a imediata suspensão de todos os atos administrativos emanados dos
órgãos e entidades federais, estaduais e municipais nos últimos cinco
anos”. Jornal O Globo de 25 /08/78 e Jornal do Brasil de 26/08/78.
“Determinou a suspensão de todas as licenças para novos loteamentos
e edificações, junto à lagoa, por considerar que ali estava ocorrendo
um verdadeiro massacre ecológico”. Jornal do Brasil de 26/08/78.
OBS. Os dados acima foram retirados de uma tese de mestrado que virou
livro “GENTE DAS AREIAS” dos antropólogos Marco Antônio da Silva Mello
e de Arno Vogel. Que junto a uma força tarefa chegaram ao local em
1975 e mais de vinte anos depois contaram todo o ocorrido.
Em 1984 no Governo Brizola esta parte da restinga de Marica virou
APA, mas sempre motivo de cobiça e sem Plano de Manejo. Em outubro
de 2006 a prefeitura publicou um novo PDU e dias depois o cerceamento
da restinga, inclusive duas rodovias e começou mais uma vez a historia
de destruição do cordão costeiro. A empresa lusa espanhola MADRILISBOA
(e mais um monte de nomes, que fica difícil de lembrar) já publica
folder na Europa vendendo o tal empreendimento, mas aqui dizem que
não há projeto, quem sabe dever ser o mesmo de 1971 e que atenderia
a 90 mil pessoas. Ninguém sabe que produto foi este, houve até quem
dissesse que foi uma planta de nome “timbó” que seria usada pelos
índios na pesca. Esquisito é! Mas o “dono” da restinga era amigo dos
militares, tendo vindo ao Brasil logo após 1932 trazido por Amaral
Peixoto.
Próximo ao local, que até hoje é abandonado: existem as ruínas de
um prédio que já foi imponente com o logotipo “VIDROBRÁS”, pela arquitetura
anterior aos anos 60. E do outro lado funcionava a S.E.A.I. S/A Serviços
e explorações agrícolas e industriais S/A ou seria um local de beneficiamento
de monazita para retirada do tório, um mineral radioativo, e o prédio
da Vidrobrás apenas um depósito. Devemos lembrar que na época, inicio
da década de 50 nosso país chegou a trocar navio de tório por navio
de trigo. Havia próximo ao local uma estação de trem e isto facilitaria
o escoamento da “mercadoria”.
A historia da energia nuclear no Brasil teve inicio por volta de 1945.
Mas já nos oitocentos o Brasil já exportava a monazita que antes da
entrada do Brasil no mercado custava 80 libras a tonelada e depois
passou a 20 libras, tendo o governo brasileiro começado a tomar providências
em 14 de setembro de 1905, fixando as regras de demarcação dos terrenos
de em que se encontravam essas areias delimitando o que pertencia
a União como terrenos de marinha. Assim descendo as águas das lagunas
transformaram terras de União em terrenos próprios. Seguindo os indícios
deixados pela história podemos dizer que já foram descidos mais da
metade do sistema lagunar.
Quando em setembro de 1987, o então presidente José Sarney anunciou
o domínio do enriquecimento de urânio, ficou parecendo a Nação que
começava ali nossa história nuclear, mas muita coisa ficou escondida.
As primeiras reuniões sobre o uso pacifico da energia nuclear no Brasil
foram realizados em 25, 26 e 27 de abril de 1956. Uma pergunta: Onde
estão os resíduos do beneficiamento da monazita? Não foi só em Guarapari
e na Bahia que retiraram monazita Aqui e ali podemos encontrar alguma
leitura sobre o assunto, mas tudo muito velado. Porque o segredo?
Já sabemos que o Brasil tem varias áreas contaminadas por vários produtos
: o Césio - 137 em Goiânia, a Cidade dos Meninos em Caxias/RJ, a INGÁ
em Sepetiba que já há 30 anos era objeto de preocupação, Paulínia
e muitas outras situações.
Em 1990 houve um plano indutor de turismo de uma empresa da Catalunha
para a Região dos Lagos/RJ, em 1999 num Convênio do governo do estado
com Alemanha sobre recursos hídricos. No plano indutor de turismo
as partes mais preservadas serão degradadas e no convênio sobre recursos
hídricos Projeto PLANÁGUA SEMADS / GTZ de Cooperação Técnica Brasil
- Alemanha que ficou pronto em maio de 2001: dão-nos uma bacia hidrográfica
de 330 km ² num município de 362 km2 , quando em 1955 a bacia era
de 230 km² e ainda colocam um rio desaguando na Laguna Brava, onde
hoje encontramos outro. Não foi o rio que trocou de nome, mas eles
devem ter usado os mapas do Brasil Imperial.
Temos ainda o agravante que desde 2003 uma equipe de 16 instituições
brasileiras, coordenadas pelo supra-sumo da Geotécnica Dr. Dieter
Ernest Carl Heino Muehe/UFRJ terem começado a fazer um novo ATLAS
costeiro “Erosão e Progradação”. Que se encontra disponibilizado no
site do MMA. Enquanto se fazia este estudo para o bem de nosso país,
vários outros trabalhos foram feitos, inclusive com títulos como “Área
críticas e de risco potencial à erosão costeira no Município de Maricá/RJ”
e “Risco e vulnerabilidade física à erosão costeira e impactos sócios
econômicos na orla urbanizada do município de Maricá/RJ”. Este ultimo
com fotos e dados interessantes. Ainda existe outro trabalho anterior,
em 2001, encomendado pela INFRAERO sobre o cordão costeiro desta parte
da restinga. Sobre os dois primeiros trabalhos, a conclusão: é que
a restinga cobiçada é a parte com menor risco de erosão porque não
existe ocupação e ainda conserva a vegetação natural.
Hoje a restinga é a parte que garante a sobrevida do sistema lagunar
de Maricá, já tão agredido por motivos torpes. Teríamos que estar
discutindo a recuperação das Lagunas Costeiras e não estarmos sendo
estressados pelo pessoal de “Tordesilhas”.
A imprensa se omite. O governo federal faz ouvidos moucos, como se
não soubesse o que é o Gerenciamento Costeiro. Que país é este? “Deitado
eternamente em berço esplendido”, e signatário da Convenção das Nações
Unidas para o Direito do Mar. “ Com os filhos deste solo” nosso país
não precisa de inimigos. Com um invejado litoral de 8500 km de extensão,
mas dependente das lagunas costeiras para a desova de varias espécies
marinhas, bem como de habitat da varias aves migratórias. Nossos dirigentes
sabem que para conservarmos as 200 milhas e mais as 70 milhas recém
conquistadas, teremos que cumprir as regras da Convenção. Uma delas
é a conservação da cadeia alimentar e para isto nossa restinga tem
que se conservar com está agora e nossas lagunas saneadas.
A ocupação da restinga aumentará o risco de erosão e aí será o golpe
de misericórdia não somente a Lagoa de Marica, mas ao sistema lagunar.
Que já vem sendo massacrado e que hoje está em coma induzido. Nós
ficaremos sem água potável, mas como o poder público municipal e estadual
são garotos propagandas do resort espalham aos moradores que haverá
40 mil empregos. Tenho que dizer que não é só um resort e sim complexos
residenciais com shopings e tudo o que se puder pensar de comodidades,
campo de golfe, marina para mil barcos. Um suma uma outra cidade,
a mesma de 1975. ainda insistem que não há projeto, mas já temos até
os folders distribuídos na Europa. Somente a prefeitura ganhará um
troco e o cartório, pois quem for morar lá nunca gastará nem um tostão
na cidade.
Temos uma comunidade tradicional morando nesta área que vem sendo
maltratada e constrangida desde a década de 40, ou desde que o português
Lucio Thomé Feteira chegou por aqui e ser arvorou como dono com ajuda
de nosso governo. Os viajantes do século XIX que aqui chegaram com
a família Real já encontraram gente morando nas areias, daí o termo
usado por Alberto Ribeiro Lamego e que em 2005 seria usado pelos antropólogos
Marco Antonio da silva Mello e Arno Vogel no seu “GENTE das AREIAS”.
A primeira sesmaria concedida em Maricá foi em 8 de janeiro de 1574
à Antonio de Marins, hoje o patronímico mais encontrado em Zacarias,
a comunidade ameaçada e a quem os garotos propagandas culpam pela
resistência ao resort. Mas este engodo logo será desfeito e toda Maricá
reconhecerá que se não fosse à resistência destes bravos brasileiros
nós já estaríamos sem sistema lagunar e água em nosso lençol freático.
Aqui usamos água de poço.
Este problema não é só do nosso município, mas do estado e de todo
o Brasil. Onde estão o Ministério Publico Federal, a Policia Federal,
a Advocacia Geral da União. O que se esconde por trás de tudo isto?
Márcia Benevides Leal, cidadã de Maricá. |