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A Primavera chegou
e o poeta chora. Em vez das flores pedidas para enfeitar a cidade,
deram-lhe cimento, brita, areia e água. Para tristeza maior, sentado
à escadaria para o Nada do anfiteatro, vazio e abandonado de espetáculos,
contempla a destruição da praça da infância, cheia de árvores, de
sombras, de terra e vida, aonde crianças, velhos e jovens iam curtir
a fresca das noites; conversar nos bancos; olhar luas e estrelas.
A praça agora está apenas nos quadros pregados na parede de um restaurante,
que bem poderiam ter inspirado os urbanistas. Os quadros iriam oxigenar
a imaginação deles se tivessem olhos para ver as obras de arte local
e espírito para respeitar o passado.
Mas tudo desceu
quadrado: piso em ripado de madeira sob arcos de concreto, bloquetes
geométricos de concreto com coloridos sem graça. Nenhuma pedra de
mão, nenhum pe-de-moleque. Velhas árvores nem sequer foram cuidadas.
Melhor arrancar do que tratar, talvez reflexo de como se cuida do
povo. O urbanista reflete a postura governamental: cimenta a terra,
idolatra o industrializado, apaga o passado para constar na placa
de inauguração como o novo Dono do Mundo.
Nenhuma flor, poeta,
na praça dos antepassados, que ainda lá de cima vêem o velho prédio
centenário cercado por modernoso espelho d'água, circundando sua
base em pedra. Restaram as palmeiras e uma que outra árvore, o que
sobrou do desmatamento para se criar o galpão pré-moldado das máquinas
computadorizadas e a escadaria do Nada do anfiteatro.
Na praça se bate
o sol de chapa. As sombras foram expulsas, o verde fugiu. O sol
esquenta o cimento, mas não consegue secar as lágrimas do poeta,
que pedia mais flores, flores singelas como um tapete de grama-amendoim,
o fedegoso-rasteiro ("Maio" popular das restingas), a vedélia de
beira-mar. Há tantas para enfeitar os olhos do poeta, mas preferiram
cimentar tudo. Apagam, aos poucos, até mesmo as marcas do passado,
para se eternizarem apenas na poeira. E o choro do poeta, impotente
contra a industrialização do urbanismo, ainda assim fertiliza a
flor da esperança. Outras gerações, sobre o pó dos destruidores,
em meio ao concreto, vão cuidar da flor que muda o mundo. E mais
uma vez o autoritarismo vai voar com o vento.
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