25/09/2006
Jornal Leitores & Livros
Ed. Luiz Gadelha
O jardim e o poeta
Luiz Gadelha

A Primavera chegou e o poeta chora. Em vez das flores pedidas para enfeitar a cidade, deram-lhe cimento, brita, areia e água. Para tristeza maior, sentado à escadaria para o Nada do anfiteatro, vazio e abandonado de espetáculos, contempla a destruição da praça da infância, cheia de árvores, de sombras, de terra e vida, aonde crianças, velhos e jovens iam curtir a fresca das noites; conversar nos bancos; olhar luas e estrelas. A praça agora está apenas nos quadros pregados na parede de um restaurante, que bem poderiam ter inspirado os urbanistas. Os quadros iriam oxigenar a imaginação deles se tivessem olhos para ver as obras de arte local e espírito para respeitar o passado.

Mas tudo desceu quadrado: piso em ripado de madeira sob arcos de concreto, bloquetes geométricos de concreto com coloridos sem graça. Nenhuma pedra de mão, nenhum pe-de-moleque. Velhas árvores nem sequer foram cuidadas. Melhor arrancar do que tratar, talvez reflexo de como se cuida do povo. O urbanista reflete a postura governamental: cimenta a terra, idolatra o industrializado, apaga o passado para constar na placa de inauguração como o novo Dono do Mundo.

Nenhuma flor, poeta, na praça dos antepassados, que ainda lá de cima vêem o velho prédio centenário cercado por modernoso espelho d'água, circundando sua base em pedra. Restaram as palmeiras e uma que outra árvore, o que sobrou do desmatamento para se criar o galpão pré-moldado das máquinas computadorizadas e a escadaria do Nada do anfiteatro.

Na praça se bate o sol de chapa. As sombras foram expulsas, o verde fugiu. O sol esquenta o cimento, mas não consegue secar as lágrimas do poeta, que pedia mais flores, flores singelas como um tapete de grama-amendoim, o fedegoso-rasteiro ("Maio" popular das restingas), a vedélia de beira-mar. Há tantas para enfeitar os olhos do poeta, mas preferiram cimentar tudo. Apagam, aos poucos, até mesmo as marcas do passado, para se eternizarem apenas na poeira. E o choro do poeta, impotente contra a industrialização do urbanismo, ainda assim fertiliza a flor da esperança. Outras gerações, sobre o pó dos destruidores, em meio ao concreto, vão cuidar da flor que muda o mundo. E mais uma vez o autoritarismo vai voar com o vento.