14/09/2006
Recebido por mail de Roberto L..
DE PERTO NINGUÉM É  SIMÉTRICO

 

    Todo mundo fala da violência, criminalidade. Mas eu nunca pensei em sair do Rio de Janeiro. Pode ser porque eu amo muito essa cidade... ou então, me acostumei, cansei de me indignar... Mas hoje eu li no jornal O Globo que a Denise Frossard subiu nas pesquisas. Subiu pouquinho, é verdade, mas, de repente, CAIU A FICHA.

- Será que só eu que estou enxergando? Ou a memória das pessoas é tão curta assim?

Não faz muito tempo, eu e outros pais e mães de deficientes estávamos acompanhando no Congresso a tramitação do projeto de lei 5.448/2001 do Deputado Nelson Pelegrino. Estava a três anos passando de uma comissão para a outra, sem ir á votação. Esse projeto era muito importante para nós, porque só quem tem um filho deficiente (deficiente auditivo, visual, portador de Síndrome de Down ou de paralisia cerebral) sabe o que é ter uma entrevista com a Diretora de uma escola e ouvir ela dizer que o meu  filho não vai se sentir bem numa turma de crianças “normais”. Ou aquela conversa mole de que “você sabe, os deficientes mais agressivos que as outras crianças”, “a gente bem que gostaria mas, os pais dos outros alunos podem querer tirar o filho da escola”, ‘a gente já fez essa experiência  uma vez e não deu certo”...

O nome disse é PRECONCEITO e o objetivo da lei era dizer que quem pratica este tipo de DISCRIMINAÇÃO, numa escola, clube, hotel, restaurante, etc., estava cometendo um CRIME e poderia ser punida.

Em 2004, o projeto chegou nas mãos da Juíza Frossard, na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, que é quem decide se os projetos podem ser votados ou não. E o que a Juíza fez?Ela simplesmente REJEITOU o projeto de Lei, defendendo que ele nem fosse à votação, que ele tivesse sua tramitação INTERROMPIDA.

E qual foi a razão da deputada? Ela disse que não podia ser a favor de punir a discriminação com os deficientes porque o preconceito contra deficientes físicos e portadores de outras doenças como câncer e AIDS era NATURAL nos seres humanos. Que as pessoas não podiam controlar este tipo de preconcento por causa do “ INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA” que toda pessoa ‘NORMAL’ possui. E que ninguém poderia ser obrigado pela lei a “suportar a doença e a deformidade alheia, contrariando a sua própria natureza”.  Que a lei não pode obrigar ninguém a “ser herói” e “apertar a mão de uma pessoa portadora de lepra ou de AIDS”

É isso mesmo que vocês acabaram de ler. A doutora Juíza escreveu que o preconceito contra os deficientes não deveria ser crime porque “a deformidade física fere o senso estético do ser humano” e “afronta a sensibilidade” de quem é “normal, saudável e simétrico”.

Os  protestos das Associações de Deficientes e da sociedade foram tantos que, em 2005, a Juíza teve que recuar e aprovar o projeto de lei. TAMPOU O NARIZ, FECHOU OS OLHOS para não ver as “deformidades alheias” e aprovou – afinal, ela queria ser candidata ao governo do estado.  Do mesmo jeito que ela ia fazer se entrasse  na minha casa. Ia, olhar para o meu filho, dar aquele sorriso cínico, e FINGIR QUE NÃO ESTÁ VENDO NADA.

 

Mas o que ela escreveu está lá. Qualquer um pode ler. É só ir no site do Congresso e ler. É o documento mais violento já escrito contra  portadores de AIDS, hansenianos e deficientes já escrito por um político brasileiro. Os argumentos da Juíza são os mesmos  apresentados por seus colegas JUÍZES DA ALEMANHA NAZISTA para aprovar as leis de proteção da raça ariana, autorizando o extermínio de deficientes físicos e mentais, ciganos e judeus. Milhões de pessoas foram “retiradas de circulação” e depois EXTERMINADAS em virtude da “repulsa natural” e do “instinto de sobrevivência” dos alemães puros, saudáveis, normais e simétricos, contra os aleijados e as raças inferiores.

Chega, já falei demais. Eu disse que tinha caído a ficha e caiu. Como é que alguém que tem tanta violência e preconceito dentro do seu coração vai ser capaz de acabar com a violência no Rio de Janeiro?

Deus nos proteja e ao Rio de Janeiro desta senhora Juíza, de seu sorriso cínico e do preconceito que guarda no coração.

PAI DO LUCAS

A íntegra do parecer da Sra Deputada Juíza está em: http://www.camara.gov.br/sileg/integras/241756.htm