|
Estimam-se, atualmente
tramitando em nossos tribunais, cerca de dez mil processos contra
médicos por alegadas más práticas no exercício profissional. Grande
parte deles inclui a argüição de responsabilidade civil. Se não
houver um trabalho bem articulado, inclusive da própria sociedade,
os médicos, num futuro não muito distante, vão trabalhar pressionados
por uma mentalidade de inclinação litigiosa, voltada para a compensação,
toda.vez que os resultados não forem absolutamente perfeitos.
Antes de tudo, há de se ressaltar dois fatos que não podiam passar,
despercebidos numa discussão como essa: primeiro, nem todo mau resultado
é sinônimo de erro médico; segundo, não se deve omitir que a má
pratica médica exista e que os pacientes deixem de ser justamente
reparados.
É também importante salientar que a boa prática médica é, sempre
e sempre, decorrente de um equilíbrio entre as disponibilidades
da técnica e da ciência e a arte do bom relacionamento médico-paciente.
Nem sempre a solicitação de exames de alta complexidade é tudo.
Isso não quer dizer que se deva deixar para trás o que existe de
mais moderno e mais apropriado no atendimento às necessidades do
paciente. Mas que toda essa "medicina armada" quando é
exercida sem os devidos cuidados de um bom relacionamento profissional
- notadamente quando há um resultado adverso, não evita que o paciente
busque compensação nos tribunais.
Entre outros cuidados, frente às possíveis alegações de má prática
médica, está a obrigação de o médico registrar os eventos e as circunstâncias
do atendimento e informar aos pacientes ou seus familiares toda
vez que alguma complicação do tratamento ou da prática propedêutica
venha ocorrer, seja ou não esse resultado motivado por erro profissional.
Manter o diálogo amistoso e permanente com o paciente ou seus familiares,
dando-lhes as informações e as justificativas necessárias sobre
o dano e sobre as iniciativas que serão tomadas em conseqüência
do resultado inesperado.
Se aberto o processo ético ou judicial, mesmo que o seu andamento
seja demorado, não deve ser negligenciado. A situação de revel é
muito comprometedora e desfavorável. Mais: o médico não pode considerar
a existência de uma alegação de má prática como sinônimo de incompetência
profissional. Nem, por outro lado, deve considerar o processo uma
coisa sem importância. Deve ter em todos os casos um procurador
legal, sabendo que as coisas do Direito são relativas à especialidade
e às atividades do advogado.
Os depoimentos das testemunhas e dos especialistas são muito importantes
e constituem-se em evidências que certamente serão consideradas
no julgamento.
Em alguns paises, como nos Estados Unidos, diante da possibilidade
de maiores prejuízos emocionais ou financeiros e do risco de condenação
no julgamento, é comum as partes serem motivadas a um acordo fora
do tribunal. Consideram que nem sempre é recomendável esperar pelo
"dia de julgamento" para provar que não se cometeu nenhum
erro. Mesmo assim, isso e um decisão muito pessoal, devendo ser
analisada caso a caso e sempre com a orientação de um procurador
jurídico.
Lá, também, dá-se muito valor ao depoimento dos peritos médicos,
levados por ambas as partes e representado por especialistas no
assunto em litígio. Ainda que em alguns casos surjam os chamados
"peritos profissionais" que sempre estão testemunhando
em tribunais e sejam bastante conhecidos dos juizes e advogados
-, em tese, podem eles contribuir decisivamente nos aspectos técnicos
da questão, mesmo que o mérito da causa em análise seja da livre
convicção do magistrado. São chamados de "assistentes técnicos",
agora disciplinados pelas inovações da Lei n° 8.455, de 24 de agosto
de 1992. Excluiram-se desses assessores a suspeição e os impedimentos,
a não ser por "evidentes e especiais motivos"; e durante
a audiência de instrução e julgamento o juiz poderá apenas inquiri-los,
optando pelos esclarecimentos diretos.
O pior de tudo é que as possibilidades crescentes de queixas contra
má pratica já começa a perturbar emocionalmente o médico, e que
a sociedade passou a entender que isso vai redundar no aumento do
custo financeiro para o profissional e para o paciente. Além disso,
também se começa a notar, entre outros, a aposentadoria precoce,
o exagero dos pedidos de exames subsidiários mais sofisticados e
a omissão em procedimentos de alto risco, contribuindo mais e mais
para a consolidação da "medicina defensiva". Essa posição
defensiva além de constituir um fator de diminuição da assistência
aos pacientes de maior risco, o expõe a uma série de efeitos secundários
ou o agravamento da saúde e dos níveis de vida do conjunto da sociedade.
Mesmo que a criação dos fundos mutuários coletivos para ressarcimento
de dano seja uma alternativa viável e honesta, isto não contribui
para a melhoria das relações médico-paciente nem para a qualidade
da assistência médica. Apenas protege os interesses patrimoniais
do médico e do cliente, o que, em parte, já é alguma coisa.
Não será também com o protecionismo do chamado "espírito de
corpo" que tal questão será resolvida. Infelizmente os erros
existem e os pacientes não podem ser mais vitimas do que são, em
conseqüência dos danos causados por essa forma de má prática, principalmente
quando ela traz o traço indelével da negligência e da imprudência.
É necessário que se enfrente tais situações com dignidade e respeito,
dentro das regras que fundamentam o estado de direito, sem usar
de expedientes que no fundo estão maculados pela fraude e pela má-fé.
Por fim, não é demais repassar sempre para a sociedade que, além
da má prática médica, existem outras causas que favorecem o resultado
adverso, como as péssimas condições de trabalho e a penúria de meios
indispensáveis no tratamento das pessoas. Afinal de contas, os pacientes
não estão morrendo nas mãos dos médicos, mas nas filas dos hospitais
sem leitos, a caminho dos ambulatórios sem remédios, nos ambientes
miseráveis onde moram e na iniqüidade da vida que levam. Nesse cenário
perverso de trabalho é fácil entender o que vem acontecendo no exercício
da medicina, onde se multiplicam os danos e as vítimas, e onde é
fácil culpar os médicos. Cabe mea culpa universal.
|