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A poluição e o saneamento
básico são problemas de toda sociedade que não devem ser discutidos
apenas entre moradores, ongs, governos e instituições públicas.
O jornal O Informativo, da Associação Comercial de Maricá, em sua
última edição (nº 124), mostra que o empresariado do município também
deve se engajar contra o assoreamento e a poluição no complexo lagunar,
um dos mais importantes do país. A ACM, ao destacar, na primeira
página, que “A lagoa de Marica está morrendo!!!”, enfatiza a necessidade
de se implantar uma ação efetiva de melhoria das águas para se evitar
que a cidade seja futuramente invadida pelo mau cheiro e insetos
provenientes de um imenso lodaçal, afetando também o comércio.
Não se deve esquecer
de uma crônica de Hermilo Borba Filho (1917-1976) no Diário de Pernambuco,
em 1975 (“Morte em Palmares”). O escritor e dramaturgo mostrava
a morte na cidade de Palmares, “uma terrível devastação no rio Uma,
fonte de alimentação de toda uma população ribeirinha, que se vê
privada de uma das suas raras riquezas. A cidade fede, o mau cheiro
invade tudo, penetrando nas igrejas, nas casas comerciais, nos bares,
nas residências e todos são impotentes”. Hermilo Borba Filho encerrava
aquela crônica mostrando que “no meio do Uma envenenado, em cima
de uma pedra, envolto pela fedentina, um cágado resiste, ao sol
e à chuva, paciente, esperando que o rio fique limpo e que volte
as primeiras piabas (...)”.
O grito de alerta
da ACM vem de encontro a quem navega pela internet e descobre que
as águas não estão para peixe no complexo lagunar de Maricá. Desde
2004 paira uma ameaça sobre o ecossistema local com o projeto Maricá-Vezena
do Estado do Rio de Janeiro, que vem sendo utilizado como captador
de verbas, enquanto cresce a poluição, com dejetos in natura, diminui
o espelho de água e as margens são tomadas por taboas, além das
águas serem infestadas por jigogas.
“O projeto é mais
importante do que qualquer verba de royalties porque se trata de
um patrimônio infindável que trará desenvolvimento à região para
sempre”. A frase é do atual prefeito, em matéria publicada no jornal
O Globo, de dezembro de 2004, já reeleito, quando anunciava o início
das obras no ano seguinte para “despoluir as lagoas da cidade e
torná-las navegáveis e interligadas”. No entanto, apenas em maio
de 2005, o governo estadual liberava R$ 5,5 milhões para revitalização
e recuperação do complexo lagunar.
Em abril de 2006,
a página da Prefeitura adiava o início para junho: “Serla dará início
à Revitalização das Lagoas em junho”. Segundo a Prefeitura, “a construção
das pontes faz parte do projeto “Maricá-Veneza do Estado do Rio
de Janeiro” que vai tornar as lagoas navegáveis, com a construção
de um molhe no Canal de Ponta Negra, com sua devida dragagem, que
está em fase de estudo de impacto ambiental, com previsão de liberação
para o final deste ano. A dragagem de todos os canais que interligam
as lagoas, e a dragagem do Canal de Itaipuaçu”.
E em julho, a Prefeitura
já anunciava uma nova conquista: “Ministro do Turismo recebe projeto
de Marica”. Segundo o governo municipal, o prefeito “em audiência
com o Ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, e a Deputada Federal,
Elaine Costa, em Brasília, apresentou o projeto Marica-Veneza do
Estado do Rio de Janeiro, deixando o ministro muito bem impressionado,
obtendo a promessa de tornar possível sua execução”. O site anunciava
que a deputada teria apresentado uma emenda de mais R$ 2 milhões
para o município.
O navegador fica
mareado com tantos milhões liberados sem que haja qualquer mudança
na lagoa e as tão propaladas obras, marcadas para começar no ano
passado sequer se iniciaram. A ACM e o jornal O Informativo demonstram
a mesma preocupação, revelando através de notas, o quanto já se
falou no assunto e nada se fez, a não ser aumentar a poluição, o
assoreamento e a redução do espelho de água.
Como o tempo é de
eleição, é bom que os candidatos deixem de boiar nos clichês de
sempre e abram os olhos para o problema, que afeta indireta ou diretamente
o famoso quarteto de caça-voto: saúde, educação, violência e melhores
salários. Com uma lagoa podre, não haverá mandado na Assembléia
que consiga desintoxicar suas águas. E aí nem só os peixes sumirão
do mapa.
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