24/07/2006
Jornal Leitores & Livros
Ed. Luiz Gadelha
LAGOA, SORVEDOURO DE VERBAS
Luiz Gadelha

 

A poluição e o saneamento básico são problemas de toda sociedade que não devem ser discutidos apenas entre moradores, ongs, governos e instituições públicas. O jornal O Informativo, da Associação Comercial de Maricá, em sua última edição (nº 124), mostra que o empresariado do município também deve se engajar contra o assoreamento e a poluição no complexo lagunar, um dos mais importantes do país. A ACM, ao destacar, na primeira página, que “A lagoa de Marica está morrendo!!!”, enfatiza a necessidade de se implantar uma ação efetiva de melhoria das águas para se evitar que a cidade seja futuramente invadida pelo mau cheiro e insetos provenientes de um imenso lodaçal, afetando também o comércio.

Não se deve esquecer de uma crônica de Hermilo Borba Filho (1917-1976) no Diário de Pernambuco, em 1975 (“Morte em Palmares”). O escritor e dramaturgo mostrava a morte na cidade de Palmares, “uma terrível devastação no rio Uma, fonte de alimentação de toda uma população ribeirinha, que se vê privada de uma das suas raras riquezas. A cidade fede, o mau cheiro invade tudo, penetrando nas igrejas, nas casas comerciais, nos bares, nas residências e todos são impotentes”. Hermilo Borba Filho encerrava aquela crônica mostrando que “no meio do Uma envenenado, em cima de uma pedra, envolto pela fedentina, um cágado resiste, ao sol e à chuva, paciente, esperando que o rio fique limpo e que volte as primeiras piabas (...)”.

O grito de alerta da ACM vem de encontro a quem navega pela internet e descobre que as águas não estão para peixe no complexo lagunar de Maricá. Desde 2004 paira uma ameaça sobre o ecossistema local com o projeto Maricá-Vezena do Estado do Rio de Janeiro, que vem sendo utilizado como captador de verbas, enquanto cresce a poluição, com dejetos in natura, diminui o espelho de água e as margens são tomadas por taboas, além das águas serem infestadas por jigogas.

“O projeto é mais importante do que qualquer verba de royalties porque se trata de um patrimônio infindável que trará desenvolvimento à região para sempre”. A frase é do atual prefeito, em matéria publicada no jornal O Globo, de dezembro de 2004, já reeleito, quando anunciava o início das obras no ano seguinte para “despoluir as lagoas da cidade e torná-las navegáveis e interligadas”. No entanto, apenas em maio de 2005, o governo estadual liberava R$ 5,5 milhões para revitalização e recuperação do complexo lagunar.

Em abril de 2006, a página da Prefeitura adiava o início para junho: “Serla dará início à Revitalização das Lagoas em junho”. Segundo a Prefeitura, “a construção das pontes faz parte do projeto “Maricá-Veneza do Estado do Rio de Janeiro” que vai tornar as lagoas navegáveis, com a construção de um molhe no Canal de Ponta Negra, com sua devida dragagem, que está em fase de estudo de impacto ambiental, com previsão de liberação para o final deste ano. A dragagem de todos os canais que interligam as lagoas, e a dragagem do Canal de Itaipuaçu”.

E em julho, a Prefeitura já anunciava uma nova conquista: “Ministro do Turismo recebe projeto de Marica”. Segundo o governo municipal, o prefeito “em audiência com o Ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, e a Deputada Federal, Elaine Costa, em Brasília, apresentou o projeto Marica-Veneza do Estado do Rio de Janeiro, deixando o ministro muito bem impressionado, obtendo a promessa de tornar possível sua execução”. O site anunciava que a deputada teria apresentado uma emenda de mais R$ 2 milhões para o município.

O navegador fica mareado com tantos milhões liberados sem que haja qualquer mudança na lagoa e as tão propaladas obras, marcadas para começar no ano passado sequer se iniciaram. A ACM e o jornal O Informativo demonstram a mesma preocupação, revelando através de notas, o quanto já se falou no assunto e nada se fez, a não ser aumentar a poluição, o assoreamento e a redução do espelho de água.

Como o tempo é de eleição, é bom que os candidatos deixem de boiar nos clichês de sempre e abram os olhos para o problema, que afeta indireta ou diretamente o famoso quarteto de caça-voto: saúde, educação, violência e melhores salários. Com uma lagoa podre, não haverá mandado na Assembléia que consiga desintoxicar suas águas. E aí nem só os peixes sumirão do mapa.