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Se o
leitor tiver a curiosidade de consultar o mapa do Estado do Rio
de Janeiro, poderá observar que uma imensa restinga fechou um litoral
recortado – a partir de Arraial do Cabo e até Jacarepaguá – formando
uma série de lagoas. Este processo, de milhões de anos, continua
avançando: as baías de Sepetiba e da Ilha Grande um dia também serão
lagoas, barradas pela atual Restinga da Marambaia. Itaipuaçu, em
priscas eras, foi uma enseada que ao longo dos tempos se transformou
numa lagoa e, naturalmente aterrada, virou o que é hoje: uma imensa
baixada. Mas não é só isto: Itaipuaçu também é um imenso anfiteatro
formado pela Serra da Tiririca.
A baixada
de Itaipuaçu recolhe as águas pluviais que escorrem das encostas
que a contornam. Não há muito tempo, havia caminhos naturais para
estas águas, que culminavam por serem despejadas nos rios Bambu
e Itaocaia. Durante uma parte do ano as terras de Itaipuaçu viravam
imensos brejos e os antigos moradores conviviam bem com esta realidade:
tinham suas casas e roças nas encostas do morro e aproveitavam a
caça abundante no brejo.
Esta
convivência “pacífica” do homem com a natureza cessou com a implantação
dos loteamentos, cujas plantas foram traçadas a partir de levantamentos
aerofotogramétricos e não respeitaram as curvas de nível e os canais
de escoamento de águas. Com isto, a abertura de ruas e a ocupação
progressiva dos lotes levaram ao desvio ou obstrução de tais canais,
impedindo a drenagem natural dos terrenos. Os terrenos altos foram
os primeiros a serem comercializados e, enquanto a urbanização era
escassa, o problema dos alagamentos na época das chuvas incomodava,
mas era suportável. Quem tem casa em Itaipuaçu há mais de dez anos
lembra desta fase.
Mas Itaipuaçu
continua crescendo e matérias convenientemente publicadas em jornais
de grande circulação, em meio a anúncios de terrenos e casas, têm
incentivado a vinda para este paraíso. Acontece que o estoque de
bons terrenos disponíveis está praticamente esgotado. Se a esmagadora
maioria dos corretores de imóveis que operam em Itaipuaçu é conscienciosa,
incapaz de empurrar para seu cliente um terreno ou imóvel
sabidamente alagável sem, pelo menos, avisá-lo que é esta característica
que o torna mais barato, há os inescrupulosos. Vai aumentando, assim,
o número de incautas vítimas que pensaram estar realizando o seu
sonho da casa própria e se vêem às voltas com o pesadelo da água
subindo sem cessar, toda vez que cai uma chuva mais forte.
Assim
como a atuação da prefeitura em Itaipuaçu era precária e a drenagem
de terrenos sequer era cogitada – os alagamentos ocorriam em áreas
até então desertas – os aterramentos para abertura de ruas e construção
de casas foi feito sem observar o caminho das águas, que passou
a ser mais e mais bloqueado, e diminuindo a área de expansão: os
“lagos” passaram a ser menores e, em compensação, mais profundos.
O problema
vai além, portanto, dos limites da atuação exclusiva da prefeitura,
envolvendo também os proprietários e construtores de imóveis. Estes
precisam observar como fazer seus aterros sem obstruir os escoamentos
naturais e criar alternativas, quando necessário.
O título
é de filme-catástrofe, mas esta matéria nada tem de ficção. Ao contrário:
diz respeito à realidade trágica de uma significativa parcela de
moradores de Itaipuaçu.
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