27/12/2005
 
EXATO
Um Jornal de Itaipuaçu, Maricá

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Alberto Gentile

 

Se o leitor tiver a curiosidade de consultar o mapa do Estado do Rio de Janeiro, poderá observar que uma imensa restinga fechou um litoral recortado – a partir de Arraial do Cabo e até Jacarepaguá – formando uma série de lagoas. Este processo, de milhões de anos, continua avançando: as baías de Sepetiba e da Ilha Grande um dia também serão lagoas, barradas pela atual Restinga da Marambaia. Itaipuaçu, em priscas eras, foi uma enseada que ao longo dos tempos se transformou numa lagoa e, naturalmente aterrada, virou o que é hoje: uma imensa baixada. Mas não é só isto: Itaipuaçu também é um imenso anfiteatro formado pela Serra da Tiririca.

A baixada de Itaipuaçu recolhe as águas pluviais que escorrem das encostas que a contornam. Não há muito tempo, havia caminhos naturais para estas águas, que culminavam por serem despejadas nos rios Bambu e Itaocaia. Durante uma parte do ano as terras de Itaipuaçu viravam imensos brejos e os antigos moradores conviviam bem com esta realidade: tinham suas casas e roças nas encostas do morro e aproveitavam a caça abundante no brejo.  

Esta convivência “pacífica” do homem com a natureza cessou com a implantação dos loteamentos, cujas plantas foram traçadas a partir de levantamentos aerofotogramétricos e não respeitaram as curvas de nível e os canais de escoamento de águas. Com isto, a abertura de ruas e a ocupação progressiva dos lotes levaram ao desvio ou obstrução de tais canais, impedindo a drenagem natural dos terrenos. Os terrenos altos foram os primeiros a serem comercializados e, enquanto a urbanização era escassa, o problema dos alagamentos na época das chuvas incomodava, mas era suportável. Quem tem casa em Itaipuaçu há mais de dez anos lembra desta fase. 

Mas Itaipuaçu continua crescendo e matérias convenientemente publicadas em jornais de grande circulação, em meio a anúncios de terrenos e casas, têm incentivado a vinda para este paraíso. Acontece que o estoque de bons terrenos disponíveis está praticamente esgotado. Se a esmagadora maioria dos corretores de imóveis que operam em Itaipuaçu é conscienciosa, incapaz de empurrar para seu cliente um terreno ou imóvel sabidamente alagável sem, pelo menos, avisá-lo que é esta característica que o torna mais barato, há os inescrupulosos. Vai aumentando, assim, o número de incautas vítimas que pensaram estar realizando o seu sonho da casa própria e se vêem às voltas com o pesadelo da água subindo sem cessar, toda vez que cai uma chuva mais forte.

Assim como a atuação da prefeitura em Itaipuaçu era precária e a drenagem de terrenos sequer era cogitada – os alagamentos ocorriam em áreas até então desertas – os aterramentos para abertura de ruas e construção de casas foi feito sem observar o caminho das águas, que passou a ser mais e mais bloqueado, e diminuindo a área de expansão: os “lagos” passaram a ser menores e, em compensação, mais profundos.

O problema vai além, portanto, dos limites da atuação exclusiva da prefeitura, envolvendo também os proprietários e construtores de imóveis. Estes precisam observar como fazer seus aterros sem obstruir os escoamentos naturais e criar alternativas, quando necessário.

O título é de filme-catástrofe, mas esta matéria nada tem de ficção. Ao contrário: diz respeito à realidade trágica de uma significativa parcela de moradores de Itaipuaçu.