01/08/2005
VELHAS PRAGAS ESTÃO DE VOLTA
Luiz Gadelha

 

O denuncismo está fertilizando o país para que brotem velhas pragas. Cultivadas nos cancros incompetentes e prepotentes, ainda não extirpados do colonialismo, do coronelismo e da ditadura, estão florescendo no charco político e até governamental. E muda dessa praga já floresce em Maricá, plantada na horticultura municipal.

A “flor” da praga é a carta enviada pela Prefeitura a todos os comerciantes que anunciaram na edição de junho-agosto da revista MaricáJá. O documento, assinado pela assessora de Comunicação, Bernardete Barroso, é uma flagrante intimidação aos empresários para não mais anunciarem na revista e uma interferência sobre suas escolhas da mídia em que anunciam suas empresas. A Prefeitura está ferindo o princípio básico de uma democracia: o direito da liberdade de escolha, a que nenhum governante ou seu assecla tem o direito de contestar.

O documento pode desde já constar de uma futura biblioteca sobre as atrocidades da ditadura no município, já que não se deve esquecer que com o mesmo método foram extintos grandes e importantes jornais do Rio de Janeiro nos anos 60. O caso mais conhecido é o do Correio da Manhã do qual a ditadura retirou todos os anúncios governamentais numa alusão aos empresários de que também deviam fazer o mesmo. Como outros documentos daquela mesma época, ainda tem a igual característica de ser pessimamente escrito. (Afinal, os ditadores nunca gostaram muito da cultura e seus asseclas e aspones mal sabem escrever).

A atitude municipal é uma represália à revista que publicou a reportagem Araruama- O bom exemplo dos vizinhos sobre outro município que está investindo fortemente os recursos dos royalties em turismo, lazer, cultura e melhoria urbana. A reportagem ainda mostra um quadro demonstrativo sobre os dois municípios em que destaca a pouca diferença de verba advinda do petróleo repassada a uma e outra cidade.

Na contestação aos dados, que não consegue fazer por incompetência do escrevente, o documento se envereda por anunciar crescimentos em arrecadação de impostos; se vangloria de uma saúde municipal “quase boa” e de realizações no Turismo que abarcam apenas o Centro de Informações Turísticas, anunciado para ser mantido 24 horas, mas que tem um horário tipicamente burocrático fechando aos sábados, domingos e feriados, justamente quando há mais turistas.

Mais do que um mecanismo de pressão sobre empresários, o documento é um achincalhe à liberdade perpetrado pela ditadura coronelista que até pode se estender mais fortemente, com outros instrumentos, a toda imprensa do município, aos professores, aos médicos, aos funcionários públicos e, quem sabe, à população. Extirpar tais pragas é preciso. E a primeira ação é não se acovardar diante da pressão, que tornará cidadãos com seus deveres cumpridos e impostos pagos feridos em seus direitos pela rataria, que sobrevive nessas velhas pragas.

(O jornal Leitores & Livros, que não possui nenhum anunciante sediado no município – a única vez em que tentou apoio da Prefeitura, como órgão divulgador da cultura, foi tratado como imbecil -, se solidariza com todos aqueles atingidos pela violência ditatorial e coronelista)

 

Luiz Gadelha, jornalista (MT 13.335), é editor do jornal Leitores & Livros, que circula há mais de seis anos no Rio de Janeiro e é considerado no país e exterior com articulistas de todo o Brasil