Como vem acontecendo em tantas outras localidades com riqueza ecológica
e
paisagística, Maricá (RJ) poderá ficar sem um de seus principais
roteiros
ecoturísticos e históricos: a Pedra de Itaocaia.
Estrangulada pela especulação imobiliária que espalha muros e cercas
ao
redor deste remanescente florestal, a entrada da trilha para esta
elevação
ameaça fechar-se de vez impedindo o acesso de ecoturistas, pesquisadores
e
fiscais ambientais à área.
O guia ecológico e coordenador do grupo de caminhadas ECOANDO, Cássio
Garcez, vem acompanhando o processo de cerceamento do acesso à pedra
há
anos: "se não for tomada uma atitude urgente contra esta agressão,
existe o
risco iminente do município perder de vez um de seus principais
roteiros
ecoturísticos", salienta o guia. Cássio, que também é planejador
ambiental,
esteve no local em maio deste ano e atestou que falta muito pouco
para a
única entrada pública da trilha desaparecer, engolida por construções
particulares. Uma das propriedades, segundo ele, chega até a invadir
o final
de uma estrada.
Garcez lembra que, além da importância ecoturística, o local apresenta
também riqueza histórica, científica e cultural, aumentando a gravidade
do
iminente fechamento. Itaocaia foi palco de uma tenebrosa história,
narrada
pelo naturalista Charles Darwin - autor da revolucionária teoria
da evolução
das espécies -, em sua visita, no século XIX, à fazenda que ainda
se mantém
aos pés da imensa pedra. Do cume deste monolito, uma escrava em
fuga
lançou-se no precipício, após ter jogado a filha do fazendeiro no
tacho de
melado, por vingança e ciúme. Os restos mortais da criança, vítima
deste
crime passional, encontram-se num nicho da capela da citada fazenda.
Também,
segundo Darwin, existiu no alto da Pedra de Itaocaia um quilombo,
que
posteriormente foi desbaratado por fazendeiros.
A proximidade de uma das mais importantes unidades de conservação
da região,
o Parque Estadual da Serra da Tiririca, também confere ao monolito
de
Itaocaia grande importância no cenário ecológico. Curiosamente mantida
fora
dos limites deste Parque - apesar de contar com as mesmas características
geomorfológicas e fitogeográficas -, Itaocaia possui parte de sua
área
coberta por Mata Atlântica em razoável estado de conservação, apresentando
espécies raras e ameaçadas de extinção, como o caiapiá mirim (Dorstenia
caiapia).
Segundo Cássio - que já trabalhou voluntariamente para a prefeitura
de
Niterói no mapeamento e proteção de acessos a trilhas neste município
-
seria importante que a prefeitura de Maricá implementasse trabalho
de
demarcação e salvaguarda de acessos a trilhas e caminhos, não apenas
na
Pedra de Itaocaia mas em todos os roteiros de interesse ecoturístico,
científico e histórico dentro dos limites municipais. Caso isso
não seja
feito imediatamente, Maricá estará indo na contramão de uma tendência
mundial de usufruto sustentável dos remanescentes de natureza silvestre,
como a implementada pelo ecoturismo, privando os moradores e visitantes
do
enriquecedor contato direto com o patrimônio ecológico/histórico/cultural
do
local.
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