|
Lucas, como é sabido, é considerado o evangelista da misericórdia,
ou como o evangelista que marcou toda a tradição que nos entrega
o pensamento do amor infinito de Deus que se manifestou em Jesus
Cristo. Nenhum dos evangelistas percebeu como ele a sensibilidade
do amor do Pai, que se deixa sentir de maneira especial entre os
pobres, entre os que sofrem, entre os marginalizados. Não é difícil
constatar nesse evangelho a preocupação de Jesus pelos fracos, pelos
débeis, pelas viúvas, pelos órfãos, pelos pecadores, e pelas mulheres.
Não é acidental neste Evangelho o fato de que apareçam nele textos
que não encontramos nos outros Evangelhos. O da "parábola
do pai misericordioso", (que geralmente designamos, com menos
propriedade, como a parábola do filho pródigo), ou a do "bom
samaritano".
A Paixão e a morte de Jesus são uma verdadeira revelação: manifestação
da misericórdia do Pai. Só quem compreendeu uma atitude tão comovedora,
como a que nos traz este Evangelho na parábola do pai misericordioso,
poderá entender por que o evangelista olhou assim o mistério do
sofrimento e da morte de Jesus. Lucas concebeu o relato da Paixão
como uma contemplação de Jesus. Não faz sentido, por isso, a insistência
na doutrina medieval sobre a "satisfação". É incompatível
com a fé a idéia de um Deus insensível que sacrifica Seu Filho como
um cordeiro ofertado para aplacar Sua divindade ferida e irada.
Como admitir Deus como uma fera acuada pelo pecado da humanidade?
Por isso este relato é um convite ao leito a aproximar-se do Senhor,
a seguí-Lo, a levar com Ele a "cruz" de cada dia (9,23).
Também nos convida a prestar atenção no sangue dos mártires que
acompanharam o exemplo de Jesus na história humana. O esvaziamento
(kenosis) até a humanidade total, o sofrimento com causa, em solidariedade
extrema, nos fazem reconhecer um Jesus que não foge à Sua condição
humana.
Na palavra que dirige na cruz ao malfeitor arrependido: "hoje
mesmo estarás Comigo no paraíso", lembramos esse "hoje"
que nos transporta a Lucas 4,21, quando na sinagoga de Nazaré, Jesus
declara que "hoje se cumpriu" a passagem de Isaías 61,1-2,
que acabava de ler. O tempo se cumpriu e Ele, que veio para anunciar
a liberdade aos cativos e a vista aos cegos, para pôr em liberdade
os oprimidos e para proclamar o ano da Graça do Senhor, aí está.
Cumpriu Sua missão, porque morreu pendurado da cruz, como Mártir
do Reino de Deus, mas seguirá vivendo entre nós, ressurreto, e nós
o reconheceremos. O testemunho (martyria) mais chocante da causa
do Reino de Deus, na missão de Deus cumprida sem o uso dos atributos
divinos, é encontrado em Jesus. O mesmo que foi chamado pelos pais
da Igreja Antiga (primeiros líderes), de "verdadeiro homem
e verdadeiro Deus" (Credos e Confissões da Igreja Antiga).
O Reino não se conquista sem a cruz, é o que nos diz a Páscoa, ou
o que deveria dizer! A páscoa dos cristãos é a Páscoa da Ressurreição.
A morte, assim, é a Ressurreição conquistada, a Vida brota das sepulturas.
"Eu sou a ressurreição e a vida...". A Paixão, finalmente,
nos convida a refletir sobre a causa do Homem de Nazaré, Mártir
do Reino, morto, ressuscitado e glorificado pelo Pai.
Tomé duvidou da ressurreição, (João 20,24), Jesus lhe disse, quando
o mesmo conferiu Suas feridas: "Porque viste, creste, felizes
os que não viram e creram!".
Que isso nos faça Felizes!
Em Seu santo nome,
|