Muita gente fala em reveilon mas, não sabe o seu significao.Após
muitas pesquisas , encontrei no Jornalista
Ignácio e Loyola Brandão , a explicação.
Um homem não sabe o que é réveillon
IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
Naquela casa, à beira da praia, a família estava reunida,
como fazia todos os anos. Tinham passado o dia no mar,
estavam acalorados e, soltos nas poltronas, curtiam a
fresca da tarde, no horário de verão, tomando chá gelado,
tônica com limão, passando gelo sobre a testa, pela nuca.
A televisão ligada, começou o noticiário. As festas do
réveillon no Rio, no Edifício Chopin, no dúplex da família
Peres, nas mansões e nos condomínios, nas favelas, na
praia, a queima de fogos. Réveillon na Bahia, os trios
elétricos, os artistas, a movimentação nas praias. Réveillon
no Recife, em Porto de Galinhas; em Fortaleza (com Ciro
Gomes e sua musa, Patrícia Pillar, a primeira estrela
brasileira a ser, talvez, primeira-dama); em Manaus, nos
afluentes do Amazonas. Réveillon, réveillon, réveillon.
A palavra foi repetida à exaustão. Ninguém prestava muita
atenção, o assunto chegara às raias do paroxismo, nenhum
de nós suportava ouvir falar em milênio ou fim do século,
duas mentiras criadas pelo marketing, pela mídia, pelo
consumismo. Estávamos sonolentos, mas desligados, a quase
mil quilômetros de distância de nossas casas, trabalhos,
problemas, com as cabeças enevoadas, os estômagos cheios
de batidas de limão e maracujá, sorvidas a um sol de 40
graus. De repente, aquele senhor, pai de um parente, agregado
novo à família, homem simples, caladão, observador, interessado
em tudo, fez uma pergunta que nos fez dar um salto. Seu
filho é professor dos mais estimados em um colégio secundário
de alto porte em São Paulo e catedrático em uma universidade.
Ele, o pai, porém, manteve a simplicidade do quase caboclão,
que arregalou os olhos maravilhado ao se ver pela primeira
vez numa lancha, quebrando ondas do mar gelado de Arraial
do Cabo. A mesma simplicidade que o deixou em dúvida diante
de uma tabuleta: Pé de Cure. Aqui se fala assim? indagou
ele, um sulino. Não, respondemos. Aqui se erra assim,
a tabuleta quer dizer: pedicure. E ele compreendeu que
era um pedaço de outro Brasil, que FHC não conhece nem
compreende. Então, ele se voltou para nós e indagou:
- Podem me dizer onde é esse reveilon?
Não afrancesou a palavra - réveion. Pronunciou todas as
letras.
- Como?
- Onde vai ser esse reveilon de que falam tanto e para
onde todos querem ir?
Nossa ficha caiu. Devia ser o estado nebuloso em que nos
encontrávamos.
- Réveillon é uma festa, não é um lugar.
- Uma festa? ...
- É a passagem do ano.
- E por que dizem reveilon?
- Porque... porque ...
Nenhum de nós sabia. Perguntem de repente de onde vem
essa palavra, quando se meteu pela nossa linguagem coloquial.
Não se surpreendam se as pessoas abanarem as cabeças,
com expressão de dúvida. Talvez o escritor Deonísio da
Silva saiba responder, ele pesquisa de onde vêm as palavras.
- Sim, alguma explicação há de haver... afinal só se fala
nessa festa, todos querem ir ao reveilon. Não pode ser
uma simples festa de fim de ano. Afinal, no fim de ano,
a gente se abraça, deseja feliz ano-novo, bebe um copo
e espera pela vida que há de ser boa, mas que não vai
melhorar muito só porque um ano acabou e o outro começou.
A vida da gente, muitas vezes, muda mais no meio do ano.
Ou em março, ou outubro. Agora, esse reveilon parece uma
coisa mágica. Reveilon, reveilon. Como se fosse abracadabra.
Calou-se, como que envergonhado. Pilhou-se a falar, falar,
ele sempre calado e cauteloso.
- Desculpem... falei bobagem... vocês estão calados.
Estávamos. De vergonha. Não tínhamos o que dizer. Ele
estava certo. Que réveillon? Por que ficaram todos loucos?
O mundo está fora de si. Será que não basta um aperto
de mão, um abraço, um beijo, uma taça de vinho ou um copo
de cerveja erguidos num brinde suave e terno, cheio de
sinceridade? Não basta querer, delicadamente, desejar,
como estou desejando a vocês, leitores: feliz ano-novo?
Vamos continuar a caminhar juntos?
Enorê Rodrigues