30/12/2003
Reveilon
 

Muita gente fala em reveilon mas, não sabe o seu significao.Após muitas pesquisas , encontrei no   Jornalista Ignácio e Loyola Brandão , a explicação.
 
Um homem não sabe o que é réveillon
IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
Naquela casa, à beira da praia, a família estava reunida, como fazia todos os anos. Tinham passado o dia no mar, estavam acalorados e, soltos nas poltronas, curtiam a fresca da tarde, no horário de verão, tomando chá gelado, tônica com limão, passando gelo sobre a testa, pela nuca. A televisão ligada, começou o noticiário. As festas do réveillon no Rio, no Edifício Chopin, no dúplex da família Peres, nas mansões e nos condomínios, nas favelas, na praia, a queima de fogos. Réveillon na Bahia, os trios elétricos, os artistas, a movimentação nas praias. Réveillon no Recife, em Porto de Galinhas; em Fortaleza (com Ciro Gomes e sua musa, Patrícia Pillar, a primeira estrela brasileira a ser, talvez, primeira-dama); em Manaus, nos afluentes do Amazonas. Réveillon, réveillon, réveillon.
A palavra foi repetida à exaustão. Ninguém prestava muita atenção, o assunto chegara às raias do paroxismo, nenhum de nós suportava ouvir falar em milênio ou fim do século, duas mentiras criadas pelo marketing, pela mídia, pelo consumismo. Estávamos sonolentos, mas desligados, a quase mil quilômetros de distância de nossas casas, trabalhos, problemas, com as cabeças enevoadas, os estômagos cheios de batidas de limão e maracujá, sorvidas a um sol de 40 graus. De repente, aquele senhor, pai de um parente, agregado novo à família, homem simples, caladão, observador, interessado em tudo, fez uma pergunta que nos fez dar um salto. Seu filho é professor dos mais estimados em um colégio secundário de alto porte em São Paulo e catedrático em uma universidade. Ele, o pai, porém, manteve a simplicidade do quase caboclão, que arregalou os olhos maravilhado ao se ver pela primeira vez numa lancha, quebrando ondas do mar gelado de Arraial do Cabo. A mesma simplicidade que o deixou em dúvida diante de uma tabuleta: Pé de Cure. Aqui se fala assim? indagou ele, um sulino. Não, respondemos. Aqui se erra assim, a tabuleta quer dizer: pedicure. E ele compreendeu que era um pedaço de outro Brasil, que FHC não conhece nem compreende. Então, ele se voltou para nós e indagou:
- Podem me dizer onde é esse reveilon?
Não afrancesou a palavra - réveion. Pronunciou todas as letras.
- Como?
- Onde vai ser esse reveilon de que falam tanto e para onde todos querem ir?
Nossa ficha caiu. Devia ser o estado nebuloso em que nos encontrávamos.
- Réveillon é uma festa, não é um lugar.
- Uma festa? ...
- É a passagem do ano.
- E por que dizem reveilon?
- Porque... porque ...
Nenhum de nós sabia. Perguntem de repente de onde vem essa palavra, quando se meteu pela nossa linguagem coloquial. Não se surpreendam se as pessoas abanarem as cabeças, com expressão de dúvida. Talvez o escritor Deonísio da Silva saiba responder, ele pesquisa de onde vêm as palavras.
- Sim, alguma explicação há de haver... afinal só se fala nessa festa, todos querem ir ao reveilon. Não pode ser uma simples festa de fim de ano. Afinal, no fim de ano, a gente se abraça, deseja feliz ano-novo, bebe um copo e espera pela vida que há de ser boa, mas que não vai melhorar muito só porque um ano acabou e o outro começou. A vida da gente, muitas vezes, muda mais no meio do ano. Ou em março, ou outubro. Agora, esse reveilon parece uma coisa mágica. Reveilon, reveilon. Como se fosse abracadabra.
Calou-se, como que envergonhado. Pilhou-se a falar, falar, ele sempre calado e cauteloso.
- Desculpem... falei bobagem... vocês estão calados.
Estávamos. De vergonha. Não tínhamos o que dizer. Ele estava certo. Que réveillon? Por que ficaram todos loucos? O mundo está fora de si. Será que não basta um aperto de mão, um abraço, um beijo, uma taça de vinho ou um copo de cerveja erguidos num brinde suave e terno, cheio de sinceridade? Não basta querer, delicadamente, desejar, como estou desejando a vocês, leitores: feliz ano-novo? Vamos continuar a caminhar juntos?



Enorê Rodrigues
 
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